Costa no país das maravilhas

António Costa, agora cessante ou em gestão, deu uma entrevista penosa de ver à “TVI”/“CNN Portugal”. Penosa porque pouco mais foi que a apagogia da sua governação, perante um jornalista que cumpria o papel de figura de corpo presente, não questionando o óbvio e, menos ainda, refutando o prolixo argumentário com a evidência da verdade.
É que vai a distância de uma galáxia entre o Portugal socialista e o Portugal real. No Portugal socialista de Costa, tudo são rosas, os arco-íris e os unicórnios servem-se em abundância. Já no Portugal real só sobejam a fome e os impostos. Tudo o resto diminui, escasseia ou inexiste…
Com uma demagogia muito própria e extremamente assertiva, Costa desvia-se das balas muito antes delas serem disparadas, antecipando os golpes e preparando, desde logo, poderosas e letais contra-ofensivas. Começou a peroração com a questão do parágrafo, colando-a à sua demissão – a partir de então evidente para si e para a Fernanda, que tanto gosta de ouvir – quando a pergunta deveria ter sido se um primeiro-ministro, qualquer primeiro-ministro, teria condições de se manter no cargo depois de o seu chefe de gabinete ser detido e lhe serem apreendidos mais de 75.000 euros, não declarados, em notas, escondidos em livros no seu gabinete, no Palácio do Governo. O (infame) parágrafo apenas cumpre uma função formal, no âmbito de uma investigação em curso, obrigatória por lei e está lá, enxertado, por mero dever de cautela, para defesa do Ministério Público e do próprio primeiro-ministro. Querer daqui retirar uma consequência política, é abusivo, desleal e, sobretudo, conveniente.
Prossegue Costa com a inadmissibilidade da suspeição formalizada a altas figuras do Estado, esquecendo-se – e não sendo lembrado pelo jornalista – da nomeação de Galamba para ministro, depois de constituído arguido ou de candidatos a deputado nas listas partidárias também nessa condição. Conviria que Costa explicasse os seus padrões e, perante os portugueses assumisse as posições de conveniência: não há mal em nomear ministros ou deputados arguidos, porquanto há que confiar na Justiça e na presunção de inocência. Já no que respeita ao primeiro-ministro, nem as investigações em fase de inquérito (que podem ser objecto de arquivamento liminar, reforçando a sua inocência processual), serão admissíveis.
Critica a decisão do Presidente da República de não aceitar um Governo não legitimado, liderado por um independente, sem sequer assegurar o devido apoio parlamentar, asseverando que tal solução seria sempre melhor do que devolver o poder ao povo. Não explica o seu conceito de democracia e, menos ainda, a viragem face à posição tomada uns anos antes com a saída de Durão Barroso para a Europa. À data, a substituição era meramente pessoal e por um seu vice-presidente, não estando em causa – como está agora – uma profunda crise política, alastrada à quase total composição do Governo. Na altura, Costa e o Partido Socialista apregoaram à soberania popular e a eleições antecipadas.
Garantiu, posteriormente, não ter preferência sucessória, entre Pedro Nuno e José Luís Carneiro. Novamente, a pergunta errada. A questão deveria ser se um cidadão, que houvera sido ministro, que se mostrara desleal para com o primeiro-ministro, que coleccionara erros atrás de erros no seu magistério, que só se recorda das instruções ruinosas dadas por “WhatsApp” meses depois, tem condições para liderar um país. A outra deveria ser se é isso que o PS, o seu PS, tem de melhor para apresentar aos seus militantes e ao país…
E na análise feita à sua governação, mais parecia estar sob o efeito de ácidos, falando de um país que não é seguramente o que governou. Lançou, sem qualquer contraditório, números, dados económicos e financeiros para cima da mesa, garantindo investimentos faraónicos em quase todas as áreas de governação. Se a despesa duplicou, triplicou e se multiplicou vezes sem conta, as perguntas deviam suceder-se em catadupa:
– Porque é que temos mais pobres e mais sem abrigo?
– Porque é que temos urgências e outras valências hospitalares a fechar?
– Porque é que temos uma Justiça parada, ineficaz e com mais pendências?
– Porque é que temos mais e mais portugueses sem médico de família?
– Mais alunos sem professores?
– Porque é que pagamos das electricidades, gás e combustíveis mais altos da Europa?
– Porque é que temos uma crise na habitação como nunca tivemos?
– Porque é que temos uma carga fiscal altíssima?
– Porque é que não foi feita uma única reforma digna no seu consulado?
Não há que ser um génio para concluir o óbvio! Se o investimento é (muito) maior e os resultados (muito) piores, só pode resultar de uma manifesta incompetência governativa!
Mas não! Costa passeou-se pelo programa desmultiplicando-se em garantias de melhoria e prosperidade para todos os portugueses, pelo menos no “excel” socialista. Em tudo o resto o país vive nas listas de espera, nas listas de desemprego, a cortar nas listas dos supermercados e das farmácias porque o dinheiro não estica, nem nasce nos livros… ■

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