Com a geringonça desmantelada, a extrema-esquerda cada vez mais assanhada no Parlamento e nas ruas, e a direita reorganizando-se a reboque de um Chega em ascensão, António Costa era em Janeiro um primeiro-ministro com a cabeça a prémio. Poucos admitiam que chegasse ao final da legislatura, tanto mais que o próprio Presidente da República, que nos últimos cinco anos trouxera o Executivo de esquerda no regaço, começava a falar em “fim de ciclo” e a preparar a sua recandidatura a Belém através de um distanciamento cauteloso do trajecto socialista.
A pandemia de Covi-19, porém, tudo veio alterar. As próprias circunstâncias forçaram António Costa a assumir um protagonismo excepcional nos Media e ele aproveitou com eficácia a oportunidade, transmitindo diariamente uma imagem de dinamismo e capacidade de coordenação. Os seus habituais conflitos com a veracidade dos factos foram relegados para segundo plano por uma opinião pública demasiado preocupada com o vírus para dar atenção a “minudências”.
E o resultado aí está: na mais recente sondagem da Pitagórica para o ‘Jornal de Notícias’ e a TSF, o PS arrecada 41,7% das intenções de voto, o que significa um aumento de popularidade da ordem dos 5% e um cada vez maior distanciamento do PSD, que agora já só averba 25,2% das intenções de voto (menos ainda do que tinha conseguido nas eleições de Outubro).
Curiosamente, uma outra epidemia, há 120 anos, teve também o condão de despertar a esquerda política portuguesa de uma crise profunda: foi quando um surto de peste bubónica levou ao isolamento profiláctico da cidade do Porto, cuja burguesia liberal se “vingou” do impopular cerco sanitário imposto pelas autoridades de saúde elegendo três deputados claramente anti-regime, os republicanos Afonso Costa, Paulo Falcão e Xavier Esteves, logo apodados de “deputados da peste”.
Insalubridade
Como escreveu a historiadora Maria Antónia Pires de Almeida, “o século XIX foi o século das grandes pandemias. Para além das habituais epidemias de peste negra, febre-amarela e varíola, esse século viu surgir pela primeira vez na Europa, e depois espalhadas pelo mundo inteiro, as agressivas e devastadoras epidemias de cólera”.
Portugal sofrera já cinco grandes epidemias de cólera em 1833, 1853, 1865 e 1894 e um surto generalizado de febre-amarela em 1856. Contudo, o surto de peste bubónica que deflagrou no Norte do país no Verão de 1899 ultrapassou, em gravidade e taxa de contaminação, tudo o que poderia recear-se.
Como salienta a historiadora citada, “a urgência das crises epidémicas não era compatível com o maior problema a resolver a longo prazo: a falta de higiene, tanto pessoal como das habitações, especialmente nas cidades. Os rios para onde se atirava tudo eram lugares propícios ao desenvolvimento das epidemias; os pântanos, às febres intermitentes. E se a natureza exalava ‘miasmas’, as cidades, com as suas habitações pequenas e mal arejadas, tinham sua atmosfera corrompida”.
A cidade do Porto era particularmente vulnerável ao desenvolvimento das doenças (e citamos ainda) “por ser uma cidade industrial com uma população de grande mobilidade a viver nas piores condições de salubridade. Apesar das medidas do Estado para melhorar a higiene pública, no final do século XIX os problemas da cidade do Porto persistiam de tal maneira que Ricardo Jorge apelidou-a cidade cemiterial”.
Em 1899, o Dr. Ricardo de Almeida Jorge era professor de Higiene e Medicina Legal da Escola Médico-Cirúrgica do Porto, médico municipal e director do Posto de Desinfecção Pública da cidade – e a si se deveu o diagnóstico da epidemia de peste bubónica, depois confirmado por várias equipas de epidemiologistas nacionais e estrangeiros que se deslocaram ao Porto e autopsiaram as vítimas depositadas na morgue.
