Portugal é grande no Mundo e o Mundo precisa de Portugal

O Diabo continua a publicar os discursos mais significativos pronunciados no dia 5 de Outubro em Lisboa e Guimarães, assinalando o Tratado de Zamora de 1143. Esta semana reproduzimos a intervenção do empresário e gestor Bruno Bobone, líder do grupo Pinto Basto, ex-presidente da CCIP e actualmente presidente da Mesa da Assembleia Geral do Fórum Oceano, da Associação Mundial de Empresários e Gestores Cristãos e um dos Vice-Presidentes da CE-CPLP.

Foi com muito gosto que recebi este convite para vos falar neste dia tão importante em que comemoramos o nascimento da nação portuguesa. Uma história de quase nove séculos de grandes feitos, de grandes momentos e de grandes homens e mulheres que fizeram deste nosso país um factor de orgulho para todos e cada um de nós.
Nascemos por uma manifestação de uma vontade de sermos independentes, porque tínhamos a convicção de que éramos mais do que uma parte de outro país, porque queríamos viver a um ritmo que é o nosso e para defender aquilo em que acreditamos. E desde o princípio acreditámos que podíamos chegar mais longe. E chegámos antes de todos a todo o Mundo, conhecemos novas gentes e novas sociedades, trabalhámos com outras culturas e desenvolvemos grandes parcerias.
Fomos grandes, mas fomos mais do que isso, fomos humanos e fomos ambiciosos, fomos capazes de criar uma alma portuguesa por toda a parte e fomos capazes de criar uma relação com os povos que ainda hoje nos coloca numa posição diferenciada nas relações internacionais.
Somos vistos no Mundo como uma gente educada, trabalhadora, disponível e acolhedora. Somos recebidos com boa vontade em quase todos os países. E somos, acima de tudo, reconhecidos como solucionadores de relações entre povos. Por isso estamos representados em muitas das instituições internacionais, por isso somos chamados a intervir em momentos de tensão, e por isso temos sucesso onde muitas vezes os outros falharam. Esta é a nossa origem e a nossa história, mas esta é também a nossa maior qualidade para escrever o nosso futuro.
Estamos a viver um tempo de grande incerteza e uma enorme crise de valores. O Mundo está à procura de uma nova ordem de equilíbrio, e de novos caminhos de sustentabilidade. As instituições estão confrontadas com uma necessidade de encontrar fórmulas de substituir aqueles que foram os valores que serviram a criação desta sociedade europeia de respeito pela pessoa humana e de defesa da liberdade, para evitarem aquilo que parece inevitável e que é a destruição deste modelo de vida que tanto custou a criar.
Durante gerações, com enorme custo e sofrimento, a Europa e o mundo ocidental foram desenvolvendo um sistema de vida baseado nos valores do Homem, influenciados pela religião que sempre fez parte das nossas vidas.
Nas últimas décadas a sociedade ocidental acomodou-se e permitiu a criação de comportamentos e de abusos de poder, de faltas de respeito pelo cidadão e de incompetência nas lideranças que estão a ser a razão da sua própria destruição.
Curiosamente, é neste momento de angústia de convicções e de falta de ordem, em que a sociedade ocidental se encontra cada vez mais perdida e em que a maioria dos países e dos seus cidadãos voltam as costas a toda a sua herança política e religiosa, que, no nosso país, os nossos concidadãos, numa manifestação voluntária, se afirmaram 80% católicos, ou seja, defensores dos valores que formaram esta sociedade em que todos vivemos.
O mesmo podemos verificar naquilo que tem que ver com as relações internacionais. O Mundo está a assistir a um aumento das tensões entre os estados e entre as organizações dos estados. As guerras aumentam em número e em envolvimento dos países que afectam. Aumenta cada vez mais a incompreensão entre as culturas e diminui a solidariedade entre os povos. A dificuldade de entender os outros é o maior factor de todo o belicismo mundial. Todos sabemos que o Mundo avança sempre mais em tempos de cooperação entre os estados e quando trabalhamos unidos no mesmo sentido.
Portugal é hoje – produto da sua história e das características da sua população – um país com condições excepcionais para poder assumir uma posição especial nas relações entre países e regiões.
