Um Adolfo Casais Monteiro, por Agostinho da Silva (IV)

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Reencontraram-se depois em Santa Catarina, como recorda ainda Agostinho da Silva: “e aí deu uma bela lição num Círculo de Filosofia que se tinha inventado naquele Desterro, sob a asa protectora de Henrique Fontes, o duro velho, e de Jorge Lacerda, aquele que os deuses, por o amarem, levaram jovem. Mas onde o vi pela última vez foi no aeroporto do Rio, de viagem para São Paulo e Araraquara, onde se lhe metera na cabeça que me devia levar para a banca de seu doutoramento ou concurso, não sei mais. Ia, no seu jeito, com entusiasmo e com resignação; colegas e alunos lhe agradavam totalmente, tinha, naquele interior, todos os meios de trabalho de que podia precisar, ficava perto de São Paulo, onde lhe estavam amigos, livros, vida viva, podia passar suas férias no Rio, no apartamento junto ao mar; o problema, porém, é que era homem de serra, e monge também de certo modo, e que Portugal lhe faltava (…). Não era homem para ter a felicidade, que não é, de resto, dos mais altos valores, nem para que a Paz o tomasse, que essa sim, é valor (…). De algum momento para diante se tornou a sua vida, apesar de todo o entusiasmo pela literatura (…), um caminhar lento e fatal para a morte (…).”.

E assim termina, Agostinho da Silva, esta sua eloquente e comovente evocação: “tão longe o via já, tão separado do que era realmente vida, que não lamentei muito que nos não tivéssemos encontrado durante o período em que leccionámos na América, ele em Wisconsin, onde, ao que parece, se sentiu muito bem, apesar do frio, eu em Nova York, onde recebi, por meus alunos, muita boa lição de humanidade excelente. Há quem morra antes de ter vivido e quem viva depois de ter morrido; houve em Casais as duas coisas: não creio que tivesse estado na América plenamente vivo; e estou seguro de que viverá mais e mais à medida que Portugal se despoje de seus falsos ouropéis de poderoso Estado e renasça no espírito que o fez grande antes do absolutismo real, do capitalismo italiano e alemão e da opressão religiosa; isto é: na liberdade republicana, numa austera solidariedade económica e na inteira fantasia de pensar Deus, ou de O não pensar; mais precisamente, de O pensar e de, simultaneamente, O não pensar”.

Eis, em suma, o retrato que Agostinho da Silva nos dá de Adolfo Casais Monteiro: o de alguém que, após o exílio, se foi sentindo cada vez mais um expatriado. Neste caso em inteiro reverso com o percurso de vida de Agostinho da Silva: que só após o exílio, e muito particularmente no Brasil, nesse Brasil que ele tanto amou – e idealizou –, encontrou de facto a sua Pátria.

Com votos de um excelso ano novo para a Pátria Lusófona…