Pensar a mundialização (II)

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Na sua obra Reflexão à Margem da Literatura Portuguesa faz, Agostinho da Silva, uma retrospectiva da História de Portugal, desde a genesíaca cisão com Castela, passando por toda a Gesta dos Descobrimentos, até à situação portuguesa de então. Sendo esse o enfoque, a perspectiva agostiniana extravasa em muito esse horizonte. De tal forma que, em particular no seu último capítulo, desenvolve, Agostinho da Silva, uma reflexão sobre as sociedades de hoje – entendamo-nos: sobre as sociedades de hoje no primeiro mundo, as chamadas “sociedades da abundância” –, reflexão essa de tonalidades bem sombrias. Com efeito, se nesse último capítulo, prefigura Agostinho a possibilidade de se “varrer de vez da face do universo a miséria material da Humanidade” – prefiguração não tão ingénua quanto parece, dada a exponencial evolução da técnica –, pergunta-se o mesmo Agostinho que tipo de sociedades resultariam dessa plena erradicação da miséria. Ouçamo-lo: “Que vão fazer os homens bem alimentados, bem vestidos e bem alojados e bem transportados que a técnica nos poderia apresentar desde já? Nenhuma experiência foi jamais feita em grande escala e, portanto, nada se pode afirmar de um modo que seja mais ou menos científico; mas há todas as razões para temer, pelo exemplo de certos países em que se atingiu já um nível de vida razoavelmente elevado, que a Humanidade caísse na mais deplorável das decadências (…).” (in Ensaios sobre a Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira, ed. cit., vol. I, p. 84). Daí ainda, nesta esteira, estas suas palavras: “…donde a fome se tiver ausentado, o tédio virá com o seu desespero não menos terrível. E à pergunta hoje quotidiana para milhões e milhões de ‘como viver?’ se substituirá a pergunta de ‘para que viver?’. A qual, mesmo pelo pouco que hoje podemos observar, não é menos terrível na sua mortalidade.” (ibid., p. 85).

Eis, a nosso ver, o que já hoje se pode verificar em “grande escala”. Se é verdade que a grande maioria da humanidade se debate ainda pela satisfação das suas necessidades materiais básicas – alimentação, vestuário e alojamento –, a imensa minoria que já as supriu não parece saber hoje, na sua grande parte, “para que viver”. Como se, satisfeitas as necessidades materiais básicas, a humanidade não tivesse mais nada à sua frente senão o vazio. De forma sombria, tão sombria quanto lúcida, antecipa pois Agostinho da Silva, nestas páginas, escritas em meados do passado século, a era que nós – entenda-se: a imensa minoria da humanidade que supriu já as suas necessidades materiais básicas – estamos hoje, no princípio de um novo século, a viver: a “era do vazio”. Eis, de resto, o que nas décadas seguintes, seria de igual modo denunciado por outros autores, como, por exemplo, Gilles Lipovetsky, que nos fala de uma “mutação histórica”, à luz dos seguintes sintomas: “a desagregação da sociedade, dos costumes, do indivíduo contemporâneo da época do consumo de massa, a emergência de um modo de socialização e de individualização inédito, em ruptura com o instituído desde os séculos XVII e XVIII” (in A Era do Vazio: ensaios sobre o individualismo contemporâneo, Lisboa, Dom Quixote, 1988 p. 7). A respeito dessa “ruptura”, diz-nos ainda: “O ideal moderno de subordinação do individual às regras racionais colectivas foi pulverizado (…); já nenhuma ideologia política é capaz de inflamar as multidões, a sociedade pós-moderna já não tem ídolos nem tabus, já não possui qualquer imagem gloriosa de si própria ou projecto histórico mobilizador; doravante é o vazio que nos governa, um vazio sem trágico nem apocalipse” (cf. ibid., pp. 9-11). ■

Agenda MIL – 12 e 13 de Abril, mais 3 sessões de apresentação da NOVA ÁGUIA 29: 12.04 – 16h30: Museu Judaico de Belmonte; 21h: Casa da Cultura de Pinhel; 13.04 – 17h30: Biblioteca Nacional (com inauguração de uma Exposição de Homenagem a Pinharanda Gomes).