Belém em S – a fidelidade consonântica

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Crónica sobre eleições presidenciais, promessas destiladas e ressacas duradouras

No dia seguinte às eleições, o país acorda com a conhecida ressaca democrática: a cabeça pesada, os discursos ainda a ecoar e as promessas espalhadas pelo chão, como copos vazios depois de uma festa demasiado previsível. Votámos, celebrámos e regressámos a casa com aquela sensação desconfortável de quem já conhecia o guião, mas insistiu em assistir até ao fim.

Entre cafés fortes e análises apressadas, reaparece um padrão antigo, quase supersticioso. A democracia portuguesa parece ter um fascínio persistente pela letra S. Silva, Sampaio, Soares, Sousa… e agora Seguro. Não é ideologia nem acaso histórico — é uma fidelidade consonântica que atravessa décadas com uma consistência quase comovente.

Em Portugal, a Presidência não avança em linha recta: caminha em S. Um traçado sinuoso, fiel ao nome que a ocupa, onde cada desvio é apresentado como prudência e cada hesitação como equilíbrio institucional. O ziguezague é elevado a virtude e a instabilidade aprende a falar baixo.
Cada S chegou embalado em promessas de estabilidade, apelos à união e a convicção cuidadosamente ensaiada de que, desta vez, seria diferente. O eleitor ouviu, acreditou o suficiente e aprendeu, com o tempo, que a esperança também envelhece, sobretudo quando usada sem manutenção.

Este novo S apresenta-se com um nome tranquilizador, quase terapêutico. Seguro. Um presságio simpático para um país cansado de sobressaltos. Convém, porém, lembrar que o seguro morreu de velho — e que, com este Seguro, a morte pode ser lenta, burocrática e acompanhada de comunicados optimistas sobre um futuro risonho que nunca chega a horas.

O novo Presidente chega a Belém vindo directamente da viticultura, numa transição improvável do lagar para o Palácio. Iniciou esta aventura política com uns tímidos 4% das intenções de voto — números que mal davam para rotular a garrafa — e terminou com quase 70%, uma graduação que só conhecia bem, quando se dedicava à destilaria da sua aguardente. Setenta por cento nas urnas, setenta graus no alambique: em ambos os casos, convém beber com cautela. A diferença é que, na política, a embriaguez não passa e a ressaca tende a durar cinco anos.

No fim, o país divide-se. Há os que votam por ritual, como quem repete um gesto antigo já sem fé inteira, e há os que se demitem do voto por descrédito, cansados de promessas recicladas e entusiasmos de validade duvidosa. Uns persistem por teimosia cívica, outros afastam-se por lucidez cansada. Entre uns e outros, a democracia segue por inércia, mais sustentada pelo hábito do que pela convicção, à espera do próximo nome, da próxima letra, da próxima promessa garantida. Em Portugal muda-se o rótulo, raramente o conteúdo — e o seguro certifica o estrago, cobra o prémio e agradece a confiança.

Beijinhos d’O Diabo

Qualquer semelhança entre metáforas vínicas e a realidade política não é coincidência: é fermentação natural.

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Patricia Sousa
Patrícia Raposo Sousa é docente e mestre em Ensino, com formação pela Universidade do Minho e pelo Instituto de Estudos Europeus. Com experiência consolidada na área da educação, dedica-se à análise e reflexão crítica sobre temas educativos e sociais, atuando também como articulista. É casada e mãe de dois filhos.