O interregno global (e da Lusofonia)

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Em fins de 1927”, cerca de um ano e meio após a revolução de Maio de 1926, publicou Fernando Pessoa um Manifesto, intitulado “O Interregno”, em que pretendeu justificar a suspensão da I República. 

Olhando para o ano de 2020, a primeira palavra que nos ocorre para o caracterizar é precisamente essa: “interregno”. Sendo que aqui não se trata do interregno de um regime, ou sequer de um país. Tratou-se, trata-se, verdadeiramente, do “interregno do mundo”.

Os mais providencialistas têm sugerido que este “interregno” foi como que “programado”. De forma mais imanente ou transcendente, este “interregno” teria sido pois – passe o anglicismo – um “reset” necessário. Tal como os nossos computadores por vezes bloqueiam, também o próprio mundo estaria de tal modo bloqueado que teria precisado de um “interregno”, de um “reset”, de um “reinício”.

Há ainda demasiada “poeira no ar” para conseguirmos antever o futuro que irá emergir deste “interregno”. Até ao momento, o único factor indubitavelmente positivo foi a diminuição substancial da poluição à escala global. As consequências sociais e económicas têm sido, porém, até ao momento, indubitavelmente negativas, para não dizer catastróficas. Em Portugal, como em todos os restantes países do mundo, houve muita gente a ficar, de um momento para o outro, sem emprego, sendo que muitos desses empregos não irão, previsivelmente, regressar. Pelo menos, tão cedo.

A prometida vacina, entretanto chegada, irá decerto antecipar esse necessário futuro pós-interregno. Seja pelo seu poder real sobre o vírus, seja “apenas” pelo seu efeito psicológico em todos aqueles que mais o temem, com a vacina o mundo parece, finalmente, em condições de virar, progressivamente, a página deste interregno de confinamento pandémico e de medo generalizado. Com ou sem vacina, teríamos, mais cedo ou mais tarde, de virar esta página. Um interregno é, por definição, um estado transitório. Um estar, não o ser.

Também a respeito da vacina, os sinais não têm sido, porém, os melhores. Os países do dito “primeiro mundo” parecem plenamente satisfeitos por terem garantido o número de vacinas suficientes para imunizar as suas populações durante 2021. Quanto ao resto do mundo, nenhum sinal. “Que se dane” – diriam os nossos irmãos brasileiros. No caso de Portugal (e do Brasil), consideramos absolutamente imperioso providenciar, durante este mesmo ano, um plano de vacinação extensivo a todos os países da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) que o solicitem. A não ser assim, será a mais célebre afirmação de Fernando Pessoa (“Minha pátria é a língua portuguesa”) a ficar, também ela, em interregno. ■