Uma oportunidade perdida

“Portugal e os portugueses parecem caminhar como sonâmbulos para um suicídio colectivo”

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Uma das características da política portuguesa é a existência no debate público dos mais variados temas que chegam ao nosso conhecimento em catadupa, sem que se preste atenção às causas do nosso atraso relativamente aos outros países da União Europeia, ou quais as soluções que possam interromper este ciclo de empobrecimento do país e dos portugueses. Por acidente ou por intenção, Portugal e os portugueses parecem caminhar, como sonâmbulos, para um suicídio colectivo.

Vejamos como exemplo, o que temos andado a debater nas últimas semanas: (1) o caso Ivo Rosa; (2) Odemira e as migrações; (3) o Novo Banco e o relatório do Tribunal de Contas; (4) o desastre da TAP; (5) a corrupção na autarquia de Lisboa e em geral no País; (6) a entrevista maldisposta do Primeiro-ministro; (7) as intenções desconhecidas do Presidente da República; (8) os dinheiros da bazuca e o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). 

Não estou a dizer que estas sejam questões menores, mas apenas que uma a uma, ou todas juntas, não são mais do que sintomas de uma doença grave que afecta o País e que resulta da incapacidade de Portugal se saber governar. O que também não admira. Somos um país com níveis educativos e com uma qualificação dos recursos humanos, em média, mais baixos do que os restantes países europeus. Além de que politicamente não somos uma democracia nem, ainda, uma ditadura.

Uma outra questão central a este tempo da nossa história nacional é haver o desejo quase heroico de progresso social e de concorrer para a felicidade geral no planeta, mas sem os recursos para mandar cantar um cego e a aceitar sobreviver da solidariedade, da inteligência e do trabalho, em resumo, da produtividade, dos restantes povos europeus. Por alguma razão existe entre nós um programa de televisão chamado a “Quadratura do Círculo”, que é o dilema presente nas nossas vidas.

Recentemente escrevi e publiquei um Plano de Recuperação e de Resiliência alternativo ao do Governo, mais curto e conciso, que propõe gastar o dinheiro da bazuca em apenas dois objectivos: Educação e Industrialização. Trata-se de uma alternativa ao programa oficial, que se aplicado mudaria Portugal para sempre, nomeadamente na qualidade de nos sabermos governar. A educação, quando se generaliza a todo um povo, é para sempre, porque uma família com níveis elevados de educação reproduz esses valores nas gerações seguintes. Explico:

Educação – o que hoje diferencia Portugal relativamente aos outros povos europeus, nomeadamente os povos nossos concorrentes do alargamento, é a pobreza e a baixa qualificação média dos portugueses. Como tenho escrito, a pobreza e a ignorância perpetuam-se nas famílias de geração para geração e aquilo que proponho é criar um choque baseado nas creches e no ensino pré-escolar, com o fim de interromper esse círculo vicioso, de forma a garantir que todas as crianças, de todas as classes sociais, chegam ao ensino oficial aos sete anos, com idênticos índices de desenvolvimento. 

Para isso proponho retirar as crianças dos seus ambientes familiares, no mínimo durante dez horas por dia, e fornecer-lhes um ambiente de vida e de alimentação de elevada qualidade, com educadores qualificados e com transporte diário. O transporte é um elemento essencial do programa, porque é o meio que melhor pode concorrer para garantir a frequência disciplinada e a horas à escola, pelo menos até aos quinze anos, de todas as crianças, retirando aos pais uma tarefa económica e socialmente injusta. Para uma formação onde predomine a melhoria dos comportamentos sociais e o desenvolvimento de competências para a vida futura dessas crianças, de forma a que todas cheguem aos quinze anos e se recusem a continuar pobres e ignorantes.

O objectivo é conseguir numa geração obter a integração das crianças oriundas das famílias mais pobres e marginais num meio socialmente uniformizador e que, mantendo as crianças junto das suas famílias, possa dar-lhes as mesmas condições que usufruem as crianças das classes média e média alta. Condições como fazer desporto, natação, formação musical, enfim tudo aquilo que as famílias com melhores condições económicas e de qualidade de vida proporcionam aos seus filhos. Em que o objectivo central da colectividade seja o de que todas as crianças cheguem à entrada do ensino oficial, e mesmo depois, sem que existam as grandes diferenças de desenvolvimento que, presentemente, estão na origem do insucesso escolar e na marginalização de classe de muitas centenas de milhares de crianças.

Industrialização – Trata-se do único sector da economia que pode criar empregos para os adultos com baixas qualificações, que são quase metade da população portuguesa, que sobrevive em empregos marginais na parte pobre da economia dual, mas trabalhadores capazes da realização de tarefas repetitivas de maior valor acrescentado que só a indústria proporciona e contribuir dessa forma para reduzir um outro grande défice nacional, que reside no fraco volume e insuficiente valorização das nossas exportações. 

Nesse programa que proponho, limito-me a reconhecer que nos últimos oitenta anos as duas melhores fases da economia portuguesa, da EFTA e da AutoEuropa, terem tido em comum os mesmos três factores: (1) investimento estrangeiro, (2) indústria; (3) exportações. Trata-se, pois, de não inventar a roda e aceitar uma realidade económica bem-sucedida no nosso passado recente. 

O plano do Governo não cumpre nenhuma destas finalidades de forma consequente e está condenado ao insucesso, nomeadamente porque dividido por muitas finalidades diferentes, não tem massa crítica suficiente para a mudança. É mais um orçamento do Estado, que atribui recursos a fins diferenciados, porventura úteis e necessários, mas que no seu conjunto não constituem a força suficiente para a mudança. Como costumo dar como exemplo, o PRR do Governo não é uma carga explosiva que concentre todo o seu poder de fogo num único ponto. ■