Pedro Nuno Natal

Esta percepção de democracia, de bem comum, de sentido de Estado é, no mínimo, preocupante e respalda uma de duas ideias:
– ou o povo português (pelo menos os inquiridos) é completamente néscio e desprovido de cultura política, democrática e social;
– ou o “status quo” é tão mau e as perspectivas futuras tão pessimistas, que entrámos em modo de sobrevivência e nem sequer vale a pena olhar para as gerações vindouras, mas antes salvar a própria pele hoje, já que o amanhã é incerto e pode nem chegar.
A alternativa a estas hipóteses roça o humor negro: o povo português está tão habituado a mentir, a viver de esquemas e a olhar para os exemplos dos políticos das últimas décadas, que, por defeito, também mente nos inquéritos…
Qualquer um dos cenários equacionados radica nas políticas de esquerda que, paulatina e (in)conscientemente, viemos concedendo. Começando no politicamente correcto, passando pela classificação e apodo dos que defendem os valores (mais) tradicionais e terminando na defesa acérrima dos direitos das minorias que fizemos por impor a toda a sociedade, fomos criando nas pessoas uma ideia de detentores de direitos. Cada indivíduo passou a ser um centro de direitos, pessoalizados, individualizados e exclusivos, que os pode opor, em qualquer circunstância, aos demais e, sobretudo, ao Estado. Costa não percebeu o perigo, entrou em sucessivas concessões aos comunistas e bloquistas, com o fito de chegar e manter o poder, mas sempre contando que poderia equilibrar a balança. Enganou-se. Abriu a caixa de Pandora e jamais terá capacidade de a fechar…
Poderíamos olhar para outros exemplos europeus (e começam a ser já a maioria!) e perceber que o caminho não é esse. Mas, por cá, tardamos em perceber as coisas e confiamos sempre que apesar de a fórmula ser a mesma, os resultados serão diferentes. Só assim se percebe que o Partido Socialista aceite Pedro Nuno Santos como candidato e o eleja como Secretário-Geral. Em tempos e circunstâncias normais, Pedro Nuno teria dificuldade para ficar com o lugar de porteiro no Largo do Rato… Mas há muito que os socialistas deixaram de olhar para Portugal como uma nação, encarando-o apenas como Estado, a quem cabe gerir não a identidade de um povo, não os valores de uma sociedade, mas apenas efectuar uma gestão distributiva dos recursos de acordo com as vozes que se vão levantando e a sua repercussão na curva das sondagens. Os problemas endémicos e estruturais não carecem de medidas, apenas os situacionais que fazem capas de jornal. Não há uma reforma, digna desse nome, nos anos de governação socialista. Apenas subsídios, apoios extraordinários, abonos e todo um rol de despesa pública para aplacar a contestação social. E a distribuir dinheiro, o PS parece o Pai Natal…
Mas a verdade é que, apesar de precisarmos de pais, todos preferimos, a determinada altura, a companhia dos avós. Não nos berram, não nos chamam à atenção, permitem-nos tudo, desculpam-nos as asneiras, afrontam os pais e ainda nos dão uns euritos às escondidas ou nos enchem de doces ou chocolates quando os pais há muito proibiram. Para os avós, a única regra que verdadeiramente importa é que as crianças estejam felizes, até porque, …são crianças…
Tem, pois, aqui, o PSD e toda a restante direita, um papel ingrato. A de convencer os meninos que, afinal, a sopa é melhor que os doces, os legumes mais saudáveis que os chocolates e a sesta mais retemperadora que horas de “Playstation”. A de convencer os adultos que para distribuir riqueza é preciso produzi-la, primeiro, que a melhor forma de ganhar dinheiro é trabalhando, que cada um de nós tem que gerir os seus recursos, que o Estado não tem meios ilimitados e que todos somos responsáveis pelas nossas acções…
Seja por ideologia, seja por mera aritmética eleitoral, os sociais-democratas coligaram-se com os democratas-cristãos. A primeira grande vantagem da solução encontrada é a clarificação pré-eleitoral. Ao contrário de “geringonças”, de acordos que pouco mais valem a folha de papel onde estão escritos ou de soluções em que todos e cada um se contorcem, após os resultados, para verem como podem governar, nesta coligação sabe-se de antemão quem é quem e qual será a repartição de poderes governativos em caso de vitória.
Não inclui os liberais, por opção daqueles, num exercício de quererem ver nas urnas quanto valem as suas propostas. Valerão pouco, julgo eu, numas eleições que terão o grande condão do voto útil, à esquerda e à direita, em que o único que capitalizará, porque fora do sistema, será o Chega. A IL, poderá, contudo, contar para uma solução governativa, o que estará sempre vedado aos comunistas e bloquistas.
Pedro Nuno Santos cavalgará todo o período de campanha sob a bandeira do perigo dos extremismos, como se fosse, ele mesmo, um moderado. Prometerá mais apoios, mais subsídios, mais oportunidades, mais igualdade, mais médicos, mais professores, mais tudo. Não tocará nos impostos, nem na segurança social.
Mas afinal, quantos dos meninos ainda acreditam no Pai Natal? ■

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