Cerco total
Os primeiros casos foram detectados em “ilhas” da zona da Ribeira. Os sintomas repetiam-se: febres intensas, gânglios nas axilas. Em 6 de Julho, Ricardo Jorge inicia um trabalho sistemático de levantamento daquilo que imediatamente se lhe apresentou como uma epidemia. Chamado ao Porto, o director do Instituto de Bacteriologia de Lisboa, Dr. Luís da Câmara Pestana, confirma as piores suspeitas.
Em 24 de Agosto de 1899, por conselho de Ricardo Jorge e decisão final do Governo de José Luciano de Castro, um “cordão sanitário” foi estabelecido à volta da Cidade Invicta, que foi cercada por forças do Exército. Ninguém podia sair, ninguém podia entrar. Antes, porém, que o decreto governamental entrasse em vigor, cerca de 20 mil pessoas conseguiram abandonar a cidade, fugindo ao foco da doença.
Forças de Cavalaria e Infantaria de Aveiro, Chaves, Viana do Castelo e Guimarães, num total de 2.500 homens, barraram todas as vias de comunicação com a cidade. Ao largo, frente à Foz, o cruzador ‘Adamastor’ impedia os acessos marítimos. Quem furasse o cordão sanitário arriscava uma pena de prisão de seis meses.
Entretanto, na cidade, tentava-se salvar a massa de infectados recorrendo ao soro Yersin produzido no Instituto Pasteur de Paris. A peste tivera, provavelmente, origem no Oriente (possivelmente na China, como hoje o Coronavírus) e transmitia-se pelas pulgas dos ratos; entre os humanos (também como hoje), era comum a transmissão directa pela pele, nariz e boca.
Ao mesmo tempo, as autoridades procediam a obras de emergência para reforçar as condições de higiene e salubridade, sobretudo nas zonas mais pobres, construindo balneários públicos e impondo medidas sanitárias drásticas.
Foram suprimidas carreiras de transportes públicos, proibidas feiras, romarias e outras concentrações de pessoas. Nas casas onde a infecção entrara, as roupas eram queimadas, procedia-se à desinfecção geral e os familiares e vizinhos das pessoas contaminadas eram internados em hospitais de campanha. A circulação de mercadorias (e portanto a actividade comercial e industrial) foi severamente restringida. Os funcionários que lidavam com muitas pessoas potencialmente contaminadas, como empregados dos caminhos-de-ferro, foram obrigados a fazer testes de despistagem e a cumprir quarentenas de nove dias.
A política de contenção adoptada por Ricardo Jorge assentava no absoluto isolamento sanitário da cidade do Porto. Foi graças ao carácter drástico deste “cerco do Porto” que foi possível reduzir o número de casos confirmados a apenas 326 – e o número de mortos a 111.
Revolta
Paradoxalmente, as medidas de isolamento e confinamento, que salvaram o Porto de uma mortandade de muito maiores dimensões, revelaram-se extremamente impopulares junto da população da cidade, em especial da burguesia mercantil tripeira, que viu prejudicado o normal curso dos negócios devido a um alarme que (até pelo número de vítimas relativamente baixo) lhe parecia um exagero de Lisboa apenas para “humilhar o Porto” – “humilhação” sublinhada pela presença ostensiva de tropas em todas as saídas da cidade. O presidente da Câmara demite-se, em protesto. Os comerciantes da cidade, reunidos no Palácio da Bolsa, assumem a revolta.
Ao longo dos quatro meses que durou o “cerco” (que só foi levantado em 22 de Dezembro), foram constantes os conflitos com as autoridades, tanto sanitárias como cívicas. Apedrejamentos de médicos e de polícias, arruaças de protesto, bombas largadas em zonas nevrálgicas, cargas punitivas de cavalaria e prisões indiscriminadas foram inflamando progressivamente a atmosfera tensa da cidade.
Considerado o grande responsável pelas medidas draconianas adoptadas, o Dr. Ricardo Jorge acabou por apresentar a demissão e pedir transferência para Lisboa. Nomeado inspector-geral dos Serviços Sanitários do Reino e professor de Higiene da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, viria a ser o grande organizador dos Serviços de Saúde Pública (1901) e o responsável pela criação da Direcção-Geral de Saúde e Beneficência Pública. A si se deve também a fundação do Instituto Central de Higiene, mais tarde Instituto Superior de Higiene e por fim Instituto Ricardo Jorge, em sua homenagem.
