José Marinho: tópicos de uma Poética do Ser

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Foi recorrendo à forma aforística que Marinho iniciou o seu percurso filosófico. Com efeito, a primeira grande obra de Marinho tem por título Aforismos sobre o que mais importa. Não procurando fazer aqui uma análise filosófica da obra – já o fizemos num outro estudo, entretanto reunido em livro –, queremos aqui salientar a forma aforística da mesma, questionando sobre a razão que levou Marinho a escolhê-la. Ouçamos, a esse respeito, o que o próprio Marinho nos diz: “Distingue-se o pensamento aforístico do pensamento discursivo não por uma carência de unidade, mas pela dificuldade de, em certas condições, a tornar inteiramente explícita”. 

Daí, também, a sua expressa defesa da “intuição” – nas suas próprias palavras: “Para compreender uma obra importa remontar através da sua concepção, das imagens e das ideias até à intuição essencial.”. De resto, como escreveu numa outra obra sua, O Pensamento Filosófico de Leonardo Coimbra: “Na base do processo dialéctico, a multíplice intuição é a própria garantia do processo da razão, do seu dinamismo e fecundidade; no vértice aparece como a finalidade unitiva ao mesmo tempo patente e oculta de todo o ser e saber.”. Daí, ainda, regressando aos seus Aforismos sobre o que mais importa, a sua referência “àquela palavra originária que revela toda a maravilha e profundidade do ser e da verdade ou que eleva as almas ao mais alto”, à “visão instantânea” – “De Deus ou do ínfimo do mundo, como de nós próprios, toda a visão é instantânea”.

Por tudo isso, José Marinho foi alguém que deu muita importância ao pensamento poético, em particular ao pensamento poético de Teixeira de Pascoaes, em cuja obra encontrou as mais ricas “intuições”. Para Marinho, aliás, a poesia, o “pensamento poético”, é essencialmente isso: intuição. Intuição, essa, que o filósofo, ou o próprio poeta já enquanto filósofo, irá depois desenvolver… A esse respeito, foi Pascoaes um poeta particularmente fecundo, como o próprio Marinho fez questão de frisar: “É verdadeiramente extraordinário notar como o que em filosofia é, em geral, tão difícil de alcançar, se encontre no nosso Poeta gratuitamente dado e se apresente desde início. Pascoaes não tem de esperar a visão amadurecida.”; “Nele, como nos visionários e subtis pensadores da sua estirpe, o mais distante torna-se o mais próximo, o mais oculto é o mais patente (…).”.

Em Pascoaes, com efeito, o Absoluto é, simultaneamente, o mais distante – o para além de toda a relação – e o mais próximo – o verdadeiro ser de todo o ser. E por isso, como o próprio Marinho reiteradamente referiu, foi, de facto, Pascoaes um “poeta da natureza”, um “poeta cósmico”, “de mais amplo e abissal sentido cósmico”, um poeta “panteísta”, sendo o seu panteísmo “produto duma comunhão íntima com os seres” – nessa medida, um poeta “profundamente terrestre sem pertencer à terra”, um “poeta materialista no sentido mais fundo do termo”, dado que vê em toda a matéria a presença do “espírito”, do próprio “ser absoluto ou Deus”. Daí, aliás, ainda nas palavras de Marinho, todo o Enigma: “Sob um aspecto, Natureza e homem são intrínsecos a Deus. Mas este Deus que tudo abrange e que a tudo quanto existe confere o ser próprio e perfeito, esse não podemos nós ver.”. Daí, enfim, esta sua definição de metafísica: “por metafísica designa-se não só e apenas o que está para além do físico, mas antes e primordialmente o que lhe é íntimo e nele se supõe”. ■

Para uma aula sobre “Poética do Ser” (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 28 de Abril).