Vencer eleições Não Basta

Em 2025, durante as eleições autárquicas, tive a oportunidade, tão inesperada quanto reveladora, de entrar em contacto com o ideólogo de um recém-criado partido brasileiro, o Partido Missão. Desde esse encontro fiquei a conhecer uma nova direita: uma direita energética, uma direita com missão, uma direita que compreendeu o principalproblema do nosso campo político e ousou nomeá-lo.

Assistimos, nos últimos anos, à ascensão daquilo a que convencionalmente se chamam partidos extremistas em todo o mundo. Liderados por personalidades carismáticas, sustentados por forte apoio popular, prometeram rompercom as velhas práticas políticas e resolver os problemas criados pelas burocracias sem alma das suas nações. Mas o que acontece quando essas figuras chegam ao poder? Ficam paralisadas pelo mesmo sistema que disseramcombater, muitas vezes por falta de coragem ou doutrinária ou por aquilo de que ainda não se aperceberam.

Milei, Trump, Bolsonaro, o AfD, o Vox, o Chega, Meloni. Todos atingiram posições de destaque nas suas nações. Mas em que se traduziram essas vitórias? A Itália, descrita como “o maior governo à direita desde Mussolini”, nãoconsegue travar a imigração ilegal no Mediterrâneo, que continua a ser uma rota de dissolução civilizacional. Em 2022, os brasileiros elegeram aquele que foi chamado de o maior congresso conservador da história e prometeram uma oposição feroz ao presidente Lula. Na prática, não conseguiram impedir a aprovação de legislação progressista. A força eleitoral dissipou-se ao contacto com a máquina do Estado.

A direita mundial sofre do mesmo problema: chama-se democracia. Todos acreditam que conseguirão mudar osistema através das regras do próprio sistema, vencendo eleições de quatro em quatro anos e disputando batalhas eleitorais. Estão errados.

Julius Evola, em Orientações, escrito após 1945, propõe uma doutrina assente na Hierarquia, na Autoridade e na Ordem, rejeitando o apelo às massas e apostando numa minoria resoluta portadora de uma ideia de regeneração,uma aristocracia espiritual capaz de permanecer de pé num mundo em ruínas. O que Evola compreendeu, e que a direita contemporânea recusa aceitar, é que uma minoria com convicção e energia supera frequentemente uma maioria.

Vivemos num regime que se apresenta como democrático, mas que fecha a porta a ideias verdadeiramente diferentes. Mesmo a democracia tem donos: as elites que a controlam e das quais o regime existe para proteção. Curtis Yarvin propõe aquilo a que chama neocameralismo, um sistema em que o Estado é administrado como umacorporação com um CEO soberano, combatendo a ilusão democrática e defendendo um governo de elite adaptado à era tecnológica. O poder real nunca foi nem será democrático, e a ficção democrática serve para domesticar aqueles que poderiam desafiá-lo.

Para Yarvin, o problema de “eleger um ditador benevolente é um problema de engenharia”. O despotismo corporativo garantiria estabilidade e continuidade. O paralelo com o pensamento do jurista fascista Alfredo Rocco é notável.Rocco concebia a sociedade como uma entidade orgânica que abarca e dá sentido às suas partes individuais, sendo o indivíduo verdadeiramente livre apenas quando em harmonia com o todo.

É por isso que chegamos ao ponto em que, em Portugal, o regime de Abril precisa de morrer para que Portugalrenasça. A nível mundial, precisamos da coragem intelectual para reconhecer que a democracia liberal, tal como existe, não é um fim em si mesma, mas um instrumento ao serviço de interesses de elites burocráticas.

Chegamos ao que Yarvin chama monarquia. Não necessariamente a monarquia medieval, embora mantenha algumas semelhanças funcionais, mas um modelo de governo concentrado e eficaz, capaz de agir sem ficar bloqueado pelos mecanismos do sistema.

O exemplo mais vivo é El Salvador com Nayib Bukele. O país era dominado por criminosos e por um sistemaincapaz de garantir segurança. Bukele demonstrou que a decadência não era inevitável. Através de um exercício firme do poder, transformou profundamente a realidade nacional. Hoje, El Salvador é um dos países mais seguros da América Latina.

Aqui reside a lição que a direita contemporânea recusa aprender: não basta chegar ao poder, é necessário ter acoragem de exercê-lo e romper com o sistema. A direita do século XXI possui dimensão eleitoral, mas carece deenergia; tem votos, mas não a vontade de os utilizar para construir algo duradouro.

Em Portugal, observo esse fenómeno a começar a manifestar-se. O maior partido da direita portuguesa, aquele em que milito e onde lidero uma estrutura regional de jovens, enfrenta um problema grave: a falta de energia no combate pela vida. Só em 2025 foram realizados 17.807 abortos em Portugal por decisão pessoal. A direita não demonstraqualquer intenção séria de tentar revogar essa realidade.

Essa falta de energia esbarra na ideia de que o referendo de 2007 encerrou definitivamente a questão, como se a defesa daquilo que se considera verdadeiro dependesse sempre da vontade da maioria. Mas que maioria? A maioria formada pela televisão, pelas universidades e pelo aparelho cultural do regime, aquilo que Yarvin designapor Catedral: o complexo mediático e académico que molda o consenso posteriormente ratificado pela democracia liberal.

Este é talvez o exemplo mais evidente de como a direita interiorizou as regras do jogo do adversário e não compreende que as grandes transformações políticas nunca nasceram apenas das urnas. Continuará a ser aquiloque é hoje: uma oposição que, quando colocada em posição de governação, será fraca e triturada pela máquina chamada democracia.

A energia que falta não é eleitoral. É mudar as regras pelas quais jogamos e romper com a era liberal, recuperando a energia transformadora dos movimentos do século XX, interiorizando a cultura nacional e opondo-se à decadência.

Só assim conseguiremos vencer.

Leonardo Duarte

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