A república dos falsos milagres

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Em Portugal, numa TV doente e sem contraditório, fala-se da possibilidade de ocultação de dados Covid-19 – mas só na Ásia. Dizem-nos que lá houve médicos e cientistas que podem ter sido silenciados, ou pior, quando alertaram para a verdade do número de mortes. Nessa TV asseguram-nos que esconder dados desagradáveis para os governos e silenciar quem os apresenta é um problema só lá longe. Aliás, sugerem que tudo o que é mal gerido passa-se lá fora, pois cá os políticos fazem milagres na Economia e no Covid-19. Isto apesar de os resultados governativos serem piores que os da maioria dos outros países europeus. 

Na televisão portuguesa há ocultação dessas verdades, invocando falsos milagres.  Nesta semana que antecede o 13 de Maio, analisemos e repudiemos a indolência da TV perante políticos falsos milagreiros com graves consequências para o país. Celebremos apenas o milagre de Fátima; esse sim verdadeiro ou, no mínimo, espiritualmente benigno para Portugal. 

Na economia dos falsos e malignos milagres políticos, antes da pandemia, a já doente TV garantia-nos que a economia crescia mais que a dos outros. Focavam-se, claro, só nas comparações com os grandes países que cresciam menos que Portugal; ignoravam a maioria dos países da mesma dimensão, onde a economia e o poder de compra dos cidadãos cresciam muito mais. Deliravam que tínhamos um campeão do mundo nas finanças. Iludiam-nos afirmando que se estava finalmente a reformar o Estado, logo a nossa dívida pública estava a diminuir, em vez de nos valores brutos mais altos de sempre. Vendo TV, até podíamos pensar que havia uma visão reformista e ética para a nação, em vez de só cativar à vista, mas ajustar directamente em negócios misturados com política. Na TV insistiam que a austeridade tinha acabado e que o poder de compra estava a subir, em vez de esmagado pela maior carga fiscal de sempre e a ser ultrapassado por países dos Balcãs e do Báltico, cada vez mais na cauda da União Europeia.  

Na saúde, a TV doente usou exatamente a mesma técnica de fabricar falsos milagres.  No Covid-19, focou-se só na comparação dos resultados do governo português com os paí-
ses ainda mais perigosos. Tentou esconder a maior dimensão de muitos países, que exige comparação de mortes por milhão em vez de óbitos absolutos. Ignorou a maioria dos governos europeus com situação melhor e mais rapidamente controlada. Assobiou para o lado de vizinhos da Itália (semelhante à Espanha em óbitos), como a Eslovênia ou a Áustria, com cerca de metade das mortes portuguesas per capita.

Como sempre, insistem nessa TV que só os presidentes e líderes políticos doutros países, por exemplo nas Américas, são incompetentes. Cá, claro, são “muito sensatos”. Na TV nem sequer pestanejavam quando as nossas mais altas figuras de Estado declararam “milagre” na Covid-19 e se elogiaram mutuamente como tendo a situação melhor controlada em relação ao resto do mundo. Numa pandemia que pode ter uma segunda onda ainda mais mortífera, a população portuguesa, para se proteger e tomar as suas decisões individuais sobre que risco correr neste desconfinamento, tem de ser alertada para a verdade total, não ser vítima de ocultação televisa que irresponsavelmente desinforme que é menos perigoso cá. 

O coro em uníssono da TV doente, em vez da verdade, anuncia milagre. Em troca recebe elogios cúmplices e em directo dos santos que louvavam, seja o presidente ou o primeiro ministro. Sugeriam ainda há pouco que as nossas finanças eram tão magistralmente geridas que os nossos governantes nunca mais estariam humilhantemente de mão estendida perante governos europeus capazes, de cada vez que há uma crise. 

Governos bons preparam-se economicamente para crises nas alturas de bonança mundial. Em vez de propaganda milagreira e terem o maior governo de sempre (em número de jotas dependentes da política), fazem poupança e boa gestão do dinheiro público, com ética e técnica. São frontalmente responsabilizados pelas decisões e resultados nas suas televisões. Só na TV doente de cá é que ninguém entrevista nem questiona a doer aos políticos. Se alguém se meter com o governo, leva. Não aparece (ou desaparece de cena) se fizer perguntas difíceis a políticos fáceis. Heroínas jornalistas são censuradas por familiares dos políticos impunemente. Tal censura é louvada doentiamente por meia centena de pregadores de falsos milagres políticos da TV doente a baterem cobardemente numa rara e verdadeira Fátima. 

Pagamos o alto preço dessa cultura de censura que aliena os portugueses, ficando há décadas nas mãos dos mesmos governantes incompetentes inquestionados. Agora que acaba o confinamento, mais uma vez com dívida e impostos imparáveis, à beira de novo abismo económico, os milagreiros políticos tentam evadir-se de novo da responsabilidade com a cumplicidade da TV doente. 

