Em 2024, as cem maiores empresas de armamento do mundo facturaram 679 mil milhões de dólares, o maior valor já registado pelo Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI) desde que começou a publicar este ‘ranking’, há mais de três décadas. Um aumento de 5,9% face a 2023 e de 26% face a 2015. Para ter escala: 679 mil milhões de dólares equivalem a mais de três vezes o PIB de Portugal, ou a três vezes a dívida publica portuguesa.
Pelo menos 77 das 100 maiores empresas do sector aumentaram as suas receitas em 2024. Quarenta e duas registaram crescimentos de dois dígitos. Duas mais do que duplicaram: o grupo checo Czechoslovak Group (+193%) e a SpaceX de Elon Musk (+103%), que entrou pela primeira vez no ‘ranking’.
Os gastos militares mundiais atingiram 2,72 biliões de dólares em 2024, o maior aumento anual desde a Guerra Fria: +9,4% num único ano. Os Estados Unidos, sozinhos, gastaram 997 mil milhões, o equivalente a 37% de tudo o que o mundo gastou em armas e militares. Quatro das cinco maiores empresas de armamento do planeta são americanas: Lockheed Martin ($64,7 mil milhões), RTX ($43,6 mil milhões), Northrop Grumman ($37,9 mil milhões) e General Dynamics ($33,6 mil milhões). A BAE Systems britânica tornou-se, em 2024, a primeira empresa não-americana a entrar no Top 5 desde 2017.
Mas não é apenas o complexo militar-industrial dos EUA que engrossa os cofres com o conflito ucraniano e com a instabilidade no Médio Oriente. A Europa, que durante décadas dormiu à sombra do guarda-chuva americano, descobriu que a guerra é também um negócio europeu. A Alemanha, que foi o quarto maior exportador mundial de armas entre 2021 e 2025, ultrapassando a China, viu os seus gigantes como a Rheinmetall expandirem a capacidade produtiva a ritmo acelerado. A França mantém-se no segundo lugar das exportações, com quase 10% do mercado global. Israel, apesar de ser simultaneamente beligerante em Gaza e no Líbano, tornou-se o sétimo maior exportador mundial de armas, ultrapassando pela primeira vez o Reino Unido, com empresas como a Elbit Systems, Rafael e Israel Aerospace Industries a registarem crescimentos consecutivos.
Porque duram tanto?
Existe um paradoxo central nestes conflitos: todos os actores declaram querer a paz, mas nenhum está disposto a pagar o seu preço. O Hamas não abdicou das armas nem reconhece Israel — condição essencial para qualquer acordo duradouro. Israel, por seu turno, continua a expandir os colonatos na Cisjordânia enquanto negocia. A Rússia quer manter os territórios que ocupa; a Ucrânia não está disposta a ceder um palmo de terra. E por baixo destas posições declaradas há uma economia que prospera enquanto o conflito dura.
Do lado russo, a reconversão para uma economia de paz seria politicamente devastadora para Putin. A Rostec, a ‘holding’ estatal russa que engloba os principais produtores de armas, representa já 70% de todas as receitas das suas subsidiárias combinadas (era 65% em 2023). A Rússia produziu 1,3 milhões de granadas de 152mm em 2024, contra 250 mil em 2022, um aumento de 420%. Aumentou a produção do míssil Iskander de 250 para 700 unidades num único ano. Uma economia assim não pára por decreto.
Do lado ocidental, as empresas de defesa da NATO têm carteiras de encomendas garantidas por anos. A Rheinmetall alemã registou +47% em 2024. O grupo checo Czechoslovak Group teve mais de 51% das suas receitas ligadas directamente a Ucrânia. A polaca PGZ mais que triplicou as suas exportações.
A União Europeia aprovou um plano de 800 mil milhões de euros para rearmar a Europa — o maior investimento colectivo em defesa desde a fundação da NATO. A Comissão Europeia declarou que “estamos numa era de rearmamento e a Europa está pronta para aumentar maciçamente as suas despesas com a Defesa”. Grupos como Airbus, Thales, Leonardo, Saab, Rheinmetall e Safran consolidaram posições e expandiram capacidades ao longo de 2024 e 2025. Os dez maiores grupos do sector concentraram 47% das receitas globais em 2024.
O caso ucraniano
Comecemos pela Ucrânia. A invasão russa, em Fevereiro de 2022, desencadeou o maior rearmamento europeu desde a Segunda Guerra Mundial. As importações de armas pelos países europeus mais do que triplicaram entre 2021 e 2025, tornando a Europa a principal região destinatária de armamento pesado pela primeira vez desde os anos 1960, segundo o SIPRI. A Polónia, que faz fronteira com a Ucrânia e a Bielorrússia, viu as suas importações de armamento aumentarem 852% neste período. A Ucrânia tornou-se o quarto maior importador de armas do mundo, respondendo por 8,8% do total global.
Os analistas encontraram o obstáculo fundamental à paz na Ucrânia: um lado quer ficar com território de que o outro lado não abre mão; um lado quer garantias de segurança que o outro entende impossível de ceder. Mas por detrás deste impasse diplomático há uma economia de guerra que se auto-alimenta. O SIPRI nota que a transformação da economia russa foi tão profunda que, se a guerra terminasse amanhã, a Rússia teria enormes dificuldades em reconverter-se para uma economia de paz. Putin criou um monstro que não consegue parar. Do outro lado, as indústrias de defesa dos países da NATO têm encomendas para anos. O conflito deixou de ser apenas uma guerra entre dois países, tornou-se um motor económico com múltiplos beneficiários.
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