A recaída comportamental de Bolsonaro

0
253

Nada mais definidor do actual momento que vive a política brasileira do que o seguinte dito francês: “afaste a natureza e ela voltará a galope”.

O presidente Bolsonaro voltou a meter os pés pelas mãos em declarações infelizes, constrangedoras, criando dificuldades para o seu governo. Já se fala que, continuando assim, ele não precisará de oposição para ver desaparecer a popularidade que começa a perder.

Para ficarmos nas mais recentes, Bolsonaro recomeçou a criticar as medidas de prevenção da COVID, como isolamento social, restrições a certas atividades económicas, uso de máscaras. Foi a ponto de chamar de “maricas” os que temem o coronavírus, “pois morrer todos nós vamos morrer”, disse ele. Estranhou ainda que, nas eleições municipais, alguns candidatos rigorosos na aplicação de medidas, como o prefeito de São Paulo, Bruno Covas, o mais votado domingo passado, tenha tantos votos.

Ainda na pandemia, resolveu adoptar a vacina de Oxford como a ideal, sem nenhuma base científica. Ainda não se tem uma vacina aprovada. Mas ele não perde uma oportunidade de criticar a CORONAVAC, que é de um consórcio com a presença da China, em colaboração com o governo de São Paulo, que quer adquirir um lote. A implicância, que se deve ao facto de ser adversário político do governador João Doria, teria levado a sugerir à autoridade sanitária a suspensão dos trabalhos pela ocorrência de um óbito entre os brasileiros que participam dos testes. Ocorre que a morte do cidadão nada teve com a experiência da vacina, pois ele suicidou-se. A repercussão foi a pior possível. E a proibição não durou 48 horas.

 Ainda assim, a capacidade de gerar polémicas e atritos tem-se mostrado inesgotável. O presidente não perde uma oportunidade de implicar de público com o seu vice, general Hamilton Mourão, oficial de grande prestígio nas Forças Armadas e que tem conquistado simpatias na sociedade civil. Além, é claro, de não deixar de alfinetar seus ex-ministros, todos, hoje, adversários. 

Mas foi na eleição americana que ele começou a mostrar preocupante instabilidade emocional. Primeiro, não reconhecendo a vitória de Joe Biden, “pois existem processos na Justiça americana”. Depois, falou sobre as ameaças de Biden de barreiras comerciais ao Brasil na questão do desmatamento e dos incêndios, que embora equivocadas totalmente, não merecem respostas públicas como as que vem dando. Numa ocasião, chegou a provocar perplexidade e risos, quando afirmou que esgotadas as negociações diplomáticas, se for preciso, vai haver pólvora. Isso mesmo.

Uma grande pena esse comportamento incompatível com a alta função que lhe foi confiada por 57 milhões de brasileiros. Voltou a entrar em choque com o Parlamento e com o Judiciário, por motivos absolutamente alheios aos reais problemas do Brasil. Curioso é que Bolsonaro havia considerado as ponderações de uma ala do governo e estava viajando pelo país, visitando obras. E seu governo resolveu não começar nenhuma, e sim terminar as quase três mil que encontrou paradas. Entre elas, estradas importantes e o grande projecto de levar água do Rio São Francisco para mais de mil quilómetros no sertão nordestino. Obra iniciada por Lula, para terminar em 2005, e que ainda está longe do fim. Mas sua administração, em menos de dois anos, avançou muito e a custos inferiores aos contratados no passado. Seu governo tem áreas de excelência na gestão, na austeridade nos gastos, nos êxitos do agronegócio e na condução lúcida da economia. Promete privatizar o Porto de Santos, o maior do país, já com parte em mãos do sector privado, e com bons resultados.

Enfrentar a pandemia e suas consequências com esse tipo de comportamento parece que fica difícil. ■