A ignorância no poder político

HENRIQUE NETO
HENRIQUE NETO
Henrique José de Sousa Neto é um empresário e antigo deputado à Assembleia da República, eleito pelo Partido Socialista.

Tenho com frequência muitas dúvidas sobre a utilidade daquilo que escrevo, dado verificar que o que vai acontecendo na política e na economia portuguesas é, não poucas vezes, o contrário das soluções potencialmente úteis para o progresso e o desenvolvimento de Portugal. Diferentemente, quando releio o que escrevi há vinte ou trinta anos, verifico que previ o que depois aconteceu e que muitos dos erros que empobreceram o país poderiam ter sido facilmente evitados. Razão porque talvez valha a pena recordar alguns desses erros resumindo o que então escrevi. Poderá ter, espero, algum efeito pedagógico.

Cimpor

Portugal teve no sector do cimento uma das melhores e mais valiosas empresas nacionais, que foi praticamente destruída. Alguns parágrafos do que então publiquei sobre o assunto:

“A venda da Cimpor, a única verdadeira multinacional portuguesa, feita através de uma OPA da empresa brasileira Camargo Corrêa, não serve o interesse nacional e é contrária à letra e ao espírito com que foram feitas as privatizações através da Lei-quadro de 5 de Abril de 1990 e sem que tenham sido definidos pelo Governo quaisquer outros objectivos. Se isso não acontecer por decisão do Governo, ou por intervenção do Presidente da República, ou através das formas legais possíveis, nomeadamente judiciais e pela indignação expressa da generalidade dos portugueses”.

“As privatizações quando foram decididas tinham objectivos claros quanto ao futuro de um conjunto de empresas nacionais: reforçar a capacidade empresarial nacional; possibilitar uma ampla participação dos cidadãos portugueses na titularidade do capital das empresas; modernizar as unidades económicas e aumentar a sua competitividade; preservar os interesses patrimoniais do Estado. Ou seja, objectivos agora contrariados pela OPA em curso, sendo que o Governo não explicitou, entretanto, nenhuns outros objectivos alternativos, parecendo aceitar passivamente a OPA através da venda das acções na posse da Caixa Geral de Depósitos”.

“Acresce que esta posição do Governo não leva em conta as posições assumidas pelo Conselho de Administração da própria Cimpor, que apresentou alternativas tendentes a evitar o desmembramento da empresa e a total perda de um dos melhores e mais lucrativos grupos económicos nacionais, com enorme importância nas nossas exportações. O Relatório do Conselho de Administração concretizou as razões porque a OPA não deve ser autorizada”. 

Como sempre acontece em Portugal, nunca foi feita a avaliação dos prejuízos nacionais desta operação e os culpados nunca foram acusados, como deveriam ter sido, por gestão danosa.

Evoco este caso da Cimpor, como poderia evocar muitos outros casos em que os governos não só não defendem o interesse nacional, como demonstram uma estranha insensibilidade aos avisos feitos pelos portugueses mais conhecedores dos sectores em presença. Recordo o fecho da Bombardier, da Sorefame e de quase toda a indústria metalomecânica pesada, das fábricas da General Motors e da Ford, a venda de parte da Galp à italiana ENI contra a vontade dos accionistas portugueses. Escrevi também há anos sobre o sector financeiro português através de perguntas feitas ao então Primeiro-ministro. Aqui ficam alguns parágrafos:

Sector Financeiro

“Em todo o mundo é o sector financeiro que tem a responsabilidade de decidir sobre as empresas em crise, através da motivação que representa a recuperação dos créditos em perigo. E é normalmente o sector financeiro que faz a restruturação dos sectores, que cria as fusões ou a venda das empresas ou, quando tudo falha, que pede a falência”.

“Não acha o Senhor Primeiro-ministro que o facto de isto não acontecer entre nós, revela uma grande fragilidade do sistema financeiro, que é tanto mais grave quanto indicia uma falta de preparação para reaver créditos malparados, ou bens financiados por ‘leasing’, quando é o caso disso?”.

“Não será que esta incapacidade se irá reflectir, mais tarde ou mais cedo, na própria competitividade do sector financeiro?”.

Infelizmente, não me enganei e a crise do sector financeiro terminou atolada em créditos malparados, em que foi evidente a incapacidade dos bancos para recuperar as dívidas e evitar os enormes prejuízos que os portugueses estão a pagar. Agora fazem-se inquéritos na Assembleia da República que, obviamente, nada adiantam. Adiantaria, isso sim, que os governantes de então tivessem compreendido a questão contida nas perguntas que, como habitualmente, ficaram sem resposta.

Tenho algumas dezenas de textos como estes sobre erros e omissões dos governantes, mas não estou só. Conheço muitos outros portugueses, com a experiência e o conhecimento necessários, que avisaram os governos sobre muitos dos erros evidentes que estavam a cometer. Entre muitos, recordo Henrique Medina Carreira, Luís Mira Amaral, João Salgueiro, Luís Campos e Cunha. Cidadãos que não poucas vezes foram alcunhados de miserabilistas, pessimistas e de velhos do Restelo, perante a ignorância do poder.

A história repete-se hoje, os mesmos erros continuam, como a mesma autossuficiência ignorante dos governantes, os mesmos custos para os portugueses pagarem e o mesmo empobrecimento do País. Com a diferença de que hoje a generalidades dos meios de comunicação fecha as portas aos críticos melhor preparados e com mais conhecimento dos temas em debate. Recordo, como exemplo, a questão do hidrogénio, em que um secretário de Estado, ignorante entre os ignorantes, chamou ignorante a um professor universitário que é também um dos nossos melhores especialistas na matéria.

Recordo estes casos porque encontro cada vez mais pessoas de entre os nossos melhores especialistas a deixarem de dar publicamente a sua opinião. Seja porque os principais meios de comunicação fogem a publicar os seus textos para não desagradar ao Governo, seja porque, dizem, não vale a pena, a ignorância tomou conta do poder e recusa-se a ser confrontada. ■

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