Porque é que as imagens aterradoras que passaram na TV doente foram quase sempre de dentro dos hospitais e lares dos muito poucos países no mundo com mais mortes per capita que nós? Por exemplo, no Reino Unido, que teve o azar de estar um mês desta guerra sem primeiro-ministro operacional. Um primeiro-ministro ausente é sempre pior que um outro medíocre mas presente. 

As reportagens deveriam ter mostrado era o interior dos nossos hospitais e lares, mesmo que com permissão legal especial. Isto porque em Portugal ultrapassamos os 1.000 mortos por SARS-CoV-2. Por comparação com um país da mesma dimensão, a Grécia tem 100 mortos mais algumas dezenas. Cerca de 850 mortos a menos! Se há milagre, pelo menos por agora, antes da segunda onda – mas isso já deu pelo menos mais meses preciosos de vida a milhares dos seus cidadãos – é na maioria dos outros países do mundo. Quase todos com menos mortos por milhão que os resultados do nosso governo. 

Por exemplo, o governo de Chipre tem quase 1.000% menos mortes per capita no país, pois o governo cipriota decretou a 12 de Março medidas como a quarentena de 14 dias nos aeroportos. Foram politicamente mais rápidos e decisivos que em Portugal continental. Na Madeira salvaram-se as vidas todas porque também houve actuação política eficiente, em vez da actuação incompetente e lenta no continente, a princípio com voos a chegarem sem controlo.

Os políticos de Lisboa, que demoram mais tempo a agir, deviam ter humildade e respeito perante tantas vidas perdidas. Se não fossem os enormes empenhos da população e os esforços dos profissionais de saúde, teríamos pago ainda mais caro o preço do “milagre” deles. Há menos mortos por todo o mundo, da Nova Zelândia à Coreia do Sul, passando por Angola. Em comparação com os nossos mais de 100 mortos por milhão, esses diversos países têm respectivamente, e apenas, 4, 5 e 0,06 mortos por milhão. Estes bons resultados acontecem por boa acção política. A  ministra da saúde angolana, Sílvia Lutucuta, impôs muito antes de Portugal, a 3 de Março, a quarentena nos aeroportos. 

No entanto, o que acontece na TV doente quando aparece assim contraditório a toda a propaganda milagreira dos 89% de aprovação governamental total parecidos com os 99% doutros tempos? Quando informamos os nossos compatriotas com verdade? Quando, por amarmos Portugal, damos os factos verdadeiros, questionamos medíocres resultados de políticos para contribuirmos para se elevarem nas televisões os padrões de responsabilização? Para assim haver debate e talvez melhores resultados, incluindo mais vidas salvas, porque devidamente informadas. O que acontece a muitos de nós, portugueses, que tentamos, sempre barrados e silenciados pela TV doente, oferecer contraditório e promover debates essenciais ao país mas ausentes do espaço comunicacional fechado?   

A 20 de Setembro de 2019, o Financial Times publicou a carta mais lida da semana nesse jornal de prestígio internacional. O autor, o mesmo que agora assina este artigo n’O Diabo, afirmava no título que “os Portugueses merecem uma visão clara” sobre o mau estado da economia portuguesa e concluía que bastava de ilusionismo político. Dava factos económicos do Eurostat, o barómetro mais fiável da UE, contraditórios com a propaganda. No entanto, o que aconteceu na TV doente que antes tinha dado enorme cobertura a outra notícia no mesmo jornal, essa estranha porque sem dados, a elogiar o primeiro-ministro?  Desta vez, que havia dados e verdades desagradáveis, o silêncio na TV foi absoluto. Como se 10.000 portugueses sequiosos de verdade dos factos que partilharam o artigo não existissem.

Mais recentemente, a 15 de Abril 2020, o Observador publicou outro artigo, também deste autor, intitulado “Visão Factual Epidemiológica”, usando dados comparativos Covid-19 dos mais fiáveis do mundo (Johns Hopkins University), além dos dados da própria DGS que tinham obrigação de ser os mais fiáveis em Portugal, apesar de tudo o que vamos sabendo sobre a ocultação de óbitos por omissão de testes (repito, ainda há raras jornalistas leais à pátria). Apenas se convertiam os dados divulgados pela DGS, mostrando aos portugueses pela primeira vez a verdade sobre mortes por milhão. Uma nova análise epidemiológica básica que não havia sido feita na TV doente por ninguém. Isto porque revelava que não havia “milagre” nenhum. Só tinha havido até então comparação de números absolutos com países maiores, ocultando dados per capita. Assim, os políticos ficavam sempre bem na foto milagreira. 

O artigo alertava para uma verdade per capita desagradável, mas inegável. Importante para os portugueses se precaverem e protegerem, devidamente informados, numa possível segunda onda. A verdade salva vidas e contribui para a saúde pública. Tivesse a ONU sabido divulgar mais cedo a verdade vinda da Ásia, e a pandemia provavelmente não teria alastrado tanto. Desta vez, mais de 100.000 portugueses cansados das estórias milagreiras de embalar da TV partilharam o novo artigo. 

