Eleições: em primeiro lugar, a qualidade da governação

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Aparentemente, a julgar pelos relatos da comunicação social, fiquei isolado como o único comentador da situação política a defender publicamente a unidade no PSD entre as diversas sensibilidades – alguns chamar-lhe-ão facções – como a melhor forma de vencer o PS e António Costa nas próximas eleições e dar um novo rumo ao país. Lamento não ver os sinais da tal grandeza de alma que aqui evoquei na semana passada.

Assim, fez bem Rui Rio em mostrar flexibilidade relativamente às exigências processuais de Paulo Rangel, enfrentando a afirmação de que tem medo de perder, de forma a que a disputa interna decorra da forma mais democrática e sensata possível. De facto, Rui Rio está em melhor posição do que Paulo Rangel, pode perder com honra e com a sua carreira política intacta, enquanto Paulo Rangel corre o risco de terminar a sua carreira no caso de perder a eleição, nomeadamente no plano nacional contra António Costa, seja porque surge na posição pouco edificante de colocar as suas ambições políticas acima do partido e porque apenas avançou para disputar a liderança quando surgiu a oportunidade de mudança do ciclo político. Antes aceitou ser escolhido por Rui Rio para o Parlamento Europeu. 

Como disse antes, votarei no PSD qualquer que seja o vencedor da disputa interna, mas não nego que prefiro ver Rui Rio como primeiro-ministro. José António Saraiva, na sua crónica semanal no jornal “Sol”, fundamenta o que subscrevo: “Rui Rio foi um mau líder da oposição, muitas vezes por pudor, ou seja, por recusar a demagogia, por ‘excesso de honestidade’, por não querer fazer certas críticas ao Governo dado saber que, se estivesse no poder, não poderia fazer diferente ou melhor. Não se aproveitou da pandemia, pelo contrário: durante estes últimos anos esteve sempre do lado da solução e não do problema no que respeita à saúde”.

Saraiva acrescentou depois: “Os defeitos de Rui Rio como líder da oposição serão qualidades como governante. A imagem de seriedade que projecta é bem necessária numa época em que Portugal precisa de primeiros-ministros em que as pessoas confiem. Não faz promessas em vão. E tem experiência de administração pública: esteve ao longo de 11 anos à frente da Câmara do Porto, enquanto Rangel não tem tarimba nesse campo”.

Não posso estar mais de acordo: depois de António Costa, Portugal não precisa de mais habilidades políticas e de excesso de fantasias. Precisamos não apenas de um primeiro-ministro rigoroso, com uma sólida experiência, capaz de formar equipas e de escolher pessoas que não sejam apenas os barões do partido, mas os melhores e mais sérios para governar. A tarefa é imensa e apenas os melhores a poderão levar a cabo com sucesso.

Vivi recentemente uma experiência interessante no Porto neste domínio, numa das sessões do Congresso da Sedes. Durante um dia inteiro, alguns dos mais conhecidos economistas e financeiros portugueses demonstraram com factos, estatísticas e experiências retiradas de outros países, que a economia portuguesa se encontra estagnada e apontaram as razões da decadência nacional, fazendo propostas para ultrapassar o nosso atraso no plano europeu e mundial. Terminado o dia de trabalho foi o tempo de o primeiro-ministro António Costa fazer uma longa intervenção em que mostrou de forma formalmente convincente exactamente o contrário. Para António Costa, Portugal está no bom caminho, tem tido os mais variados sucessos e o futuro dificilmente poderia ser melhor. Repito, com uma outra audiência menos experimentada, estou certo que muita gente acreditaria.

Relato esta experiência procurando demonstrar a importância de o próximo governo falar verdade aos portugueses e possuir uma forte componente pedagógica, explicando de forma objectiva e competente as suas propostas, além da seriedade suficiente para não fazer cedências à demagogia e à desonestidade. É essencial a reforma das leis eleitorais a fim de incentivar a participação democrática dos eleitores, mostrando de forma clara aos portugueses a diferença relativamente aos seis anos da governação de António Costa, na companhia do PCP e do Bloco de Esquerda. O debate não pode ser apenas ideológico, nem para copiar os métodos de propaganda do PS, antes fazendo a necessária pedagogia através do exemplo. Também aqui Rui Rio leva vantagem.

O PS e António Costa estão no poder há seis anos contra toda a evidência e análise objectiva do estado do país, o que só pode ter acontecido através de uma máquina de propaganda devidamente oleada e bem paga, mas também pelo esquerdismo que domina algumas redacções das televisões e jornais portugueses, sem esquecer os comentadores, em exercício há dezenas de anos. Claro que há naturalmente gente séria nos meios de comunicação nacionais, bem como existem redacções que procuram demonstrar a falácia do discurso oficial, mas a opinião pública em Portugal é principalmente influenciada pela aura do poder.

Na próxima semana vou procurar demonstrar com exemplos concretos a falácia da intervenção de António Costa no Congresso da Sedes e de como o seu Governo tem usado a mentira e as meias-verdades para negar a desagradável realidade nacional. É certo que nestes seis anos houve preocupações sociais, só que feitas principalmente para agradar ao PCP e ao Bloco de esquerda, sendo dificilmente sustentáveis pelas finanças do Estado, a braços com uma dívida enorme, além de não primarem pela racionalidade. De facto, criaram problemas insolúveis à economia e à organização do Estado, porque não levaram a cabo reformas pensadas e elaboradas para sobreviver ao tempo, mas impulsos pontuais e parcelares, provocados pela necessidade política de dar resposta às reivindicações dos partidos da extrema-esquerda, criando nesse processo um monstro que não permite uma gestão racional em sede de administração pública.

Entre nós, as leis e demais decisões dos governos já constituem há muito uma complexa e conhecida manta de retalhos a que António Costa, nestes seis anos, acrescentou decisões parcelares que se destinam a uns e não a outros, a idades e rendimentos diferenciados e a sectores sociais diversificados. Fazer a gestão de toda a confusão criada, nomeadamente por uma administração pública com fracas competências e fraco uso das tecnologias disponíveis, é praticamente impossível. Razão das constantes falhas que diariamente nos chegam através da comunicação social.

Portugal precisa urgentemente de um bom Governo, sério, competente e com uma estratégia clara com vista ao crescimento económico, sem o qual a crise no horizonte será inevitável. Mas precisa também de gente com a capacidade e a experiência necessárias para organizar o Estado, para profissionalizar e hierarquizar a administração pública e para responder com eficácia às necessidades de segurança e de qualidade de vida dos portugueses. Condições que a grande família socialista, preocupada principalmente com o seu bem-estar e em manter os seus empregos, não tem as condições mínimas de poder criar. Além da sua convivência com a corrupção. ■