O fatalismo do futuro

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Com cerca de um terço dos votos dos eleitores inscritos, Marcelo Rebelo de Sousa voltou a ser votado para Presidente da República. Resta agora saber o que vai acontecer a Portugal nos próximos cinco anos como resultado desta eleição. O próprio Marcelo recordou no seu discurso que dentro de três anos comemoramos meio século do 25 de Abril e desejou presidir então a um País mais desenvolvido. Infelizmente, isso não vai acontecer e o mais provável é o que profetizou o candidato da Iniciativa Liberal que afirmou, acertadamente, que no final do seu mandato Marcelo presidirá ao país mais pobre da Europa. Acreditem, não me enganei antes e não me vou enganar agora.

De facto, o agora renovado mandato do Presidente da República não vai mudar substancialmente em relação ao mandato anterior e Marcelo Rebelo de Sousa continuará a suportar no poder o grande vencedor da noite de domingo passado, António Costa. Este, por sua vez, também não mudará a sua vontade de se manter no poder até tentar a sua sorte numa candidatura à Presidência da República em 2026. Claro que pelo meio vamos ter uma grave crise social, económica e financeira, mas o Primeiro-Ministro acredita que isso não será nada que o impeça de, com mais ou menos bazucas europeias e com mais ou menos promessas de bem-aventuranças, sobreviver no poder durante mais três anos a cinco anos.

Quanto ao Presidente da República, com toda a probabilidade, irá privilegiar ser amado pelos portugueses e não deixará de percorrer o País a defender, com beijos e abraços, o terreno conquistado. António Costa, por sua vez, pagará o que for necessário para que a grande família socialista e o elevado número de portugueses e empresas dependentes do Estado o mantenham no poder. Suponho, para que isto aconteça, a União Europeia, que odeia ter muitos problemas, aceitará mais alguns anos da dívida a crescer.

Como é habitual entre nós, todos os candidatos encontraram nos resultados motivos de vitória. Até o PCP, porventura por ter ficado à frente do Bloco de Esquerda, não viu nenhum problema no resultado alcançado e não vislumbrou ainda que o seu futuro está irremediavelmente perdido. Os eleitores podem não ser muito perspicazes, mas já perceberam que precisam das bazucas europeias como de pão para a boca e não compreendem que se possa abandonar quem os sustenta. A partir do momento em que o PCP deixou de ser um partido do protesto para se tornar também em mais um partido dependente do poder, o seu futuro ficou traçado. O Bloco de Esquerda, por sua vez, tentou libertar-se do PS a tempo, mas duvido que isso lhe venha a valer de muito. Apesar de tudo, a crise poderá reduzir a rapidez da queda. 

A candidatura de Ana Gomes foi uma oportunidade perdida. Apesar de ser considerada uma europeísta convicta, uma vantagem nos tempos que correm, o seu posicionamento demasiado à esquerda tirou votos ao Bloco e ao PCP e não deu para chegar à segunda volta. Teria podido com outro posicionamento político de centro esquerda, mais social democrata e uma linguagem menos agressiva, ter tirado mais votos a Marcelo Rebelo de Sousa, nomeadamente da área do PSD e mesmo do CDS. Votantes que consideram, com razão, que o actual Presidente da República os enganou e não acreditam que um segundo mandato vá ser diferente. Acresce, para meu desgosto, que Ana Gomes não aproveitou esta candidatura para colocar na agenda política alguns temas de verdadeiro confronto com Marcelo e com a maioria no poder. Por exemplo: a má qualidade da democracia e as leis eleitorais; os vinte anos de estagnação económica e o empobrecimento dos portugueses em relação aos países da antiga Cortina de Ferro; a ausência de investimento e os erros cometidos pelo PS neste domínio; um sistema educativo falhado e envelhecido e, naturalmente, a corrupção, mas neste caso saindo das generalidades para demonstrar o seu efeito no empobrecimento dos portugueses.

Também não cabe na cabeça de ninguém que tenha aceite com tamanho contentamento o apoio de Pedro Nuno Santos, ao ponto de desejar publicamente que ele venha a ser o futuro secretário-geral do PS. Perdeu com isso alguns votos e ficou marcada para todo o sempre por não ter percebido que o actual ministro tem em mãos umas tantas bombas que lhe vão dar cabo da carreira política, uma das quais é o próprio António Costa e outras a TAP e a ferrovia. Infelizmente, Ana Gomes também não percebeu que podia ter deixado André Ventura em paz e não gastar tanto tempo com uma óbvia inutilidade, quando existem tantos problemas reais no nosso futuro, com ou sem o Chega. 

Apesar de toda a retórica existente, o terceiro lugar de André Ventura beneficia António Costa e ele sabe disso. Apesar de esse resultado não ser automaticamente transferível para eleições legislativas, os votos malditos no Chega são votos retirados ao CDS e ao PSD, dificultando uma maioria de direita. Por sua vez, a Iniciativa Liberal é compreendida apenas por algumas elites e não terá condições de sucesso nas próximas autárquicas, que poderão vir a manter o poder do PS e ajudar o Governo.

Rui Rio continua a seguir a cartilha que diz que na oposição as eleições não se ganham, são os partidos no poder que as perdem. Talvez seja verdade, mas a escala do tempo pode não lhe ser favorável e faria melhor começar a fazer oposição a sério, através da meia dúzia de causas que enumerei e que teriam sido propícias a um outro resultado de Ana Gomes.  

Em resumo, com os resultados destas eleições, António Costa pode dar-se por muito satisfeito. Os opositores de Marcelo Rebelo de Sousa não aproveitaram a ocasião para explicar aos portugueses que a aliança de poder entre o Presidente da República e o Primeiro Ministro sustenta os objectivos deste e que, como disse o ministro dos Negócios Estrangeiros depois das últimas legislativas, a geringonça não pode permitir-se colocar no poder a direita e está refém de António Costa. Veja-se o apoio que o PCP e Bloco deram recentemente ao Governo no Parlamento Europeu, na vergonhosa questão do Procurador José Guerra. Impensável com um pouco mais de seriedade.

Ou seja, a probabilidade é que teremos mais do mesmo nos próximos anos, com mais corrupção, maior controlo do Estado sobre a sociedade, maior atraso de Portugal relativamente aos outros países da União Europeia e os interesses a dominarem a economia do progresso e do desenvolvimento. 

Além disso temos a pandemia, que todos os partidos deixaram, estupidamente, que dominasse a política, como se o País tivesse parado no tempo e todos os outros problemas e soluções tivessem desaparecido. Nem mesmo quando o Primeiro-Ministro confessou na Assembleia da República que não sabia prever e prevenir os acontecimentos próximos, causa de tantas mortes, acordaram para a realidade de que as únicas qualidades do Presidente da República e do Primeiro-Ministro se destinam à manutenção do poder e que nessas circunstâncias o futuro não se constrói, aceita-se. ■