Escrevo com tristeza, desilusão e mágoa.
A abertura dos Jogos Olímpicos é habitualmente um momento em que o país organizador usa a linguagem mais universal para apresentar a sua cultura, o seu povo, a sua história, os seus costumes. Usa-se a linguagem mais universal fazendo-se valer de ícones conhecidos, música, dança, luz, som.
Faz-se a exaltação do Homem, relembra-se o Espírito Olímpico, prepara-se a competição, como sublimação da força e da luta, projecta-se a vitória, como resultado do esforço, da dedicação, da perseverança e antecipa-se o prémio sublime, justo, merecido.
Na minha Europa, na Cidade-Luz, antecipava a imagem imanente de uma nação com uma cultura milenar, complexa, rica, inclusiva, tolerante.
Em três quadros, tudo ficou por terra.
– A riquíssima e longa história de França ficou reduzida a um macabro episódio de uma rainha decapitada. E é curioso que uma cultura woke que teima em ver com os olhos de hoje a história e os acontecimentos históricos ocorridos há séculos, olhe para a barbárie que aconteceu na Revolução Francesa e não veja nada de condenável.
– A inebriante riqueza da música francesa, com um dos mais belos casamentos entre a música e a letra da canção, com vozes imortais e com o acordeão a ligar pianos, ruas, orquestras, praças e salas de espectáculo, com peças musicais que são património do mundo, a música francesa cedeu o seu lugar ao rap. Sobre isto, não consigo dizer mais nada.
– Mas o momento mais aviltante foi a profanação da Última Ceia. Trata-se da maior falta de respeito e da maior agressão religiosa que presenciei em toda a minha vida.
O director da Cerimónia de Abertura, Thomas Jolly, veio tardiamente informar que o quadro que inspirou a cena não foi a universalmente conhecida Última Ceia, de Da Vinci, um fresco com 5 x 9 metros, e que representa um dos momentos chave da fé cristã, quando Jesus faz a transmutação do pão na Sua Carne e do vinho no Seu Sangue, instituindo assim a Eucaristia. Jolly refere que o quadro que inspirou a cena foi o de Jan Harmensz van Biljert, que quase ninguém conhecia há pouco mais de uma semana, pintado por volta de 1635, que retrata uma Festa dos Deuses no Olimpo, e que se encontra no discreto Museu Magnin em Dijon. É curioso que praticamente não se encontrem semelhanças quando comparado este quadro com a cena das Drag Queens. “Plus clair, maintenant?”, pergunta Thomas Jolly, que depois refere que não tinha intenção de magoar nenhum grupo religioso.
Senhor Jolly: ninguém acredita nessa do outro quadro. E a Igreja Católica, que ofendeu consciente e deliberadamente, é muito mais que um grupo religioso. A sua ofensa dirigiu-se a todo o planeta, a todos os continentes e a todos os católicos, enfim, à religião com maior número de seguidores no mundo.
Esta foi a religião que moldou a matriz onde se desenvolveu a cultura ocidental, a mais tolerante de que há memória. A mesma cultura que lhe permitiu fazer a sua obra.
Acredite que, se substituir esta religião por outra religião ou filosofia, não terá a mesma liberdade para desenvolver o seu trabalho.
E não tenhamos ilusões: o crescimento dos extremismos mostra que o ataque ao cristianismo já está a começar a ter efeitos. ■




