Como ganhar um debate na TV: um guia para o sucesso infalível
Vamos entrar na última semana de debates entre líderes candidatos às próximas eleições legislativas de Março. Apesar de eles não serem muitos, estão mal divididos, com dias em que apenas tivemos um e vários dias em que tivemos três, em alguns casos tivemos um debate às 18h e outro às 22h em vez de 21h. Não conseguem compactar mais porquê? Há jornalistas a menos? Podem ir buscar as sobras de muitas redacções.
Já que estamos a falar de jornalistas, os moderadores são fraquíssimos, com destaque para o casal maravilha: Clara de Sousa, que faz uma pergunta, a resposta do candidato não é minimamente de jeito e passa logo para outra pergunta ou muda de candidato. O João Adelino Faria está ali e não consegue impor o mínimo de respeito. A SIC aposta numa jornalista de desporto para moderar, faz as perguntas da “reggie”, mas longe de ter conhecimento político para poder exigir qualidade do candidato. O que tem conhecimento, mas a quem ainda falta estofo, é o João Póvoa Marinheiro, que gosta de política, mas tem de ser mais assertivo na moderação e não pode oscilar.
Um moderador não é apenas um jornalista no palco, é quem faz as perguntas, sobretudo as difíceis, que fazem os candidatos patinar e mostrarem quando mentem. O moderador encarna o povo, mas os jornalistas comem do mesmo prato que os políticos, comem os restos, mas comem.
Mas vocês querem saber como se ganha um debate em televisão, na minha experiência enquanto consultor político. E na verdade já preparei muitos candidatos, quer para debate televisivo, como para um meio mais difícil: a rádio.
Os debates televisivos assumem um grande ponto na campanha eleitoral, pois todos os candidatos entram em nossa casa por 30 minutos para fazerem a sua campanha, verifiquem apenas se depois de desligarem a televisão não têm um comunista ou um bloquista escondido debaixo do vosso sofá ou cama. O papão existe e veste vermelho, papa tudo até não haver mais nada.
O primeiro debate televisivo opôs Nixon a Kennedy, e aqui deixo esta curiosidade: perguntaram às pessoas que acompanharam o debate quem tinha ganho. Para os que apenas ouviram o debate na rádio, Nixon foi um claro vencedor; já para os que viram na televisão, foi Kennedy quem ganhou. Ou seja, não é apenas o que dizemos, mas como o dizemos e de que forma aparecemos na televisão.
Repararam que Rui Rocha aparece sem óculos, mas igualmente de sapatos e gravata? Se o virem no Parlamento está de camisa, ténis e com óculos, mas isso, como lhe dava um aspecto muito “artolas”, foi mudado. A IL é como o PCP: no Parlamento fazem gala em não usarem gravata, mas quando visitam o Presidente da República e entram nos debates, levam a gravata e o fato de domingo. Mas repararam também nos fatos da Inês Sousa Real? Nos “All” da Mortágua?
Então vamos começar:
1
Apresentação cuidada e trabalhada para um propósito. Rui Rocha quer parecer mais sério e formal, não para a sua claque, mas para outro eleitorado que acha que a IL é demasiado fresca e leve. Luís Montenegro, Pedro Nuno Santos e André Ventura aparecem sempre com gravatas e vão mudando as cores e assumem posturas corporais mais sérias, não que isso impeça Pedro Nuno Santos ou André Ventura de resvalarem para o banal e perderem a pose de primeiro-ministro. Em política, o factor percepção conta muito.
2
Conhecimento é poder. O que é que mais criticamos nos chamados tudólogos? Acharem que sabem tudo, mas depois dão falhas atrás de falhas e com isso perdem a credibilidade. Qual o valor de estar bem informado? O valor de uma equipa multidisciplinar e que percebe que são os olhos que lêem as notícias que o candidato não pode ler por falta de tempo, são as mãos que anotam o que o candidato não tem tempo para anotar. O candidato pode ser bom comunicador, mas se está fora da realidade, então está fora do jogo. Então vamos ter as melhores notas e, mais do que isso, demonstrar que as temos: dar exemplos semelhantes, mas diversos nas várias temáticas, e dispor algumas folhas, recortes de notícias e gráficos em cima da mesa, mostrar que temos um arsenal e que não vale a pena querer contrariar o que estamos a dizer, por uma razão muito simples: contra factos e a realidade não há argumentos.
3
Jogar bem “poker”. O espelho devolve aquilo que damos. Quando um tenista não tem parceiro para jogar, tem que jogar com a parede, porque a parede, se lhe dermos uma boa bola, ela devolve, o mesmo para uma péssima bola enviada. Lei do retorno aplicada. Temos que dominar cada músculo do nosso corpo, caso contrário aparece-nos o Alexandre Monteiro com as suas histórias das microexpressões e é chato, porque somos políticos e o público está sempre contra nós, este deve ser o “mindset”, e a claque não é sincera a apontar falhas. Então vamos debater com o espelho, para vermos que cara fazemos se estamos felizes, e qual a nossa cara quando somos confrontados, que pode ser mal interpretada. Alguém acha que aqueles sorrisos da Mortágua são genuínos? Ninguém, sem ser a claque. Alguém gosta do fechar de olhos de Rui Tavares? Dos olhares perdidos de Rui Rocha e os seus falsos sorrisos? Das narinas aumentadas de Inês Sousa Real? Dos olhos de cachorro abandonado de Paulo Raimundo? Não podemos ser demasiado expressivos para não sermos fáceis de ler, temos de ter uma boa “pokerface”, porque é essa “pokerface” que vai ser o nosso escudo supremo contra tudo e contra todos. E “pokerface” não é cara trancada, é uma cara que queremos. Se nós não mexemos um músculo ao que nos é dito e atirado, então estamos na perfeita posse de nós e do debate. Aplicando isto, estamos mais próximos de sair do debate a dançar de vitória, já agora ao som de “Pokerface” de Lady Gaga.
