Portugal é o país dos casos

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A governação do País vai de mal a pior e se os portugueses não acordarem para a realidade receio que só possa piorar. A semana passada tratei aqui a questão da ferrovia, mas poderia escrever coisas semelhantes, ou piores, ou mais assustadoras, se escrevesse sobre as restantes grandes obras públicas: aeroporto do Montijo, Porto do Barreiro e Metro Circular. Por alguma razão o PS acabou no tempo de Sócrates com o Conselho Superior de Obras Públicas para ficar livre e poder fazer asneiras à vontade. O Governo de António Costa, bastante mais hipócrita, ficou-se pelo anúncio de um novo conselho, mas ainda ninguém deu por tal coisa existir, ou seja, as obras públicas são decididas por razões meramente políticas, sem ouvir quaisquer pareceres sérios, nacionais ou internacionais, fora da órbita do Governo, que dispensa estudos custo/benefício e, principalmente, como não tem uma estratégia de desenvolvimento económico de médio e longo prazo, faz navegação à vista, a que o tempo se encarregará de mostrar os erros cometidos.

Quanto a promessas estamos aviados. O anterior ministro Pedro Marques anunciou com pompa o maior investimento do século na ferrovia e passados quatro anos ainda não há realizado nada que se veja e o que está a ser feito é estrategicamente errado. António Costa prometeu levar as grandes obras públicas a votos no Parlamento; lembram-se os leitores de ouvir dizer que era para serem aprovadas por dois terços do hemiciclo? Ora, quando a maioria da Assembleia da República vetou a linha circular do Metro, numa das decisões mais meritórias daquela casa, caiu o Carmo e a Trindade, acusando o Parlamento de não poder interferir nas decisões do Executivo; e a questão acabará, provavelmente, no Tribunal Constitucional, em vez de ser revista por alguém que saiba fazer contas. Além disso, o projecto da linha circular é tão mau, segundo alguns técnicos do próprio Metro, que está, oficialmente, em segredo e as empresas de construção fogem, compreensivelmente, de nele investirem tempo e dinheiro.

Quanto a promessas estamos aviados. O anterior ministro Pedro Marques anunciou com pompa o maior investimento do século na ferrovia e passados quatro anos ainda não há realizado nada que se veja e o que está a ser feito é estrategicamente errado. António Costa prometeu levar as grandes obras públicas a votos no Parlamento; lembram-se os leitores de ouvir dizer que era para serem aprovadas por dois terços do hemiciclo? Ora, quando a maioria da Assembleia da República vetou a linha circular do Metro, numa das decisões mais meritórias daquela casa, caiu o Carmo e a Trindade, acusando o Parlamento de não poder interferir nas decisões do Executivo; e a questão acabará, provavelmente, no Tribunal Constitucional, em vez de ser revista por alguém que saiba fazer contas. Além disso, o projecto da linha circular é tão mau, segundo alguns técnicos do próprio Metro, que está, oficialmente, em segredo e as empresas de construção fogem, compreensivelmente, de nele investirem tempo e dinheiro.

No caso do novo aeroporto, é verdade que Lisboa precisa de um novo aeroporto com urgência, mas não precisa de uma solução que não resiste ao tempo e a Portela no centro da cidade é um perigo permanente e um suplício para quem vive na rota dos aviões. Além disso, o que acontecerá se tivermos em Lisboa um acidente semelhante, ou pior, àquele que recentemente aconteceu na Turquia? Nesse dia vamos ter as carpideiras do costume a empurrar as culpas para vinte anos de governos. Assim, por todas as razões, só um novo aeroporto para o século XXI representará uma verdadeira economia, acabando com os milhares de milhões de euros gastos em remendos. Um novo aeroporto que, naturalmente, poderá ser construído por fases e sem limitações técnicas, não havendo razões para o Governo pretender sofrer as dores da ANA, a quem cabe fazer o investimento. 

O porto fantasma do Barreiro é uma outra mentira piedosa para contentar as autarquias sedentas de obras, que não pensam no futuro e não sabem que uma grande metrópole nascerá ao redor do Tejo, unindo todos os concelhos através de uma economia de serviços, com uma forte vocação para o turismo vindo do mar em grandes paquetes e para a marinha de recreio. Metrópole onde crescerão outras actividades como a Saúde, as conferências e congressos internacionais e a cultura.

A beira rio do lado de Almada é hoje um desleixo governamental e autárquico, um valor económico parado no tempo, a implorar que um dos nossos melhores arquitectos desenhe uma obra para toda a zona e não, como habitualmente, construções avulsas sem nexo e sem gosto, verdadeiros terrores urbanísticos em que a área metropolitana de Lisboa é pródiga, apesar de haver algumas obras, poucas, de valor reconhecido. 

