Pedrito a governar, Anita a regular

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Uma simples busca pela rede profissional “LinkedIn” permite identificar inúmeros portugueses a viver no país ou no estrangeiro, que são dos melhores do mundo profissionalmente e academicamente no sector da mobilidade e transportes. Certamente, muitos destes seriam mais competentes e independentes reguladores nesta área que Ana Paula Vitorino, esposa do ministro Eduardo Cabrita e amiga de longa data do primeiro-ministro António Costa e do ministro responsável pelos transportes, Pedro Nuno Santos.

É que nas redes sociais profissionais generalistas ou nas publicações especializadas encontramos facilmente gestoras portuguesas na área dos transportes – altamente qualificadas, com doutoramentos na área e experiência profissional internacional em gestão, consultadoria e regulação de transportes pelo mundo inteiro, do Brasil à Bélgica – a geri-los, na Europa do Norte, nos EUA ou no Canadá. Tendo à disposição tal rico universo de potenciais candidatos, porque estamos condenados à pobreza de ter Vitorino, provavelmente menos competente que muitos e certamente menos independente do Governo? Porque é que mesmo que o nome de Vitorino seja contestado, ao ponto de gerar alguma vergonha na própria ou no ministro Santos, irá para regulador outro político semelhante? Porque é que amigos ou assessores de ministros têm ido para outras entidades reguladoras, sem a necessária competência técnica ou independência, logo meros esbanjadores do erário público, incapazes de supervisão útil para Portugal?  

O mundo pequenino dos nossos governantes não é diferente do que havia numa escola primária de aldeia parada no tempo de Salazar. São crianças velhas que não cresceram, nem avançaram no tempo. Mesmo os governantes mais novos são “clones”, ainda piores, dos mais velhos. Desconhecem o que é a globalização e a contratação internacional com base em altas capacidades técnicas e de gestão e os pesos e contrapesos regulamentares, necessários para que as empresas, as pessoas e as economias nacionais prosperarem. Na mente pequenina e nada sofisticada das várias gerações na actual direção do PS a governação e regulação de um país com 13 milhões de cidadãos e quase 900 anos de história reduz-se à auto sobrevivência e autoprotecção dos próprios e cônjuges, dos colegas da escola ou da juventude partidária, onde aprenderam “habilidades” tão importantes como fazer “chapeladas” antidemocráticas de votos e a dizer sempre sim ao chefe, mesmo que esse roubasse à descarada a população. Relembremos que todos eles adoraram, só com elogios e nenhuma pergunta pertinente, durante década e meia, o deus-menino deles: Sócrates. Portanto, ou são lentos de compreensão ou são cúmplices. A cultura desta gente incompetente é não se autoquestionarem enquanto destroem a economia alegremente. 

Assim, o ministro Pedro Nuno Santos, vindo precisamente dessa juventude partidária sem capacidade de reconhecer a sua limitação e ausência de qualificação técnica e experiência profissional fora da política (só na aviação, via TAP, já nos custou quatro mil milhões de euros), indicou agora para reguladora dos transportes fluviais, comboios e demais transportes terrestres nacionais, esta amiga, ex-ministra mulher do amigo ministro. A mesma Ana Paula Vitorino que em tempos afirmou, sem pudor, que as relações familiares e de amizade facilitavam as cumplicidades. Que independência, que qualificação em entidades reguladoras! Isso é para países avançados e ricos. Em Portugal, estas famílias gostam de nos manter pobres e atrasados, como no tempo da “outra senhora”. Além de exercerem um controlo e censura na comunicação social, endividada e dependente do Estado, para ocular tamanha incompetência e promiscuidade, típicas de retrocesso civilizacional. Factos todos descritos por Francis Fukuyama sobre decadência política das instituições do Governo e do estado de direito, que levam à pobreza da população. 

Não surpreende, pois, que estejamos em último lugar da Europa, com famílias paroquiais a governar-nos assim e tanta comunicação social, em geral indigente, a deixá-los sozinhos, a auto-elogiarem-se na televisão do estado e na TV doente, sem que ninguém da sociedade civil possa ir lá questioná-los para haver contestação. Somos até ultrapassados por todos os países do antigo bloco comunista que se juntaram à EU muito mais tarde que nós. Isto enquanto nós nos encontramos estagnados economicamente há quase vinte de anos, os de Sócrates e Costa, a que se juntam os resultados da bancarrota por eles causada. Como noutros tempos, há 80 mil jovens a emigrar por ano, porque não querem ficar presos num país parado no tempo, onde são mal pagos e mal governados pelas tais famílias que mandam em tudo, sem perceberem de nada. 

Voltemos à rede “LinkedIn” e às contratações internacionais. É a essa rede, e a outras ainda mais especializadas, que recorrem as multinacionais e os países de sucesso quando procuram identificar o conjunto mais vasto possível de candidatos para postos de alta responsabilidade. As melhores empresas, governos e demais instituições do mundo, nas áreas não só dos transportes, mas também nas tecnologias de informação, biotecnologia, indústria financeira, regulação, indústria alimentar, etc., usam consultores de recursos humanos, caçadores de talentos e demais profissionais especializados em identificar e entrevistar os profissionais de mérito mais capacitados, estejam onde estiverem no mundo. 

Infelizmente, a cultura de contratação para cargos técnicos e de regulação do PS é mais do género “Ó Maria, já falaste com o teu Manuel lá em casa, para ver se ele quer tomar conta da mercearia pública?”, ou: “Olha Pedro, daqui é o António, e que tal a tua amiga Ana, mulher do nosso amigo Eduardo?” 

Neste caso, nem o habitual argumento da confiança política pega. Em Portugal isso serve para quase tudo, mesmo para nomear o responsável máximo das pensões de milhões de portugueses ou para director-geral da segurança-social um jota, sem experiência profissional, por exemplo, em seguros ou previsões de esperança de vida. Ora, no caso dos reguladores, se a União Europeia os exige aos estados-membros é precisamente para que existam entidades independentes que fiscalizem e ajam como contrapeso institucional aos governos. 

Na Europa Ocidental actual não encontramos paralelo a estas práticas nepotistas, actualmente apenas típicas de países terceiro-mundistas, que não avançaram com os tempos e milénios. É certo que há muito, muito tempo, César Augusto, o primeiro imperador romano, que acabou de vez com a república romana fazendo Roma regredir a uma quasi-monarquia, também punha familiares a governar e a regular. No entanto, mesmo Augusto, há mais de dois mil anos, não nomeava um qualquer familiar sem competências especiais, como este PS de hoje faz. Este imperador, ao menos, quando identificava talento pelo mundo trazia-o para o governo e para a sua família, como aconteceu, por exemplo, a Marco Agripa, o mais exímio general que o império romano tinha, casando-o com a sua filha Julia! Perante esta tragicomédia anacrónica que é o nosso governo, não admira que, nas legislativas, apenas 17 por cento dos eleitores portugueses votem neste PS. A única maneira que estas famílias têm conseguido de se agarrarem ao poder a todo custo, como lapas ou parasitas, é uma manipulação sistemática da comunicação social, aliada a um esforço persistente de impedir milhões de portugueses emigrantes de votarem diferente por não estarem expostos à TV doente e saberem que há melhor no mundo e em Portugal que as famílias medíocres do PS. ■