É do período do “cordão sanitário” do Porto, em 1899, o uso pioneiro em Portugal de máscaras profilácticas faciais, inventadas pelo médico Afonso de Lemos para serem usadas por médicos e enfermeiros na observação e tratamento dos doentes de peste. Nem isto, contudo, conseguiu salvar o médico higienista Luís da Câmara Pestana, que faleceu depois de ter sido infectado quando trabalhava no Porto.
Aproveitamento político
Particularmente atentos ao descontentamento da burguesia liberal do Porto, face ao “cordão sanitário” e à crise económica que se instalara, estiveram os dirigentes republicanos portugueses, que até então, por mais propaganda que fizessem, não conseguiam afirmar-se com credibilidade na cena política nacional. Depois de ter conseguido eleger isoladamente o socialista Rodrigues de Freitas, em 1878, o Partido Republicano (PRP) mantinha-se sem expressão parlamentar, apesar de uma agressividade assinalável nas campanhas de propaganda.
Em Novembro de 1899, com a Invicta cercada pela tropa e a burguesia liberal fervendo de indignação, o Governo de José Luciano de Castro convocou eleições gerais, antecipadamente marcadas. Censuraram depois ao político progressista a imprudência de convocar eleições naquela ocasião. Mas quem poderia esperar que os comerciantes do Porto levariam a sua revolta a um extremo nunca visto?
A atmosfera política era em tudo hostil aos poderes “de Lisboa”. Para carregar ainda mais as cores, os activistas republicanos não se esqueceram de puxar pelos brios da população liberal do Porto, recordando o levantamento que ali tivera lugar apenas oito anos antes, em 31 de Janeiro de 1891, e que apesar de fracassado ganhara uma aura “patriótica”, pois surgira em reacção ao Ultimato inglês.
O PRP concorreu mais uma vez às eleições, porventura esperando apenas dar curso às suas acções de propaganda, sem grande esperança de obter resultados palpáveis. Mas a capitalização da revolta do poderoso ‘lobby’ mercantil acabou por trazer-lhe uma vitória surpreendente: foram eleitos os candidatos republicanos Afonso Costa, Paulo Falcão e Xavier Esteves. Logo foram baptizados como “deputados da peste”.
Os burgueses liberais do Porto, ainda que não fossem propriamente “revolucionários” ou sequer republicanos, aproveitaram “a onda” e mostraram “a Lisboa” o que podia suceder quando eram desfeiteados. Muitos deles, se não mesmo a maioria, tinham convicções monárquicas e não desejavam ver derrubado o regime: apenas votaram nos republicanos como forma de protesto, talvez sem medir as consequências.
Se Paulo Falcão e Xavier Esteves eram políticos oposicionistas relativamente apagados ou inofensivos, já Afonso Costa (então um jovem advogado e professor com 28 anos) aproveitou a sua eleição para marcar posição num Parlamento fraccionado pela dissidência e pela discórdia entre monárquicos. Influente advogado de negócios e tribuno incendiário, Costa haveria de tornar-se um dos mais proeminentes líderes republicanos, presidindo ao PRP, ocupando na 1ª república as pastas da Fazenda e da Justiça e a chefia de três Governos entre 1913 e 1917.
Assim, se a vitória dos “deputados da peste” não teve continuidade nas eleições legislativas seguintes, o certo é que deixou na terra a semente republicana. Em Agosto de 1906, o PRP conseguirá eleger quatro deputados à Câmara Baixa (um deles, de novo, Afonso Costa). Em Abril de 1908, conseguirá já ter uma bancada parlamentar de sete deputados. E em Agosto de 1910 serão já 14 os representantes do PRP em São Bento.
Dois meses depois, em 5 de Outubro, o golpe final instaurará a república em Portugal. ■




