Na ignorância, lucra a burla e a fraude
Ainda há alguém que não tenha ouvido falar das mensagens do “Olá mãe/Olá pai”?
Seguramente que muitos de nós já recebemos essas mensagens ou, pelo menos, conhecemos alguém que recebeu a dita.
Mas, mais grave do que conhecer alguém que recebeu a mensagem é conhecer alguém que caiu no engodo. Pois é, mas o que não faltam por aí são casos desses e não podemos ignorar os motivos.
Em meados do ano passado, a OCDE lançou um estudo “Digital Financial Literacy in Portugal: Relevance, Evidence and Provision”, em que revelava que, em termos de literacia financeira, Portugal tem um desempenho pior do que a média da OCDE em termos de conhecimento financeiro. Como consequência, o Banco de Portugal (BdP), e bem, publicou em português a “Estratégia de Literacia Financeira Digital para Portugal”. Lê-se no “website” do BdP que “pretende-se também contribuir para tornar os cidadãos mais resilientes a tentativas de fraude ‘online’ e mais conscientes dos seus enviesamentos comportamentais no acesso a serviços financeiros em canais digitais”.
Esta estratégia a médio-longo prazo apresenta várias acções a ser desenvolvidas no decorrer de cinco anos, cabendo ao BdP a missão de cumprimento de metas e monitorização das políticas públicas desenvolvidas. Mas, apesar da teoria estar desenvolvida, tem verdadeiramente Portugal apostado no combate à iliteracia Financeira Digital? Apesar do esforço do BdP, que políticas públicas concertadas com as acções governativas têm sido efectivamente implementadas?
Há um esforço maior de comunicação por parte do BdP, é claro, com a criação de canais no “Youtube” com vídeos que procuram informar, existem algumas acções pontuais a decorrer, há um esforço europeu de prevenir fraudes por via da regulamentação, mas estamos já com isto a conseguir dar ferramentas suficientes às pessoas para as capacitar para que naveguem em segurança no mundo financeiro digital?
As “Fintechs” (as empresas financeiras e tecnológicas) são hoje uma indústria altamente regulada e supervisionada. Indústria essa que cresce pela qualidade e pela confiança na prestação de serviços que consegue aportar ao mercado. São parte interessada em que os consumidores tenham um nível de literacia financeira digital mais elevado do que existe hoje.
Em Portugal, confesso que dou sempre nota da realidade existente no âmbito da referida iliteracia, sempre que percebo que os próprios conceitos são confundidos. Um bom exemplo disso é o conceito à volta da marca Multibanco. Em Portugal, tudo é multibanco. Uma ida a um Caixa Automático, também denominado por ATM (“Automated Teller Machine”) para levantar dinheiro ou fazer qualquer outro tipo de serviço bancário, em Portugal é “um multibanco”. Ou um terminal de pagamento para poder passar o cartão, que na realidade nos dias que correm aceita várias marcas em Portugal, como “Visa”, “MasterCard” entre outras, é também conhecido como “Multibanco”.
Quem nunca disse num restaurante “traz-me o multibanco, por favor?”, que atire a primeira pedra. E o próprio pagamento a cartão, nós dizemos “quero pagar com o multibanco”, mesmo que na nossa mão esteja um cartão que diz “Visa” e que a operação financeira em curso nada tenha que ver com uma operação de multibanco. O multibanco, de facto, é uma marca fortíssima e ainda bem que as temos em Portugal, mas é fundamental que o utilizador saiba o que é cada coisa e, na realidade, o que o estudo da OCDE nos vem mostrar é que os portugueses, no que toca ao mundo das finanças digitais, têm ainda muito que aprender.
Também noutro estudo, realizado pelo Bruegel a pedido da Comissão Europeia, em finais de 2023, sobre Literacia Financeira, não digital, revelou que Portugal é um dos piores países da União Europeia. Acrescentaram ainda, e citando este grupo de reflexão, que “os países com maior proporção de pessoas com conhecimentos financeiros têm um maior número de pessoas que poupam e pedem empréstimos a uma instituição financeira, o que indica que os conhecimentos financeiros podem melhorar a inclusão financeira”.
E muitas das situações de fraude, arrisco a dizer que a grande maioria, seriam evitadas se apostássemos mais em formar as pessoas neste âmbito. Quantas vezes não existiram situações de burla e fraude porque não leram bem, porque não conheciam as funcionalidades dos serviços financeiros em causa, porque, na dúvida, confiaram. Perdeu o lesado, que ficou sem o dinheiro, perdeu a instituição financeira que perde credibilidade e investe recursos, e perdemos todos nós como contribuintes que financiamos mais um processo judiciário que poderia ter sido prevenido e não foi.
Não basta definir uma estratégia, mas depois, na sua acção, não lhe dar os recursos necessários para a pôr em efectividade com sucesso. Os vídeos no “Youtube” para formar são úteis, claro, mas chegam efectivamente a quantas pessoas? Uma sociedade mais formada será seguramente uma sociedade mais protegida, mas também mais apta a desenvolver serviços financeiros e digitais mais inovadores e evoluídos. Lembram-se das campanhas publicitárias do Gervásio, da Sociedade Ponto Verde? Acho que hoje todos sabemos como reciclar. Precisamos de campanhas permanentes e outras acções conjuntas naturalmente, que tal como essa, impactem gerações e imprimam resultados visíveis.
A literacia financeira reflecte-se no conhecimento e compreensão, mas também com a capacidade de promover a tomada de decisões financeiras.
E porque a tecnologia e o mundo digital avançam a uma grande velocidade, Portugal, para deixar de estar na cauda da Europa, tem que aumentar a sua taxa de esforço em cumprimento de metas cujo fim seja a formação da população no que tem que ver com competências digitais, mas também competências financeiras e competências financeiras digitais.
Já não existem serviços financeiros sem algum tipo de interacção do mundo digital. São dois mundos que estão sempre de mãos dadas. Já não há economia sem mundo digital. São três frentes que se cruzam e que são fundamentais para o desenvolvimento e crescimento económico de Portugal e da Europa.
A Europa, em comparação com outros mercados, preocupa-se, na minha opinião, em demasia com excesso de regulação sobre as novas tecnologias. Entendo que é importante a existência de orientações que protejam o mercado e o consumidor, mas é fundamental dar margem para o desenvolvimento dos negócios, da economia e da inovação, com capacidade competitiva no mercado internacional. E essas competências não se atingem através da política da regulação e do medo, mas sim da formação e da capacitação individual.
Enquanto optamos por ignorar o problema, o elefante no meio da sala, reina a dúvida, vence a ignorância e o medo, lucra a burla e a fraude. ■




