Partidos adoram passar por queriduchos

À falta de futebol, disputa-se hoje em Portugal o torneio da Liga Nacional dos Bonzinhos. Jogando em bloco contra o vencedor do último campeonato, sete clubes tentam desesperadamente alcançar a taça da declaração mais populista do ano, desdobrando-se em exigências a favor dos frágeis, dos vulneráveis, dos esquecidos, dos desprezados, dos rotos, dos simples, dos nus, dos contaminados e dos por contaminar, dos bebés e dos idosos, dos altos e dos magros, dos gordos e dos baixos, dos empregados e dos patrões – num verdadeiro concurso para decidir qual deles é o mais queriducho para o respeitável público. Qual deles o mais olhos-embevecidos. Qual deles o de maior compaixão. O mais bonzinho. O mais bonzão.

O centrista Rui Rio exige ao Governo que os bancos portugueses não tenham lucros que se vejam em 2020 e 2021, para pagarem com língua de palmo por todas as maldades que fizeram aos pobrezinhos.

A leninista Catarina Martins exige ao Governo a requisição compulsiva de meios e equipamentos ao sector privado, enquanto o troskista Anacleto Louçã exige ao Governo que pague um subsídio de risco ao pessoal da frente de batalha.

O comunista Jerónimo Sousa exige ao Governo que proíba despedimentos, reabra camas e hospitais, decrete preços máximos e antecipe as transferências de dinheiro para as autarquias.

O conservador-liberal Chicão dos Santos exige ao Governo que atribua às pequenas e médias empresas cheques de emergência.

A animalista Inês Sousa Real exige ao Governo que proíba os incêndios e as pessoas que são más para os bichos. 

O liberal Cotrim de Figueiredo exige ao Governo a imediata isenção de IRS, IVA, IMI, IRC e TSU a fim de oxigenar o charco de águas paradas da economia nacional.

A feminista Katar Moreira exige ao Governo a reposição incondicional do direito de resistência às autoridades.

E só André Ventura remata em fora-de-jogo, e talvez mesmo fora de campeonato, ao exigir ao Governo a caridosa substituição da directora-geral da Saúde, Senhora Dona Graça Perliquitetes de Freitas. 

A prova de que todas estas “exigências” dos partidos ao Governo são causas sem consequência, meras bojardas ocas proferidas para que não digam que estão calados os sete figurões que as proferem, está na alegria com que António Costa lhes passa a mão pelo pêlo, murmurando com ternura: “o conjunto dos partidos tem sido exemplar na forma como tem sabido agir de uma forma solidária e unida”. E repisando, embevecido: “o consenso tem sido bastante generalizado”.

Partidos dóceis, amáveis e totalmente inofensivos, comendo à mão da alpista que Costa lhes estende, sob o olhar paterno e enlevado do papagaio.

Parece um filme da National Geographic feito na selva urbana. ■

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