4
O adversário é a ovelha do curral. O debate não é apenas fazer as nossas ideias vencerem, é colocar o outro no seu lugar: de miserável e perdedor, a história faz-se de vencedores e de vencidos. Aqueles que amam debates políticos lembram-se da frase de José Sócrates a Francisco Louçã, centésimos de segundo antes de o debate ter início, a propósito de uns supostos sapatos bonitos e que deviam ser caros (e Louçã apressa-se a escondê-los). Uma clara provocação da hipocrisia burguesa. Quantos de nós não perdemos a nossa alma na festa a partir do momento que nos sujamos? Ficamos logo inibidos. Então porque não vamos inibir o nosso adversário? Puf! Ficou sem pólvora. Basta apontar que tem algo nos dentes ou boca, uma suposta nódoa que tem de ser tapada, o resto é deixar o subconsciente adversário trabalhar, porque o subconsciente do político trabalha para ele ser perfeito, se a perfeição não foi conseguida… vocês já sabem.
5
Montar uma narrativa que impacte o eleitorado. E não, deixem a vossa avó sossegada. Mas o Rui Rocha encontrou uma narrativa simples na sua proposta de IRS: alguém que ganha 1.800 euros brutos, no final do ano traz para casa 2.000 euros. Simples e eficaz. Fica, é um exemplo palpável. Então vamos falar de números, mas com metáforas, porque isso as pessoas fixam e reproduzem, ao contrário de falar de percentagens e de mil milhões de dinheiro. No fundo, é empatizar e tratar da realidade. É isso que André Ventura trouxe de fresco com os seus primeiros debates: falar como o povo e para o povo, como se pertencesse ao povo e não à elite. Sentir que aquele político está mesmo connosco, ele é “um de nós”. E, como nós sabemos, vamos defender alguém que se pareça connosco, porque temos empatia.
6
Até acabar o debate é debate. Já vimos debates serem muito equilibrados, serem taco-a-taco. Mas onde se faz a diferença num mundo povoado de políticos e de gabinetes de consultadorias e de supostos profissionais da comunicação? Uma frase impactante. Quem se lembra dos debates do Tino de Rans? Os debates eram vistos porque gostávamos daquele bombom de sabedoria popular/alegoria. Assim como nos lembramos da “punchline” inicial de Cotrim Figueiredo nos inícios de debate que, como foi tão boa, até hoje o PAN a usa, mas para dizer que o Liberalismo não faz falta a Portugal (então com isso é fácil de esclarecer que o PAN é um partido de esquerda), todos gostamos de uma capa de jornal bem feita, um bom oráculo da “CMTV”, uma publicidade com um “slogan” inesquecível da nossa infância. Então vamos trabalhar num arsenal de uma frase forte para dizer no final, porque mesmo que seja o adversário a fechar o debate, nada impede de lançar uma frase de dois segundos, porque se a dizemos, os “spin doctors” e demais analistas políticos vão referi-la e falar dela. Então é só dizer a frase bomba para que ela seja amplificada. Mas tem que ser uma frase inteligente, se tiver graça é um bónus.
7
Fazer as pazes com o passado. Tal como no Conto de Natal, no debate vamos ter o nosso fantasma ou fantasmas do passado a visitar, então é estarmos em paz com o mesmo. Todos nós fazemos asneiras ao longo da vida, coisas boas e menos boas, outras mais escabrosas, mas a política permite a reabilitação. O passado não tem de ser uma fraqueza; e se o adversário se vai focar nisso, então temos de alertar o espectador para o perigo desta manipulação e dizer que, como não tem propostas, tem de ir para o lamaçal.
Quando chegamos a esse ponto, duas opções: ou saímos de lá sujos, mas saímos; ou sujamos o adversário com algo do seu passado e dizemos: “não me faça falar do resto” e saímos para o debate. Este segundo ponto humaniza o político: todos cometemos erros, mas o que nos define é se aprendemos com eles e que procuramos de alguma maneira compensar o mal que foi feito. Nunca é possível, mas, pelo menos, fica a vontade.
8Fazer um “Best of”. Nos tempos que correm, o tempo de propagação é infinito, então é produzir conteúdos além daquilo que foi dito. E aqui não digo a coisa mais básica de cortar e publicar momentos, mas sim encenar. Imaginem que um vídeo de um candidato vos aparece e diz: “ontem no debate falei disto, agora vou-vos mostrar casos reais e práticos”, uma vez mais, deixem as avós fora das vossas histórias, família é sagrada. Este tipo de conteúdo fideliza e mostra como não são ideias atiradas para o ar, mas sim que o político fala a verdade, isto vale muitos pontos bónus.
Aplicando estas estratégias fica impossível não ganhar um debate. Não é ganhar eleições, é ganhar debates. São coisas diferentes. Por exemplo, eu achei que o Rui Tavares fez um excelente debate, mas isso não significa que vá votar nele, mas ganhou o meu respeito, ou não.
Importa encontrar um estilo e que esse estilo produza efeitos. Os políticos são falsos, essa é uma verdade universal, mas então vamos trabalhar essa falsidade para criar um bom modelo e estilo, de forma a ganhar, porque a claque precisa disso também para continuar a ser da claque, pois se a equipa não ganha a claque vai desaparecendo, ficando apenas aquele verdadeiro adepto que acredita: a vossa avó. ■




