Disputas ideológicas em torno do Covid-19

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Não deixam de ser “curiosas” (chamemos-lhe assim) as disputas ideológicas que em torno do Covid-19 se têm travado no espaço público, desde logo em Portugal. Pela nossa parte, partimos de um princípio certamente “herético” nestes tempos cada vez mais maniqueístas: todos os líderes políticos (sem excepção) querem o melhor para as suas populações. 

A única diferença, nesse plano, estará, quanto muito, no facto de alguns líderes políticos quererem o melhor apenas para as suas populações, desprezando as demais. Donald Trump será, provavelmente, o exemplo mais óbvio, ao ter procurado comprar a patente alemã de uma vacina para o Covid-19 (para, presumia-se, o uso exclusivo dos norte-americanos).

Na América do Sul, há duas vozes que se destacam nessa disputa ideológica em torno do Covid-19: na Venezuela, Nicolas Maduro garante que tudo não passa de uma conspiração capitalista; no Brasil, Jair Bolsonaro garante, ao contrário, que a conspiração é comunista (daí o “comunavid”). Havendo ainda muitos mais casos “pitorescos” por esse mundo fora (veja-se, por exemplo, o que se tem passado na Índia), centremo-nos porém aqui no que tem acontecido na Europa.

Na Europa, “curiosamente”, não há de todo uma relação proporcional entre a propagação do Covid-19 e a crítica aos líderes políticos de cada país. O caso de Itália é, nos dias de hoje, o exemplo mais óbvio. Sendo que, se fosse Matteo Salvini o Primeiro-Ministro em exercício, a situação seria diferente? Escusam de responder: a pergunta era meramente retórica… E o mesmo se poderá dizer de Espanha. Há, de facto, líderes políticos com “boa imprensa”.

Nos dias de hoje, com “péssima imprensa” em todo o espaço europeu continental está o Primeiro-Ministro britânico – qualquer medida que ele tome é condenada à partida. Sendo que, neste caso particular, se pode compreender, até certo ponto, a situação. Após se ter consagrado como o “campeão do Brexit”, Boris Johnson será sempre uma figura diabolizada na imprensa europeia continental, pelo menos na imprensa europeia continental mais assumidamente pró-europeísta. Conviria, porém, não exagerar – para depois não ficarmos “surpreendidos” com os resultados eleitorais.

Ainda no espaço europeu, o caso mais flagrante das disputas ideológicas em torno do Covid-19 tem sido, porém, outro: o da Europa de Leste. Sendo que este é também um excelente exemplo de como as explicações meramente ideológicas são (na maior parte dos casos) demasiado curtas. Se o Covid-19 tem assolado mais a Europa Ocidental do que a Europa de Leste, isso deve-se, sobretudo, à composição social das respectivas populações: mais homogéneas, mais “fechadas”, com mais jovens, etc. Muito mais do que à coloração ideológica dos respectivos líderes políticos.

Por fim, uma nota mais “lusófona” sobre as disputas ideológicas que em torno do Covid-19 se têm travado no espaço público. Teve um eco a nosso ver desproporcionado o incidente ocorrido em Timor-Leste que envolveu alguns professores portugueses, expressamente acusados de propagação do vírus. O incidente foi decerto grave e assaz lamentável – sobretudo para quem, como nós, preza as boas relações entre os povos lusófonos. Não sugerindo, de todo, que a notícia não devesse ser difundida, esperamos apenas que os muitos exemplos de sentido contrário – em Timor-Leste, como (sem qualquer excepção) em todos os restantes países de língua portuguesa –, tenham no futuro o mesmo eco no nosso espaço público. ■

Post Scriptum: Os nossos maiores agradecimentos a todos aqueles que corresponderam ao nosso Apelo da semana passada. A NOVA ÁGUIA registará para sempre os vossos nomes.