Cinco Rostos da Lusofonia para o Século XXI*

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Escolher cinco rostos da Lusofonia para o Século XXI seria sempre um exercício contestável, como são (quase) sempre os exercícios de escolha. 

Na nossa Dissertação de Doutoramento em Filosofia, defendida em 2004, na Universidade de Lisboa, lembramo-nos ainda de ter contestado a escolha que José Marinho fez dos cinco autores “mais significativos” do pensamento português contemporâneo, na sua obra Verdade, Condição e Destino no pensamento português contemporâneo (1976). 

Como então escrevemos: “A série de pensadores portugueses contemporâneos é suficientemente rica, em quantidade e em qualidade, para permitir uma outra escolha. A nossa, decerto, seria diferente – à partida, manteríamos apenas os nomes de Sampaio Bruno e de Leonardo Coimbra, hesitaríamos a respeito do nome de Antero de Quental, e trocaríamos, sem grandes hesitações, os nomes de Amorim Viana e de Cunha Seixas, desde logo pelos nomes de Teixeira de Pascoaes e de Fernando Pessoa. Isto não contando com o nome do próprio José Marinho…”.

Nesta sua mais recente obra editada pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono (Lusasalém V), Delmar Domingos de Carvalho desenha-nos a vida e obra de António Vieira, Fernando Pessoa, Agostinho da Silva, Ariano Suassuna e Cesária Évora. 

Se tivéssemos que realizar um exercício similar, não diríamos, neste caso, que “a nossa escolha, decerto, seria diferente”. 

A escolher um rosto brasileiro, talvez nos inclinássemos para Gilberto Freyre, mas Ariano Suassuna é, sob todos os pontos de vista, uma excelsa opção. 

A escolher um rosto africano (e feminino), não nos ocorreria nome melhor do que o de Cesária Évora – para mais agora que a “morna” foi finalmente reconhecida como Património Imaterial da Humanidade. 

Quanto aos portugueses, não conseguimos mesmo imaginar melhor tríade. Ainda que de forma diversa (porque, desde logo, foi diverso o tempo em que cada um viveu), António Vieira, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva foram (os mais) insignes pensadores do Quinto Império, a Utopia maior da cultura de língua portuguesa, o mesmo é dizer, da Lusofonia. 

Desde logo por isso, é caso para dizer que Delmar Domingos de Carvalho não poderia ter encerrado de forma melhor esta sua série de cinco livros. 

Por tudo isso, resta-nos pois agradecer-lhe. Cinco vezes. ■

* In Memoriam de Delmar Domingos de Carvalho, um Membro do MIL e um Amigo da NOVA ÁGUIA falecido em Dezembro de 2020.