Presidenciais e outras questões

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Num curto tempo de uma semana ficou composta a lista de candidaturas à Presidência da República, faltando agora a decisão de Marcelo Rebelo de Sousa, que bem poderia prestar um serviço ao País e não se recandidatar. Sendo isso pouco provável, suponho que o mestre da tática política esteja a estudar as melhores soluções para ganhar a eleição com o mínimo de esforço. Quanto a isso engana-se, vai ter de se esforçar.

Felizmente, já tenho a minha candidata, a Dr.ª Ana Gomes, em quem votarei no tempo próprio e que espero possa dar uma coça ao actual Presidente pelas razões que já aqui expliquei. Desde logo, porque ela não é mestre de tática política, é uma pessoa simples, verdadeira, com serviços prestados ao País em inúmeras ocasiões, desde Timor ao Parlamento Europeu, nas suas muitas lutas pelo mundo fora e, não menos importante, nas causas que defende publicamente e sempre a favor dos mais pobres e dos mais atacados pelos poderes políticos e económicos.

E a propósito, agradeço que os leitores pensem sobre quais os serviços prestados ao País por Marcelo Rebelo de Sousa, antes e depois de ser Presidente da República. Durante anos arranjou inúmeras quezílias no jornal ‘Expresso’, criou uma montanha de factos políticos, foi um Presidente do PSD que não chegou a Primeiro-Ministro e ganhou uns dinheiros como comentador político, tudo antes de ser Presidente. Depois, viajou bastante, fez discursos, visitou todo o bicho careta que o convidou, assistiu a desastres, conviveu muito com os sem abrigo e tem um álbum de muitos milhares de fotografias. Também tem ajudado António Costa a governar, veremos com que resultado daqui a algum tempo. 

Tenho para mim que Ana Gomes pode ir à segunda volta e se o conseguir ganha a eleição. As razões são muitas: daqui até ao dia da eleição os portugueses vão aprender mais coisas sobre a presidência de Marcelo Rebelo do Sousa, a crise económica, financeira e social vai-se agravar, a má governação do País vai tornar-se cada vez mais evidente, e se existir verdadeiro debate entre os candidatos as fragilidades de Marcelo Rebelo de Sousa e a sua falta de estratégia para o País serão mais evidentes.

Claro que estou a assumir que a candidata Ana Gomes faça o que é certo: não deixe de denunciar as muitas falhas e a irrelevância da actual Presidência, a falta de independência do candidato, a sua relação com o poder económico, a ausência de propostas estratégicas para o País, que não é o mesmo que comentários avulsos, a sua infidelidade com quem o elegeu, em resumo, a inexistência da dimensão de estadista. 

Ana Gomes não deve dirigir a sua candidatura ao Partido Socialista, para além de aceitar de boa vontade os votos dos socialistas, mas a sua campanha tem de ser voltada para todos os que não estão contentes com o rumo do País, que está cada vez mais pobre em relação a todos os outros países da União Europeia, um País que não pode viver para todo o sempre com os subsídios da União Europeia, um País velho de séculos, mas que tem futuro entre os melhores se bem governado, com trabalho competente e visionário, um País mais democrático que faça as reformas das leis eleitorais, que oferece a todos os portugueses, de todos os sectores da sociedade, trabalho, suor e lágrimas para recuperar Portugal dos vendilhões que o amordaçam. Falar verdade aos portugueses em todas as circunstâncias.

Nada na vida que tenha algum valor é fácil, Ana Gomes não pode esperar facilidades, mas não deve perder de vista que nesta eleição só existe um adversário e esse chama-se Marcelo Rebelo de Sousa. Os seus adversários não são os outros candidatos, o do Chega incluído, nem será com o PS que terá se se preocupar, o PS terá de resolver os seus problemas com a ajuda dos seus militantes e neste momento não precisa de conselhos. Ana Gomes pode ir à segunda volta se falar para os portugueses de todos os credos, de todas as classes sociais, e os faça acreditar que, tal com tem acontecido na Irlanda e noutros países da nossa dimensão da União Europeia, nós temos futuro. Certamente com trabalho e sem facilidades, com maior disciplina colectiva, com uma melhor distribuição do esforço pedido aos portugueses, num País que premeia o mérito e não distribui comendas a quem o rouba. 

É difícil, mas não é impossível, basta que Ana Gomes seja ela própria, que junte nestes meses toda a compaixão que usou nas suas múltiplas tarefas ao longo dos anos, que seja fraca e sensível para com os fracos e forte perante a corrupção e a miséria política em que estamos a viver. Bastará ter razão, com tem feito.  O futebol é uma grande indústria que, como Michael Porter previu, conquistou com treinadores e jogadores de qualidade o mundo, mas que em Portugal vive na corrupção. Rui Pinto, independentemente dos seus possíveis erros, prestou um bom serviço a Portugal e à transparência das instituições. Somos parte da União Europeia, mas não fazemos fretes a amigos e temos de saber negociar com os inimigos, que é a forma de os vencer. Portugal tem vivido de ilusões, é tempo de a verdade fazer o seu caminho.

O jornalismo em Portugal é o que é. Todavia, uma candidata à Presidência da República não tem de explicar o que pensa do ordenado mínimo, mas tem de dizer que sabe como se acaba com a ignorância e a pobreza, através de creches e do pré-escolar de qualidade, com alimentação e transporte. Não tem de comentar a relação do Primeiro-Ministro com o Benfica, mas tem de dizer que acredita que a reforma das leis eleitorais contribuirá para a democratização do País e para que os deputados sejam verdadeiramente representativos da vontade dos portugueses e para que a ética republicana volte à Assembleia da República. O País não precisa de mais leis, mas precisa como de pão para a boca de gente honrada, gente que atraia para o serviço público mais gente honrada e competente.  Gente que saiba que não há mais lugar para os vendilhões.

O Primeiro-Ministro
António Costa

Muitos comentadores mostram indignação pelo facto de o Primeiro-Ministro ter aceite apoiar a candidatura de Luís Filipe Vieira nas próximas eleições do Benfica. Isso só se pode dever a não conhecerem António Costa, ou não terem seguido com a atenção suficiente o seu percurso político. Se não, vejamos: António Costa nunca se preocupou com a corrupção, não se interessa que haja ministros e secretários de Estado que criam empresas que negoceiam descaradamente com o Estado, não liga nenhuma às recomendações do Tribunal de Contas, não vê problema algum nos milhares de contratos por ajuste directo que roubam o País, convive alegremente com o pagamento das parecerias público-privadas, alterou no último momento uma decisão da Assembleia da República de reduzir as mordomias da EDP e não respeita as decisões do Parlamento no caso das obras públicas, como aconteceu no  caso do Metro de Lisboa. Expliquem-me, por que razão haveria ele de se preocupar com o apoio a mais um cidadão a contas com a Justiça, entre os muitos que ele tem apoiado e que estão nas mesmas circunstâncias? 

Aparentemente, muitos portugueses ainda não fizeram um pequeno esforço para conhecer António Costa. Pois bem, o tempo, como sempre, encarregar-se-á de o fazer. ■