Sisa Vieira salvou o Chiado, mas pelo que leio a autarquia decidiu tornar o centro de Lisboa num primeiro soviete português, onde manda quem pode e obedece quem deve. Os proprietários da zona, o comércio e os próprios visitantes parece que passarão a ser vigiados por polícias que verificarão se os visitantes têm autorização para lá chegar de automóvel. Isso para já, porque no futuro, se os lisboetas não se cuidarem na mesa de voto, será bastante pior. 

Existe todavia uma área de actividade onde se verifica um progresso notável em Portugal, a corrupção. Depois de anos de bem-aventuranças com a chegada de dinheiro de Angola, a classe política e o sistema financeiro descobriram de repente, – através de um jovem português, que faz o que sabe fazer melhor – que tinham um problema e como é habitual reagiram com os pés em vez de com a cabeça, através de desculpas esfarrapadas. Como nas telenovelas esperemos pelos próximos capítulos. 

Pelo meio soube-se que mais um socialista, no caso António Vitorino, criou uma empresa com a mulher, empresa que, como muitas outras de políticos, de tão dedicadas ao progresso da economia portuguesa, desapareceu. Neste caso, depois de fazer uns negócios que caíram na alçada da polícia espanhola; e para o PS não ficar sozinho na fotografia, temos um outro reputado ex-ministro, este do PSD, Dias Loureiro, a filha e o genro, que tal como a GALP e o BES, sem grande surpresa, fazem parte daqueles que estão a ser investigados. Claro que, como também habitualmente, nenhum dos investigados portugueses e espanhóis sabe onde param os milhões de euros que saíram da empresa de petróleos da Venezuela sem dar cavaco. Por alguma razão José Sócrates procurou ser amigo de Chaves e  de Maduro e o futuro de Portugal passou por Caracas e por Luanda.

Existe uma certa semelhança entre o caso da filha do ex-presidente de Angola e o ex-presidente do Montepio e da Associação Mutualista. Estão repentinamente a ser atacados por todos os lados quando caíram em desgraça, nomeadamente por aqueles que durante muitos anos os apoiaram e deles beneficiaram. Este caso do Montepio é particularmente instrutivo e por pudor não vou recordar o número e a qualidade das pessoas que durante anos apoiaram Tomás Correia nas suas diatribes e em Assembleias Gerais manipuladas, pessoas agora em profundo silêncio. Claro que o Banco de Portugal tem nestes casos particulares responsabilidades, a meias com o ex-ministro Vieira da Silva e a Maçonaria. Para variar, ninguém fala. 

Portugal é o país dos casos: (1) o juíz Ivo Rosa já conta uma dúzia de reprimendas do Tribunal da Relação por incompetência, mas um dia será ele a anunciar o que fazer com José Sócrates, que é um seu admirador pouco secreto, provavelmente mantendo as acusações mais graves e difíceis de provar e anulando as menos graves e mais prováveis de conduzir à condenação; (2) mais uma acusação para Ricardo Salgado; (3) O Futebol Clube do Porto é acusado pela enésima vez de fraude e de lavagem de dinheiro; (4) idem Luís Filipe Vieira; (6) o processo AIMinho iniciou a fase da instrução com 126 arguidos; (7) como se não houvesse lixo suficiente em Portugal, importamos lixo sob a batuta do ovni que habita o Ministério do Ambiente. Não tenho espaço para mais. 

Em resumo, quando for feita a história deste tempo, os vindouros perguntar-se-ão como foi possível. É fácil de responder, vivemos num regime falsamente democrático, dirigido por algumas oligarquias partidárias, na sua maioria pouco sérias e incompetentes. ■ 

No caso do novo aeroporto, é verdade que Lisboa precisa de um novo aeroporto com urgência, mas não precisa de uma solução que não resiste ao tempo e a Portela no centro da cidade é um perigo permanente e um suplício para quem vive na rota dos aviões. Além disso, o que acontecerá se tivermos em Lisboa um acidente semelhante, ou pior, àquele que recentemente aconteceu na Turquia? Nesse dia vamos ter as carpideiras do costume a empurrar as culpas para vinte anos de governos. Assim, por todas as razões, só um novo aeroporto para o século XXI representará uma verdadeira economia, acabando com os milhares de milhões de euros gastos em remendos. Um novo aeroporto que, naturalmente, poderá ser construído por fases e sem limitações técnicas, não havendo razões para o Governo pretender sofrer as dores da ANA, a quem cabe fazer o investimento. 

O porto fantasma do Barreiro é uma outra mentira piedosa para contentar as autarquias sedentas de obras, que não pensam no futuro e não sabem que uma grande metrópole nascerá ao redor do Tejo, unindo todos os concelhos através de uma economia de serviços, com uma forte vocação para o turismo vindo do mar em grandes paquetes e para a marinha de recreio. Metrópole onde crescerão outras actividades como a Saúde, as conferências e congressos internacionais e a cultura.

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