O realismo em prol do fim da História

CARLOS PAIVA RAPOSO
CARLOS PAIVA RAPOSO
Deputado Assembleia Municipal de Cascais Ex. coordenador da Iniciativa Liberal Cascais.

Com o colapso da União Soviética e a autoproclamada vitória ocidental na Guerra Fria, o mundo viveu um período raro que ficou conhecido como “momento unipolar”, refletindo o domínio global de uma única superpotência. Esse período foi caracterizado pelo alargamento da democracia a povos que, durante décadas, viveram subjugados, como os países da Europa de Leste que hoje integram a NATO e a União Europeia. Muitos chegaram a acreditar que tínhamos alcançado o fim da História, no qual a democracia liberal, após ter-se demonstrado superior às alternativas autocráticas, acabaria por alastrar a todos os povos e assegurar a paz perpétua.
Estas ilusões terminaram com um banho de realidade. Primeiro, com a chegada ao poder de um antigo agente do KGB na Rússia, para quem a Guerra Fria nunca tinha realmente terminado. Depois, com o 11 de Setembro e as subsequentes guerras no Médio Oriente, com as anexações de território na Europa, como na Geórgia e na Crimeia, com crises financeiras que colocaram em causa a alegada supremacia das democracias liberais e com a ascensão de uma nova potência global autocrática.
Os erros dos EUA no Iraque criaram dúvidas sobre se a influência ocidental era realmente positiva no mundo e sobre se o modelo democrático era adequado para todos os povos, algo que em tempos também se disse sobre os portugueses. Esse debate ressuscitou um isolacionismo norte-americano que não se via com tanta influência desde antes da Segunda Guerra Mundial.
Criou também, em muitos ocidentais, quase um sentimento de culpa, associando a expansão das democracias e dos seus mercados livres a uma espécie de neocolonialismo, mesmo depois de o alargamento da democracia a dezenas de países, impulsionado em grande parte pelos EUA, ter trazido a milhões de pessoas liberdades que há anos não tinham e uma melhoria significativa dos níveis de qualidade de vida.
O mundo livre percebeu que não tínhamos chegado ao fim da História e que, provavelmente, nunca seria alcançado. De forma indesculpável, muitos desistiram até de o procurar.
Um elemento comum na política externa das autocracias é a sua colaboração ativa para minar as democracias. Fazem-no porque sabem que estas representam uma ameaça direta aos seus próprios regimes e ao seu poder, ao demonstrarem que é possível alcançar prosperidade sem abdicar das liberdades fundamentais. Pelo mesmo motivo, o alargamento da democracia a mais povos e regiões deve ser um objetivo central da política externa do mundo livre. Para isso, as democracias precisam de estar melhor armadas do que as ditaduras. Como escreveu Robert Kagan, um mundo livre existe apenas se for possível sustentá-lo.
Durante décadas, Merkel, na Europa, procurou uma aproximação a Putin e à Rússia, mesmo quando este anexava territórios de países vizinhos, envenenava adversários políticos em território europeu e reanimava as chamas da Guerra Fria, opondo-se abertamente ao alargamento da influência ocidental e americana.
Quando a Rússia anexou a Crimeia em 2014, a resposta norte-americana foi suave, chegando a equiparar essa agressão a excessos cometidos pelos próprios EUA no Médio Oriente. Como se a anexação ilegal de território soberano pudesse ser relativizada. Os EUA foram fracos com quem apenas entende a linguagem da força.
Regimes como a Rússia, o Irão, a Síria e a Venezuela colaboraram durante anos para defender os seus interesses e para subverter a ordem internacional liberal. O Ocidente, durante demasiado tempo, fechou os olhos a esta realidade.
Passados alguns anos, Putin invadiu a Ucrânia esperando a mesma resposta por parte do Ocidente. Enganou-se.
Joe Biden chegou à presidência dos EUA com mais experiência em relações internacionais do que a grande maioria dos seus antecessores, fruto, em parte, dos anos em que foi presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado. Mais do que muitos, estava lúcido quanto aos desafios que a Rússia e os seus aliados autocráticos no Irão, na Síria e na Venezuela representavam para os EUA e para o Mundo Livre.
A resposta de Biden à invasão russa e aos acontecimentos de 7 de Outubro foi clara: armar a Ucrânia até aos dentes e dar aos israelitas todo o apoio necessário para que destruíssem os seus inimigos, o Hamas, o Hezbollah e os Houthis. A Ucrânia resistiu, a Europa acordou e os russos estavam, e continuam, demasiado ocupados com a sua guerra imperialista falhada para prestar auxílio aos seus aliados.
O 46.º Presidente foi muito claro quanto à sua visão: para sobreviver na selva das relações internacionais, a democracia precisava de estar melhor armada do que as autocracias. O fim da História, entendido no seu sentido mais idealista, deve ser procurado, mas tem de ser sustentado por ‘hard power’ realista. É o mesmo realismo que deu origem à NATO após a Segunda Guerra Mundial e que proporcionou à Europa as condições necessárias para se integrar.
E quando Trump foi reeleito Presidente, e esta estratégia, a meu ver sólida, parecia destinada a ser arrumada em detrimento do isolacionismo do America First, a realidade está a revelar-se diferente do que muitos esperavam.
Há um ano, Bashar al-Assad fugia da Síria. Os russos estavam demasiado ocupados na sua guerra falhada para intervir e os ‘proxies’ do Irão estavam demasiado ocupados a ser aniquilados pelos israelitas para prestar auxílio.
A administração Trump não reforçou o apoio militar à Ucrânia, mas, em pouco tempo, retirou Maduro do poder na Venezuela, eliminou o líder supremo do Irão, para grande euforia dos povos venezuelano e iraniano, e expôs ao mundo a fragilidade russa na defesa dos seus aliados. Os dominós começam, lentamente, a cair.
Parece notória a influência de Marco Rubio e de Pete Hegseth, bem como a reduzida influência de figuras como JD Vance ou Tulsi Gabbard, na orientação geopolítica seguida por Donald Trump. Rubio parece ter convencido o Presidente de que pode alcançar mais sucessos e vitórias ao afirmar o poder norte-americano no mundo, mesmo em tensão com os seus instintos isolacionistas.
O resultado é que a estratégia iniciada por Joe Biden parece estar a ter continuidade de forma mais incisiva e realista, procurando, no essencial, alcançar os mesmos objetivos estratégicos. É o realismo em prol do fim da História. E America First já não significa America Alone.

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