No entanto, mais uma vez, e como sempre acontece com todos os que da sociedade civil nos atrevamos a apresentar dados que põem em causa os políticos, o que se passou na TV doente? Mesmo quando estava em risco a saúde pública, houve silêncio absoluto de novo. Desta vez, como a verdade dos dados per capita das mortes tinha chegado ainda a mais portugueses e a própria TV doente foi forçada a começar a comparar mortos por milhão com outros países, tentaram como sempre assassinar o caráter daqueles que põem em causa os supostos milagres e competências dos políticos do costume.

Certas revistas, associadas com essa TV doente, vieram logo escarnecer como irrelevante o conhecimento oriundo de Harvard e de Oxford que tinha sido aplicado nos artigos de contraditório. Sugeriam, irónicas, que PhDs portugueses com demasiadas iniciais e graus académicos de prestígio internacional éramos todos arrogantes e não podíamos ousar questionar a suposta inquestionável competência de um governo de jotas, com bastante mais que 30 anos mas que nunca trabalharam fora da política. 

Na TV não admitem este contraditório ao conto milagreiro para propagandear o governo. Nunca há contra-corrente ou uma lufada de ar fresco que areje cabeças e faça pensar. Temos de levar há décadas com os mesmos cronistas e comentadores que já tanto nos cansam. Nunca permitem aos portugueses da sociedade civil, e independentes financeiramente do governo, que os confrontem e interroguem diretamente sobre os milagres que apregoam.  Quem aparece nessa TV são só as louvadoras ou os próprios jotas políticos. Garantem-nos na TV doente que se continuarmos nas mãos destes mesmos políticos, como estamos há décadas, continuaremos bem entregues, apesar dos maus resultados deles, comparados com outros países. Sugerem que nós, portugueses não políticos que pensamos, continuemos afastados, sem representação na televisão doente, e até afastados do país. Uma hemorragia de milhões de cérebros e mão-de-obra no activo sem precedentes na Europa. Uma nação compreensivelmente cheia de abstenção, pois farta de votar para legitimar falsos milagres. Aparentemente, na TV doente, dispensam as opiniões dos portugueses. Só querem ouvir a versão da eterna meia dúzia de políticos, a versão de um milagre na política sem mérito nem resultados. 

Mais preocupante, porque no mesmo timing da TV doente, para calar a verdade sobre mortos por milhão ou de emigração em massa, que os políticos jotas não queriam que se conhecesse,  há alguém que envia contra nós, milhões de portugueses que pensamos pela nossa cabeça, se apresentarmos contraditório, um enxame de vespas de Aristófanes. Trolls geridos por uma qualquer maria ou outro qualquer rato sem moral, provavelmente num partido ou funcionários públicos e autárquicos, em horário de expediente em que deviam estar a servir os contribuintes, para tentar orquestradamente silenciar e assassinar o caráter de quem revela dados em vez de os ocultar. 

Não é à toa que Pedro Sanchez é mero aprendiz de políticos portugueses. Tem exército de trolls elogiadores do governo e depreciativos de quem o questionar, mas a TV espanhola não os esconde nem colabora.  Há outro primeiro-ministro que tem mais sorte ou mais colaboradores louvadores na comunicação social e avençados a desperdiçar o dinheiro do Estado.

Conclusão desta república dos falsos milagres políticos apregoados numa TV doente: será que da próxima vez que um português ousar ir contra a narrativa do ar poluído de censura da TV sem vozes dissonantes das dos políticos, vai subir ainda mais a sede de verdade dos portugueses? Será que chegaremos ao milhão de partilhas nos poucos jornais que ainda admitem contraditório? Será que, mesmo assim, a TV demente vai continuar a insistir que temos políticos dos melhores do mundo, nas suas homilias diárias e semanais de louvor ao governo, agora no Covid-19 como dantes na economia? Sem vergonha, mesmo agora que se vê que os nossos políticos campeões financeiros do mundo na visão dessa TV demente, são os pedintes de sempre perante os países da Europa com boa governação?  

A diferença, repito, é que tais países são bem geridos politicamente com ética e técnica. Em tempos bons, acumulam fundos próprios para tempos de crise, em vez de desperdiçarem dinheiro dos contribuintes em nomeações, fundações, perdões fiscais de milhões, biliões para bancos privados, ou outras negociações cleptocráticas misturadas com política. Temos o dever e o direito de exigir, finalmente, responsabilização aos políticos e de colocar-lhes questões duras vindas de uma TV tornada saudável em que se respire ar puro de debate e confronto de ideias para reformar o Estado e a política, agora que iniciamos mais um penoso caminho de austeridade.

A doente propaganda da TV não pode ser ignorada por mais décadas.  Este pântano milagreiro tem de ser drenado. Tem consequências graves na vida da nação e nas vidas dos portugueses. ■

* Pedro Caetano é Mestre em Saúde Pública por Harvard, pós-graduado em Finanças por Oxford, MBA por ESSEC-
-Mannheim, Doutorado em Farmacologia por Michigan. É actualmente Director-Global de uma empresa da Indústria Farmacêutica Biotecnológica em Oxford, no Reino Unido.