Em terceiro lugar, é importante reconhecer as características específicas da genética deste povo. Em todos os continentes e na maioria dos países, estamos habituados a encontrar regularmente a figura de um português, nos locais mais recônditos e nas circunstâncias mais difíceis, ser a referência de segurança e confiança que garantem a funcionalidade dessas sociedades nos momentos de maior aflição.
É a partir destas três realidades que eu acredito que deveremos desenhar a estratégia de futuro deste nosso maravilhoso país e cuidar de tratar melhor das gentes que o compõem. Perdoem-me repetir – é maravilhoso ver que este país, no meio de uma destruição total de valores e num momento de aumento do desentendimento entre os países no Mundo, consegue com muita coragem afirmar-se defensor dos valores essenciais e aumentar a sua capacidade de manter as relações internacionais.
Qual é, então, a grande oportunidade de futuro que temos para o nosso país?
Comecemos por definir aquilo que é a estrutura de sociedade que queremos estabelecer. Uma sociedade formada na defesa do bem comum, em que as pessoas se preocupam com os outros, em que somos capazes de olhar para o lado e ver uma pessoa e não uma ameaça. Uma sociedade que promove a propriedade privada e defende a autonomia das pessoas sobre o paternalismo do Estado, mas, ao mesmo tempo, uma sociedade que promove a partilha da responsabilidade sobre a distribuição da riqueza criada, através da administração responsável dos bens.
Nunca nos esqueçamos de que o paternalismo, que hoje mais do que nunca é praticado pelos que nos governam, é a pior forma de condicionalismo a seguir à escravidão. O paternalismo retira-nos a capacidade de decidir e acabamos prisioneiros das escolhas de outros.
Queremos uma sociedade que exige a participação dos seus cidadãos na sua construção, no seu desenvolvimento e na sua defesa, com a consciência de que a realização de cada pessoa está ligada profundamente à sua responsabilidade. Por fim, queremos uma sociedade que promove a solidariedade entre todos e que se assegura de que ninguém fica para trás. Tudo isto sempre enquadrado pela cultura de verdade, de liberdade e de justiça.
Mas, conseguindo nós evoluir na construção desta sociedade, como é que vamos ser capazes de partilhar esta nossa convicção e esta nossa realidade com um Mundo que se sente capaz de continuar no seu caminho, sem olhar os outros e sem pedir ajuda? Um Mundo orgulhoso que não olha a quem lhe parece pequeno, um Mundo que escarnece os valores que foram a razão de ter chegado até aqui e que acredita que sabe melhor do que nós aquilo que lhe convém. Um Mundo que não vê que a sua destruição está ao virar da esquina e que só os nossos valores e a nossa acção o pode salvar. Um Mundo de Golias que recusa ver a verdade de David.
Pois há só uma forma de o fazermos e isso advém do nosso exemplo. Temos que começar por nos libertarmos deste Estado paternalista que finge distribuir a riqueza que criamos pelos que mais precisam, mas que apenas gasta nas suas gorduras tudo o aquilo que nos consegue tirar. Temos que convencer as nossas empresas a continuar cada vez mais o seu processo de internacionalização para estarmos cada vez mais representados por esse Mundo fora. Temos que criar uma rede de portugueses pelo Mundo, que seja verdadeiramente defensora desta realidade que queremos ser. Temos que investir nas relações com os países que connosco compartem a nossa cultura. Temos que promover a Comunidade de Países de Língua Oficial Portuguesa. Mas temos, antes de tudo, que acreditar que somos mais do que um pequeno país. Acreditar que somos um povo de grande fé e convicções que quando se junta em torno de uma causa grande é um povo enorme, que conquista onde outros não chegam a tentar. Temos que saber usar a nossa história para ter a força de voltar a tentar. Temos que ter a coragem de combater todas as tentativas de matar esta portugalidade, esta alma de ser português que temos a entrar pelo país a dentro, na tentativa de nos infectar com o vírus do mal comum, da destruição dos valores, da promoção da incompetência, do desdém pela causa pública e da indiferença pelo mal-estar dos mais pequenos.
Temos que voltar a acreditar em Portugal, no povo português, nos nossos heróis, na força da iniciativa privada, na cultura da nossa história e na razão da verdade da liberdade e da justiça. Portugal é grande no Mundo e o Mundo precisa de Portugal. ■

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