Marighella: terrorista ou herói?

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É inacreditável que num mundo que teoricamente exalta a democracia, e num país das dimensões do Brasil, que, nos últimos 33 anos, elegeu com voto directo quatro presidentes, sendo que dois com dois mandatos, a mitificação de um terrorista, responsável assumido por acções de guerrilha com vítimas fatais, prospere. 

A fraude envolve o militante comunista Carlos Marighella, com uma vida dedicada ao comunismo e à acção violenta como instrumento de luta para a tomada do poder. Ele foi o autor do “Minimanual da guerrilha”, traduzido em seis idiomas e adoptado pelo comunismo internacional. 

Começou na Juventude Comunista, na Bahia, com menos de 20 anos, abandonou o curso de engenharia para se transferir para São Paulo, onde exerceu actividade de instrutor de jovens, tendo passado uma temporada em Moscovo. No governo Vargas foi preso inúmeras vezes e, na redemocratização, em 1945, foi eleito deputado federal pela Bahia, companheiro do escritor Jorge Amado.

A sua adesão à luta armada como opção levou-o a romper com o Partido Comunista, ligado a Moscovo, que orientava o partido a procurar a tomada pacífica do poder pela via da infiltração nos militares, intelectuais e na Igreja Católica. Estaline considerava a grande derrota da União Soviética a guerra civil em Espanha, a qual atribuía a derrota à união dos militares com a Igreja.

Assim é que Marighela ligou-se à linha de Mao Tse Tung e, mais adiante, fundou o PC do Brasil. Com o regime militar no país, alinhou-se com Cuba, passando a ser o mais credenciado representante de Fidel Castro. O seu trabalho inicial foi encaminhar jovens para treino militar e doutrinação revolucionária em Havana. 

Nos anos de 1967 a 1969, esteve presente de alguma maneira em importantes acções terroristas, especialmente em São Paulo. Assaltou um comboio que carregava dinheiro, atirou um carrinho de dinamite contra um quartel. Neste episódio morreu um jovem que prestava o serviço militar, morador numa comunidade muito pobre. Com o governo Fernando Henrique indemnizando “vítimas da ditadura”, as famílias dos autores receberam indemnizações, em média, sete vezes superiores à da modesta mãe da vítima inocente. 

Hoje, este ideólogo da violência é nome de escolas e ruas em cidades de maioria esquerdista. E foi lançado um filme sobre sua vida, em que aparece como um combatente contra a ditadura militar. É dispensável dizer que o filme está há semanas em cartaz, com pouca frequência, mas muito noticiário. Mesmo assim, já foi visto por mais de 200 mil pessoas. Na verdade, a sua vida foi toda devotada a cumprir missões da União Soviética e de Cuba, que não eram democracias. 

A morte de Marighela deu-se em São Paulo, numa operação em que ele foi ao encontro de dois padres dominicanos que haviam sido presos e convencidos a entregar o comandante Marighella. O activista ficou muito ligado aos dominicanos e transformou seus conventos em abrigo para os companheiros procurados pelas autoridades como autores de actos violentos, incluindo mortes. A base que reuniu os famosos “guerrilheiros do Araguaia” era um convento dominicano na região. Um dos religiosos, conhecido por frei Betto, de uma tradicional família de Minas, é lembrado como um dos brasileiros mais chegados a Fidel Castro. Na sua cartilha da violência, Marighella explica que “não importa a identidade do cadáver, mas sim seu impacto no público”. 

Curiosamente, os militares a isso assistem com certa passividade. Os dados aqui lembrados estão num minucioso levantamento das acções naqueles anos reunidas pelo Exército num projecto denominado de ORVIL – livro ao contrário –, mas de circulação restrita entre militares e aproveitado no “Verdade Sufocada”, de um militar que participou do combate à guerrilha em São Paulo, e que é vendido apenas na Internet. Este livro é bem vendido há quase vinte anos. ■