O diabo chegou e é o Chega

0
1125

A semana passada usei o célebre debate de 1975 entre Álvaro Cunhal e Mário Soares para recordar quais eram as posições do PCP e do Partido Socialista naquele tempo e para acentuar que o PCP pouco mudou neste quase meio século. Além de ter detalhado as mudanças políticas que, entretanto, pouco a pouco, ocorreram no PS.

Esta semana, o tema político em debate foi a chegada do diabo, sob a forma do acordo político do PSD com o CDS e o Partido Liberal, destinado a assumir a governação dos Açores com o apoio parlamentar do Chega.

Longe das posições de Mário Soares, bem claras no debate de 1975, o PS decidiu aproveitar o caso dos Açores para publicitar um cordão sanitário ao redor daquilo a que chama um partido fascista, racista e xenófobo, ou seja, tal como Álvaro Cunhal, o PS decide o que é ou não é aceitável em democracia. Aparentemente, o Chega não é aceitável, mas as direcções dos partidos políticos portugueses escolherem os deputados da Nação em lugar dos eleitores, já é aceitável. Pontos de vista muito pouco democráticos, está bem de ver, mas inevitáveis no PS do nosso tempo.

O PS não se preocupa que o Chega seja um partido cuja constituição foi aprovada pelo Tribunal Constitucional, tenha concorrido em eleições, que apesar de pouco democráticas são ao gosto do PS, ou que alguns milhares de portugueses tenham votado no Chega. Nada disso importa ao PS, António Costa é que sabe o que é ou não é democrático; e quando a democracia pode prejudicar eleitoralmente o PS, então os portugueses que votaram no Chega que mudem de país, deveriam ter votado no PS. 

É comovente o esforço que o pessoal do PS faz para demonstrar que o Bloco de Esquerda e o PCP são partidos convertidos à democracia e que nada têm a ver com os milhões de mortes do comunismo, nem com a defesa do não pagamento da dívida portuguesa e da saída da União Europeia e da NATO. 

Estou nos antípodas das ideias do Chega, não perfilho da maioria das suas posições políticas, algumas demenciais, mas tal como Mário Soares não concordo com cordões sanitários não escolhidos pelos eleitores, além de ser uma medida estúpida. Em 1975 o PCP pretendia sanear o PSD e o CDS e hoje o PS pretende sanear o Chega. 

Esta posição não tem a ver apenas com a democracia, mas com a sanidade política que o PS tem vindo a perder de forma incontornável. O Chega não tem hoje poder suficiente para ser um partido perigoso no contexto nacional, mas que  pode tornar-se perigoso  se crescer eleitoralmente, o que poderá acontecer por duas razões: primeira, se o PS continuar a governar mal; segunda, se o PS e os outros partidos continuarem a manipular o sistema político a seu favor, isto é, se cada vez mais portugueses não tiverem voz activa na democracia portuguesa e o PS continuar a via autoritária e insensata que está a seguir, para manter o poder através da propaganda e da manipulação do sistema político e a promover a corrupção, tanto económica como política.

O PS de António Costa está a tornar-se crescentemente insuportável para milhões de portugueses. Cansa nas televisões, ofende aqueles de quem discorda, não ouve os cidadãos e as instituições, decide como uma autoridade divina e tem um discurso que está nos antípodas da realidade.  Mais, é a realidade que vai corrigindo os erros que o PS comete com custos insuportáveis para a economia e para a produção de riqueza. São as 35 horas de trabalho na função pública, é o porto do Barreiro e a ferrovia em bitola ibérica, o aeroporto do Montijo, o hidrogénio, o Serviço Nacional de Saúde e a ausência de investimento produtivo. 

Basta de um PS errático, palavroso, autoconvencido, autocrático e pouco sério, é o que pensam muitos portugueses.

A segunda fase da pandemia

Na primeira fase da pandemia o PS atrasou-se a tomar algumas medidas, nomeadamente em relação aos lares, a negociar com as empresas privadas uma possível colaboração para o caso de ser necessário, no fecho das fronteiras e na disponibilização dos testes. A desculpa foi que se tratava de uma situação completamente nova e imprevisível.

Durante esse período o Governo e as autoridades científicas falaram frequentemente da possibilidade de haver uma segunda vaga, o que acabou por se verificar e que agora estamos a viver. Infelizmente, o Governo voltou a ser apanhado com as calças na mão: não há acordo com os privados; o número de testes continua insuficiente; os lares, agora as prisões, transformaram-se em centros de infecção e de morte; o pessoal médico queixa-se de todo o tipo de insuficiências e da incapacidade de resposta dos hospitais; não existe informação capaz de ser usada cientificamente e a ministra da Saúde faz de conta que está a resolver os problemas. Faz pena, mas o primeiro-ministro diz que são as circunstâncias muito difíceis. 

Para quem conheça o Partido Socialista e a sua aversão histórica a todas as formas de organização, bem como a sua tradicional tentação de tapar buracos com medidas avulsas de curto prazo, saberá que o problema não são as circunstâncias, mas a má qualidade do pessoal político que António Costa chamou para governar, para combater a pandemia, ou para combater os fogos de 2017. É da natureza do partido.

Aliás, basta olhar para as últimas medidas. Depois de os restaurantes e cafés terem feito investimentos para permitir o chamado distanciamento, o Governo agora mandou-os fechar. Ao sábado e ao domingo, pelas 13.00 horas e não pelas 15.00 horas como seria sensato para poderem servir, pelo menos, o almoço. A pandemia não depende daquelas duas horas, mas se os proprietários e os trabalhadores não compreenderem as regras levam com a polícia, sendo que no caso de uma manifestação da CGTP, trata-se do direito sagrado dos trabalhadores. Os portugueses são mantidos em casa, gostem ou não, mas não se podem encontrar com a família num concelho vizinho, porventura porque os carros em que se deslocam estarão infectados, ao mesmo tempo que os transportes colectivos funcionam como se nada acontecesse.

Nada disto tem grande importância porque o primeiro-ministro António Costa está atento, vive nas televisões onde gasta o seu precioso tempo a explicar o inexplicável. No entender do PS não há nenhum problema que uma boa hora de propaganda na televisão não resolva. Para mais, o pessoal de José Sócrates anda por perto para tratar da maquilhagem.

Faz pena, mas é por estas e por outras que os países do cabo-vassoura da União Europeia nos passam à frente, um a um. Deve ser do vírus. ■