Mecenato: Cultura sem ideologia e sem lucros

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A vida continua e não pode parar por causa de pandemias, crises políticas e económicas. Por pensar assim, dois empresários de muita relevância no Brasil uniram-se em torno de uma causa mais do que nobre. 

A causa é recuperar e dar maior dimensão ao Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP), que possui a maior colecção da América Latina. São quadros de Picasso, Renoir, Degas, Matisse, Boticelli, El Greco, Monet, Van Gogh e, claro, o que existe de melhor na pintura brasileira. Esta semana, aliás, foi aberta uma exposição da escultora e pintora Maria Martins, presente no Moma de Nova York. 

O museu nasceu da coragem e espírito público do jornalista Assis Chateaubriand, que comandava a maior rede de comunicação do país, e foi senador e embaixador do Brasil em Inglaterra. O MASP, primeiro, foi instalado no edifício-sede dos Diários Associados. Depois, o prefeito Adhemar de Barros doou o terreno na Avenida Paulista ao museu, uma obra de arquitectura e engenharia ousada, que foi inaugurada, em 1968, pela Rainha Isabel, de Inglaterra. 

Os dois empresários são Alfredo Egydio Setúbal, um dos accionistas do Banco Itaú, e o ex-deputado Ronaldo Cezar Coelho, um dos grandes coleccionadores do país, accionista relevante em empresas da dimensão da Light e da BR, a maior distribuidora de petróleo do país. E estão numa cruzada singular. Ambos tem história no mecenato cultural. 

O projecto, quase completo, é levantar doações de 30 milhões de euros, sem isenção fiscal que não a existente, de famílias relevantes, que passariam a ter os seus nomes ligados à instituição.  Chateaubriand constituiu este acervo com as doações dos maiores empresários do Brasil da época e fez excelentes compras, uma vez que quase todas foram realizadas de 1948 a 1953, na Europa, onde as grandes famílias estavam a reconstruir seus negócios e precisavam de dinheiro. 

Agora, em vez de obras, o investimento será num edifício anexo, no aumento da área de exposição, pois o acervo está estimado em dez mil obras. Haverá um piso para escola de arte e outro para um centro de restauro, com uso das mais modernas tecnologias. Estará ligado à sede principal por um túnel. 

São Paulo, com a sua pujança económica, já tem obras de referência na medicina, como os hospitais Albert Einstein e o Sírio-Libanês, construídos pelos empresários israelitas e sírio-libaneses, cujas famílias denominam andares, centros cirúrgicos e outros espaços. Os dois estão entre os melhores do mundo, recebendo o que existe de novidade em aparelhos de diagnóstico e robôs. E com hotelaria cinco estrelas, que é o que diferencia os hospitais privados no Brasil. 

O crescimento do sector privado brasileiro é formidável, só podendo mesmo ser detido pela acção nefasta das ideologias que combatem a economia de mercado, a única que garante progresso, distribui riqueza, abre oportunidades e investe na adequada formação da mão-de-obra, qualificando para formar um grupo cada vez maior de trabalhadores bem-remunerados. E investir na cultura real tem também seus reflexos no social, inclusive pela qualidade da gestão . A residência de Roberto Marinho , o fundador do grupo de “media” Globo, a do banqueiro Walter Moreira Salles, no Rio, e a de Oscar Americano e de Renata Cresci, em São Paulo, são centros culturais relevantes e bem conservados. 

Cultura e história são instrumentos importantes para enfrentar a barbárie, como na semana passada o ataque incendiário à estátua de Pedro Álvares Cabral. ■