O triunfo da vontade
PAULO FERRERO
“Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) ” é um filme belo, carregado de humor negro e de onirismo consciente, realizado pelo mexicano Alejandro Iñárritu num falso único ‘take’, no qual a câmara de Emmanuel Lubezki voa por entre a mente e a Broadway, numa jornada prodigiosa de planos-sequência que faz lembrar Fellini e Ophuls.
É também uma história curta e incisiva, impregnada de tensão e poesia, como Raymond Carver escreveria. Uma história sobre a meia-idade, sobre o egoísmo, frustrações e família, mas também sobre o palco da vida, de Pessoa. E sobre o crer que é poder e como o segredo da libertação de cada um reside na mente de cada qual.
Não será apenas de agora o drama dos actores que não se conseguem libertar do passado de super-herói, muito menos é de hoje a atracção do cinema pela clausura da mente, bastará recordarmos dois dos mais famosos homens-pássaros do grande ‘écran’, que passam agora ter por companheiro deste século este outro de Iñárritu: o preso mais famoso da outrora prisão de Alcatraz e o louco-traumatizado de “Birdy” (1984).
E que dizer dos diálogos a-s-s-o-m-b-r-o-s-o-s de “Birdman”? Ou daquelas personagens (todas sem excepção) e das respectivas interpretações, com a do recuperado Keaton (o nosso querido Beetlejuice, do começo de Tim Burton) à cabeça, arriscando-se a um Óscar? E daquela bateria terrivelmente poderosa, intermitente por entre trechos clássicos (Ravel, Mahler e por aí fora), pré-anunciando uma explosão iminente? Ou da óbvia homenagem às asas protectoras do já clássico anjo de Ganz & Wenders?
Que isto é Cinema e que o devemos aplaudir de pé.
- Título original: Birdman
- Realização: Alejandro González Iñárritu
- Com: Michael Keaton, Zach Galifianakis, Edward Norton
- EUA, 2014, 119 min.
- Estreia: 8 de Janeiro de 2014.




