Entre o quase massacre, e a quase justiça

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Há dias em que um país é posto à prova, e falha, mesmo quando a tragédia não chega a acontecer.
Há dias em que a realidade parece ensaiar o pior de si, e falhar por milímetros.
Na chamada Marcha pela Vida, um nome que carrega em si a promessa de proteção e dignidade, quase se escreveu uma das páginas mais negras da nossa memória coletiva. Não por acaso, não por impulso, mas por intenção. Intenção fria. Calculada. Desumana.
Um grupo organizado, determinado, ideologicamente cego, preparou o impensável: transformar pessoas em tochas humanas. Não metáforas. Pessoas. Corpos. Vidas. Famílias.
Naquele dia, não faltou nada ao horror. Houve planeamento. Houve intenção. Houve gasolina lançada sobre pessoas. Houve, acima de tudo, a vontade clara de provocar sofrimento extremo, de transformar seres humanos em vítimas de um ato brutal.
Só faltou o fogo.
E foi essa falha — técnica, circunstancial, quase acidental, que impediu que hoje estivéssemos a contar mortos. Não foi a lei. Não foi a prevenção. Não foi o medo das consequências. Foi o acaso.
Mas se o fogo falhou, o mesmo não se pode dizer daquilo que se seguiu.
A resposta foi rápida a prender, e surpreendentemente leve a libertar. Como se o que estivesse em causa fosse um excesso menor, uma imprudência, um desvio momentâneo. Não uma ação deliberada com potencial para causar mortes em massa.
E é aqui que a indignação deixa de ser emoção e passa a ser dever.
Porque quando um ato desta gravidade encontra uma resposta frouxa, o que se transmite não é justiça, é permissividade. Não é equilíbrio, é fragilidade. Não é Estado de direito, é um sistema que parece hesitar perante aquilo que devia condenar sem compaixão e sem ambiguidades.
Que mensagem fica? – Que enquanto não houver cadáveres, tudo é discutível? Que a intenção de matar vale menos do que o resultado final? Que o falhanço do crime atenua a gravidade do que foi tentado?
Não pode ser.
Um país que só reage ao irreparável está condenado a viver sempre à beira dele.
E neste caso, estivemos perigosamente perto. Tão perto que o alívio não pode apagar a lucidez: não foi a justiça que nos protegeu, foi o acaso que nos salvou.
E confiar no acaso nunca foi, nem nunca será, política de segurança.