A perigosa armadilha oriental

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Se a China tivesse reagido ao surto de Covid-19 três semanas antes, 95% dos casos de coronavírus poderiam ter sido evitados, segundo conclui um recente estudo da Universidade de Southampton. E de acordo com Steve Tsang, director do SOAS China Institute da Universidade de Londres, “foi o encobrimento do Partido Comunista nos primeiros dois meses que criou as condições necessárias para gerar a pandemia global”.

No entanto, nesse período crucial, os líderes chineses estiveram obcecados, única e exclusivamente, com a sobrevivência do seu regime totalitário, ocupando-se em abafar toda e qualquer crítica à sua acção. Desde Janeiro, a evidência do encobrimento deliberado do Coronavírus em Wuhan tornou-se pública. O governo chinês censurou e prendeu médicos e denunciantes corajosos que tentaram soar o alarme. Jack Ma, um dos empresários mais ricos da China, revelou recentemente que as autoridades de Pequim esconderam no mínimo um terço dos casos de Coronavírus. Esta política de ocultação define a natureza da relação da China com o resto do mundo.

A China conseguiu atingir o patamar de superpotência porque adoptou as práticas económicas do Ocidente. Nenhum país conseguiu um progresso económico e social tão rápido durante um período tão prolongado. Contudo, as esperanças depositadas pelo Ocidente no mercado chinês também alimentaram uma miragem perigosa. Nós, no Ocidente, achámos que uma China modernizada com um PIB em crescimento iria necessariamente democratizar-se e passaria a respeitar a transparência, o pluralismo e os direitos humanos. Mas a miragem transformou-se em desastre e diante dos nossos olhos a China foi-se tornando um Estado ainda mais totalitário.

A natureza do regime chinês, a proibição da imprensa livre e toda e qualquer voz crítica, o domínio absoluto dos agentes sociais, espirituais e económicos pelo Partido Comunista, o encarceramento de minorias e o rolo compressor que esmaga a liberdade de consciência também contribuíram para o surgimento do presente desastre de saúde pública. O custo, em termos de vidas humanas e do PIB mundial, é incomensurável.

A cumplicidade do governo chinês no tocante à pandemia é uma oportunidade para o Ocidente reavaliar os seus laços com Pequim. De acordo com Guy Sorman, especialista franco-americano na China, “assim como os idiotas úteis, o que nós fizemos não foi só ajudar o Partido Comunista a prosperar, pior do que isso, deixámos pelo caminho os nossos valores humanitários, democráticos e espirituais”. O colunista norte-americano Marc A. Thiessen escreveu também: “Está na hora de imunizarmos a nossa economia e a nossa segurança e deixarmos de depender de um regime trapaceiro”.

Ao que tudo indica, a China olha o Ocidente como uma potência fraca e submissa. E somos mesmo. A China parece acreditar que se encontra em franco crescimento, ao mesmo tempo que o Ocidente está em franco declínio. “De um lado temos as democracias liberais, do outro o capitalismo estatal autoritário da China, que está gradualmente a projectar pretensões absolutas de poder para além de suas fronteiras”, observa Thorsten Benner, co-fundador e director do Global Public Policy Institute, de Berlim. 

A Guerra Fria com a Rússia era mais transparente. “Estávamos perante um antagonista nas esferas ideológica e de segurança, mas não um concorrente na área económica. Havia um muro entre as economias do Ocidente e da União Soviética. Hoje confrontamo-nos com um oponente que é um poderoso concorrente na economia, astutamente envolvido na política económica do Ocidente. Concomitantemente, também dependemos da cooperação da China em questões transnacionais, como alterações climáticas e pandémicas. O sistema estatal capitalista e autoritário da China, juntamente com suas ambições hegemónicas, são de longe o desafio estratégico mais difícil com que o Ocidente já se deparou”.

Em determinados segmentos, como a tecnologia, a China já ultrapassou os Estados Unidos. E não pára por aí: a economia soviética nunca esteve tão intimamente integrada com o Ocidente como está hoje a chinesa, a segunda maior do mundo. 

Por exemplo, vejamos o caso da indústria farmacêutica. Segundo Yanzhong Huang, investigador do Council on Foreign Relations, as empresas chinesas fornecem aos Estados Unidos da América mais de 90% dos antibióticos, vitamina C e ibuprofeno, além de 70% de paracetamol e de 40 a 45% de heparina consumidos no país. Os EUA nunca dependeram tanto da União Soviética.

