Senhor Presidente, as novas gerações contam consigo
Senhor Presidente da República,
Num tempo em que a política vive frequentemente aprisionada pela lógica do imediato, permito-me dirigir-lhe estas palavras no início do seu mandato, manifestando desde já as maiores felicidades no exercício do mesmo. Não o faço como exercício de circunstância, mas como reflexão sobre o que Portugal poderá esperar da sua Presidência num período que se antevê particularmente exigente.
A História raramente concede aos líderes períodos de tranquilidade. O seu mandato inicia-se num momento em que o mundo atravessa uma transformação estrutural. A ordem internacional que durante décadas assegurou estabilidade e previsibilidade encontra-se hoje sob tensão: a guerra regressou à Europa, a rivalidade entre potências intensifica-se, as cadeias económicas reorganizam-se e as democracias liberais enfrentam desafios internos que não podem ser ignorados.
Portugal, naturalmente, não está imune a estas mudanças. A nossa política externa, ancorada na vocação atlântica, europeia e multilateral do país, terá de saber afirmar-se com clareza num contexto internacional mais incerto. Caberá ao Presidente da República, enquanto mais alto magistrado da Nação, contribuir para garantir que Portugal permanece um ator credível, previsível e comprometido com os valores que moldaram a sua integração europeia e ocidental. Num tempo de crescente polarização e de erosão da confiança nas instituições democráticas, a palavra do Presidente da República continuará a ter um peso particular na afirmação da estabilidade institucional e da maturidade democrática do país.
Mas os desafios que enfrentamos não são apenas externos. Internamente, Portugal continua a viver sob o peso de fragilidades estruturais que se manifestam ciclicamente em crises políticas, instabilidade governativa e crescente distanciamento entre cidadãos e instituições. Num país onde demasiadas vezes a política se confunde com cálculo tático e onde o horizonte das decisões raramente ultrapassa o próximo ciclo eleitoral, a Presidência da República assume uma responsabilidade acrescida: a de ser fator de equilíbrio, de estabilidade e de visão estratégica.
A estabilidade democrática não nasce apenas de maiorias parlamentares. Nasce da confiança nas instituições, da qualidade da representação e da capacidade do sistema político em incluir aqueles que, muitas vezes, se sentem afastados da decisão pública.
E é precisamente aqui que emerge um dos grandes desafios do nosso tempo: o lugar das novas gerações na democracia portuguesa.
Portugal enfrenta uma realidade que não podemos continuar a ignorar. Uma geração altamente qualificada confronta-se com dificuldades persistentes de emancipação: acesso tardio à habitação, precariedade laboral prolongada, salários que nem sempre acompanham o custo de vida e uma sensação difusa de bloqueio social. Importa reconhecer que nos últimos anos têm sido adotadas medidas relevantes que procuram colocar os jovens no centro das políticas públicas, seja no acesso à habitação, na fiscalidade ou na valorização do trabalho jovem. Ainda assim, persiste entre muitos jovens um legítimo inconformismo perante as barreiras que continuam a encontrar na construção de um projeto de vida autónomo em Portugal.
A consequência mais visível é a saída silenciosa de milhares de jovens que procuram no estrangeiro as oportunidades que o país tarda em oferecer. Mas existe também uma consequência menos visível, embora não menos preocupante: o afastamento gradual das novas gerações da vida pública e das instituições democráticas.
Se queremos que os jovens permaneçam comprometidos com o futuro coletivo do país, então não basta falar sobre eles. É necessário trazê-los para dentro dos espaços onde as decisões são pensadas e discutidas, porque existe uma geração inteira que anseia por ser ouvida, que quer participar na mudança e que quer sentir que conta.
Senhor Presidente da República, conhece bem esta realidade. O seu próprio percurso cívico e político começou no movimento juvenil, tendo liderado uma juventude partidária e presidido ao Conselho Nacional de Juventude. Essa experiência confere-lhe uma sensibilidade particular para compreender a importância da participação política das novas gerações e o papel que os jovens podem desempenhar na renovação da vida democrática.
Por essa razão, permito-me deixar-lhe um apelo concreto. Tal como já o fiz no passado ao Dr. Luís Marques Mendes, que de forma corajosa se comprometeu com esse desígnio.
A Constituição confere ao Presidente da República a prerrogativa de designar membros do Conselho de Estado. Trata-se do órgão político de consulta do Chefe de Estado, um espaço onde se cruzam experiência institucional, conhecimento político e reflexão estratégica sobre o futuro do país.
Nada impediria que, no exercício dessa competência, o Presidente da República escolhesse designar um jovem português para integrar esse órgão.
Não se trataria de um gesto simbólico ou de mera representação geracional. Seria, antes, um sinal político de grande alcance: o reconhecimento de que as novas gerações não devem ser apenas objeto das políticas públicas, mas também sujeitos ativos da reflexão estratégica sobre o destino nacional.
Abrir as portas do Conselho de Estado a uma nova geração seria afirmar que a democracia portuguesa tem confiança no seu futuro. Seria reconhecer que os desafios do país, da transição digital à sustentabilidade económica, da coesão territorial à transformação do mercado de trabalho, exigem também o olhar daqueles que viverão mais tempo com as consequências das decisões tomadas hoje.
A autoridade das instituições não diminui quando se renovam. Pelo contrário: reforça-se quando demonstram capacidade de escutar e integrar novas perspetivas.
Senhor Presidente da República,
Portugal precisa de estabilidade, de ambição e de confiança no futuro. E essa confiança constrói-se quando as instituições demonstram que sabem olhar para além do presente.
Talvez um dos sinais mais fortes que a sua Presidência poderá deixar seja precisamente esse: o de uma democracia que não teme renovar-se e que confia plenamente nas gerações que lhe darão continuidade.
Senhor Presidente, as novas gerações contam consigo.
Com elevada consideração.




