No início de um novo ano de muito difícil prognóstico, caberá aos portugueses, através do seu voto em 10 de Março, decidirem o que querem para o seu país nos próximos anos.
Mesmo que de há muito gasta e sem sentido algum, a velha dialéctica esquerda-direita mantém-se omnipresente no discurso dos políticos como forma de captarem o voto dos eleitores.
Porventura mais relevante e profícuo seria abdicar das ideologias (sempre perigosas, porque fechadas!) e situar a discussão em torno de princípios, valores e acções concretas, algo em que os políticos não têm arriscado, pois tal pode ser incompatível com a atracção do eleitorado.
Nesta breve reflexão, tentamos imaginar um cidadão médio, independente, equilibrado, cumpridor, responsável e sensato, e alvitrar sobre o seu eventual sentido de voto em função de nove situações da vida nacional e pública (poderiam ser mais e outras…) que nos parecem importantes e estruturantes da sociedade.
A saber:
1 – Dimensão e peso
do Estado
Este cidadão entende que o Estado actual é muito gordo, pesado e ineficiente nas suas diferentes estruturas e instituições e que consome demasiado dinheiro dos contribuintes.
Ao mesmo tempo, o mesmo cidadão pensa que o Estado tem de manter presença forte e sustentada nos domínios da Justiça, Educação, Saúde e Assistência Social.
2 – Condições salariais
praticadas
O cidadão acha que os salários praticados em Portugal são miseráveis e que a responsabilidade cabe às empresas, que pensam apenas em maximizar as suas contas, e ao Estado, que não implementa políticas de regulamentação eficaz do mercado de trabalho, mormente colocando o salário mínimo numa fasquia de dignidade mínima.
Mas também acha que as empresas estão demasiado sobrecarregadas de impostos, contribuições e outras taxas, bem como absorvidas por uma teia burocrática imensa da máquina do Estado, em particular do fisco… Como tal, reconhece que muitas delas terão mesmo dificuldade em poder pagar salários mais satisfatórios.
3 – Equidade social
O cidadão entende que as pessoas que têm mérito devem ser reconhecidas e valorizadas, face às que não o têm. Quem trabalha e produz deve poder chegar mais longe e mais alto.
Em simultâneo, reconhece que fruto de variáveis nem sempre controláveis pelos próprios, existem pessoas que necessitam de apoio do Estado numa óptica de solidariedade partilhada.
4 – Assistência social
O cidadão entende que compete ao Estado esta função social e que o Estado não pode abdicar de a assumir por inteiro, não a remetendo para o sector privado.
Mas não concorda que as pessoas objecto deste tipo de assistência social do Estado fiquem isentas de qualquer retorno. De resto, entende que quem recebe subsídios, deve ser obrigado a uma contribuição produtiva em prol da sociedade, devidamente organizada e controlada, de forma a que não se criem hábitos de dependência que induzam níveis nefastos de indigência social.
5 – Pagamento de impostos
O cidadão em causa entende que os impostos são pesados e exagerados e que basicamente a vida de quem trabalha se transformou numa rotina ganha-paga, sem nenhum ou muito pouco usufruto do valor acrescentado do respectivo trabalho.
Mas revolta-se contra o facto de o Estado não controlar eficazmente a contribuição fiscal e haver ainda muita fuga ao fisco, quer de cidadãos como de empresas, exigindo uma mão mais pesada e penalizadora nestes casos.
6 – Desenvolvimento
económico
O cidadão é apologista do reforço do empresariado nacional, entusiasta de sectores primário e secundário mais sólidos, com a criação de estruturas agrícolas e industriais de génese nacional, disseminadas por todo o território.
Ao mesmo tempo, entende que qualquer actividade económica não pode ter impactos negativos no ambiente e que a preservação deste é condição essencial da qualidade de vida da comunidade global.
7 – Educação
O cidadão entende que o sistema de ensino em particular deve ser selectivo e filtrar os melhores alunos, conduzindo-os para caminhos futuros de formação mais exigentes, como forma de retirar dos mesmos um potencial contributivo significativo.
Ao mesmo tempo, entende que os alunos menos capazes ou menos trabalhadores não devem ser marginalizados ou excluídos, devendo ser encaminhados para futuras actividades de natureza mais técnico-operacional, mas onde possam aceder a uma vida condigna e serem úteis à sociedade.
8 – Saúde
O cidadão entende que todos os serviços essenciais de saúde devem ser responsabilidade directa do Estado, isto é, todo e qualquer cidadão deve ter assistência médica e medicamentosa tendencialmente gratuita.
Mas entende que faz sentido manter uma alternativa privada de assistência na saúde, para os que à mesma queiram recorrer, a expensas próprias, por questões de estatuto social, caracterização da doença ou outra qualquer variável.
9 – Justiça
O cidadão entende que a justiça praticada é morosa e muito cara, inacessível nalguns casos a alguns cidadãos. A mesma não trata também, de igual modo, os ricos e os pobres.
Mas entende que as penas aplicadas para determinados crimes são demasiado leves e que não deveria haver redução do tempo de cumprimento em situações graves, como assassinatos, violações, etc…
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Em 10 de Março próximo, este cidadão votará à esquerda ou à direita?
O leitor decerto concordará ser muito difícil predizer o seu sentido de voto e que muito provavelmente nenhuma das propostas político /partidárias actualmente em equação o satisfarão devidamente.
Por tal motivo, mais do que apresentar aos cidadãos ideologias, os candidatos a cargos políticos devem com urgência apresentar valores e princípios de acção, consubstanciados numa estratégia consequente, de médio/longo prazo, devidamente planeada e com mecanismos explícitos de controle.
Mesmo um eleitor menos letrado ficaria muito mais à vontade para votar em consciência.
Aqui fica o desafio! A bem da Nação! ■
2024: esquerda ou direita?