A Itália, país duramente castigado pela pandemia de Coronavírus da China, agora é o pivô de uma estratégica campanha de propaganda chinesa. Pequim continua a enviar médicos e suprimentos para a Itália, país onde é possível ver cartazes de rua com os dizeres “Força, China!”. O que a China visa é comprar nosso silêncio e a nossa cumplicidade. Lamentavelmente, é isso mesmo que está a acontecer. Em Fevereiro, enquanto a Direita italiana instava o primeiro-ministro Giuseppe Conte a pôr em quarentena as crianças em idade escolar no Norte do país (muitas das quais acabavam de voltar de férias na China), o Presidente da República, Sergio Mattarella, o Ministro da Cultura, Dario Franceschini e o Ministro de Relações Exteriores, Luigi Di Maio, estavam mais interessados em patrocinar um concerto em Roma de homenagem à «amizade ítalo-chinesa». O Presidente da China, Xi Jinping, agradeceu calorosamente.

A China não está a ajudar-nos em nome da “solidariedade”. O regime chinês, que não dá o menor valor à vida do seu próprio povo, apenas quer aparecer no Ocidente como salvador do mundo. Escondida atrás das declarações de solidariedade, a China planeia comprar as nossas cambaleantes empresas e infra-estruturas. E não são apenas as empresas ocidentais que se ajoelham perante a China: a cultura ocidental tem-se também curvado perante a estratégia do Comité Central do PC chinês.

“O Ocidente é tolerante, passivo, complacente e ingénuo em relação a Pequim, sublinha Liao Yiwu, escritor chinês exilado em Berlim. Os factos dão-lhe razão. A embaixada da China na República Checa está a financiar um curso integrado de estudos académicos na Charles University, a mais prestigiada do país. Hoje, as universidades britânicas dependem em grande medida de estudantes chineses: estimativas conservadoras calculam que eles desembolsam anualmente 1,5 mil milhões de euros com despesas de ensino no Reino Unido. 

A Austrália é mais dependente ainda: o país recebe hoje 200 mil estudantes chineses; se eles voltassem para a China ou se as doações chinesas secassem, a Austrália perderia 4 mil milhões de dólares. Em 2013, a Universidade de Sydney cancelou uma palestra do Dalai Lama do Tibete no campus académico por pressão do ‘lobby’ chinês, para o qual temas como o Tibete ou a independência de Taiwan são tabu.

Os 1.500 departamentos do Confucius Institute que o regime chinês abriu em 140 países oferecem ensino de idiomas e «cursos culturais». No entanto, de acordo com Matt Schrader, especialista em assuntos da China na Alliance for Securing Democracy, esses institutos são meros «instrumentos de propaganda». Em Outubro passado, a Bélgica teve de expulsar o director do Confucius Institute em Bruxelas, Xinning Song, depois de os serviços de segurança o terem acusado de espionagem para Pequim.

Segundo um estudo da Bloomberg, a China também está a infiltrar-se no cenário político da Europa, apoiando partidos políticos e convidando políticos para visitarem a China. 

Num artigo publicado há dias no diário espanhol ‘El Pais’, Mario Vargas Llosa, laureado com o Prémio Nobel da Literatura, escreveu o seguinte sobre o coronavírus: “nada disto estaria a acontecer no mundo se a China fosse um país livre e democrático e não uma ditadura”. Vargas Llosa comparou ainda o surto epidémico ao desastre da Rússia em Chernobyl durante a era soviética. Ambas as ditaduras censuraram e silenciaram informações sobre as crises. Em resposta, o regime de Pequim não só chamou “irresponsável” a Vargas Llosa, como também baniu os seus livros das plataformas chinesas de e-books. Vargas Llosa exortou os «tolos» do Ocidente a não acreditarem na China e nessa estranha coexistência forçada de «livre mercado com ditadura política». E sublinhou: “o que aconteceu com o Coronavírus deveria abrir os olhos dos cegos”.

Os comunistas da China de hoje são mais capitalistas do que marxistas, pelo menos na esfera estatal. O presidente Xi adoptou o «leninismo de mercado», uma mistura da economia estatal com uma «forma aterradora de totalitarismo». 

O Ocidente precisa de acordar para as duas caras da China. ■