Prioridade para a Saúde

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Faz parte do discurso dos políticos republicanos a defesa da saúde e da educação como compromissos de campanha. Mas, curiosamente, ao chegarem ao Poder, nada de significativo é feito, em nenhum dos dois setores. Afinal, os resultados de uma boa obra nestas áreas costumam chegar depois das próximas eleições, deslocando a prioridade para projetos imediatistas, eleitoreiros e ditos democráticos.

Nesses tempos de pandemia, em que se verifica a real importância da saúde pública, chama a atenção as grandes obras hospitalares, a cargo do sector em tempos que a medicina privada ainda não tinha a relevância que tem hoje no mundo moderno. E nem havia os planos e seguros voltados para a saúde, que, além de atenderem aos participantes com qualidade, desafogam o sector público para atender as classes menos favorecidas.

Foram avanços em regimes autoritários. Em Portugal, o Hospital de Santa Maria, até hoje o maior e mais importante, que serve a Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e Escola de Enfermagem, no prédio anexo, foi obra do Estado Novo e tem as marcas da arquitetura monumental da época. No mesmo período, na Itália, criou-se a seguridade obrigatória, que levou a assistência de saúde a boa parte dos trabalhadores italianos.

Com base nas caixas de seguridade italianas, corporativas, Getúlio Vargas, no Brasil, criou os institutos de bancários, ferroviários, comerciários, industriários e servidores públicos. Tudo simultâneo à construção de grandes hospitais no Rio de Janeiro, até hoje os maiores e mais importantes do sector público.

Em São Paulo, as entidades que estão hoje na linha de frente do combate à pandemia foram criadas nos anos trinta e quarenta, por Adhemar de Barros, que governou São Paulo quatro vezes – três como governador e uma como presidente da Câmara da capital – e era médico formado no Rio, com mestrado na Alemanha e residência médica na França. Este homem criou o Hospital das Clínicas, há 70 anos o maior da América Latina, os institutos Adolfo Lutz e Emílio Ribas, onde estão os hospitais, laboratórios e centros de pesquisas mais importantes do Brasil, além da Fiocruz, no Rio de Janeiro. O dr. Adhemar exerceu o primeiro mandato na ditadura Vargas, nomeado Interventor em São Paulo.

O SUS, Sistema Universal de Saúde, foi, na Constituição de 1988, a consolidação de projectos anteriores, especialmente no governo do General João Figueiredo, o último do regime militar. No Brasil, hoje, a presença de planos e hospitais privados também tem relevância, já que eles protegem cerca de 30 milhões de brasileiros.

Uma boa herança histórica em Portugal, no Brasil e em antigos Estados ultramarinos são as Santas Casas e as Beneficências Portuguesas, em grande número e espalhadas pelos territórios. A Santa Casa da Misericórdia do Rio foi fundada pelo Padre Anchieta, há mais de quatro séculos.

Compatibilizar o aumento de gastos com saúde com a manutenção de uma rede pública eficiente e universal vai ser o desafio dos países ocidentais na pós-crise. Já em África, onde a pandemia começa a se expandir, a situação será sempre mais complicada, pois saúde exige gastos e gastos despertam a cobiça dos governantes corruptos, grande maioria no continente.

Uma descolonização criminosa, irresponsável, por forte influência das esquerdas ligadas à então URSS, impediu que o processo de emancipação fosse controlado, lento, gradual, seguro, sem expulsar os originários da Europa, como aconteceu com sucesso no Brasil. França, Itália, Alemanha e Inglaterra se precipitaram, e Portugal foi abandonado pelo Ocidente. O resultado é conhecido, mas pouco comentado.

Lições da história! ■