A Lusofonia não precisa de ser salva, apenas de ser desadiada (II)

E

spremido o texto, porém, a grande questão que ressalta é, de novo, a questão do Acordo Ortográfico e da relutância portuguesa em segui-lo, o que merece do jornalista e escritor brasileiro a seguinte sentença: “está claro que o português não deseja se tornar uma língua sem centro, com 270 milhões de falantes e algumas variedades nacionais. Chega de perder tempo!”.

É verdade que no Brasil essa relutância portuguesa em seguir o Acordo Ortográfico não é de todo compreendida, como eu próprio já pude testemunhar. Em Maio de 2018 – há precisamente três anos –, coordenei, como Presidente do MIL (Movimento Internacional Lusófono), um debate sobre as “as visões da Lusofonia no Brasil”, integrado num Encontro Científico promovido pelo Instituto de Filosofia Luso-Brasileira na cidade brasileira de Mariana, em Minas Gerais. Pois bem: perante um público particularmente culto e qualificado, a grande questão que emergiu ao longo do demorado debate foi precisamente essa: por que razão em Portugal havia tanta relutância em seguir o Acordo Ortográfico? E se essa relutância não deveria ser interpretada como uma atitude anti-lusófona da parte de Portugal, desde logo em relação ao Brasil?

Esse sentimento é pois real, ainda que, como procurei então aduzir, a conclusão seja, também aqui, “manifestamente exagerada”. Sim, é verdade que há em Portugal uma manifesta relutância em seguir o Acordo Ortográfico. Mas não é de todo verdade que isso deva ser interpretado como uma atitude anti-lusófona da parte de Portugal, desde logo em relação ao Brasil. Como sempre defendi, a Lusofonia não depende de nenhum Acordo Ortográfico como condição necessária – por mais que este pudesse ser útil, em teoria, assim ele tivesse cumprido a sua promessa de uma real “uniformização ortográfica” (o que ficou muito longe de acontecer, como é sabido). E há em Portugal muitos exemplos de pessoas que, sendo contra o Acordo Ortográfico, não são por isso contra a Lusofonia. Bem pelo contrário.

Extravasando este “irritante diplomático”, há de facto muito a fazer, como refere Rui Tavares, a começar pela dinamização da própria CPLP, que nem sequer face à tragédia em curso no norte de Moçambique tem dado uma resposta à altura (ainda que aí as responsabilidades maiores estejam a montante). Quanto ao mais, as ideias que lança são em geral boas, ainda que nem todas originais. Apenas um exemplo – precisamente a propósito do artigo de Rui Tavares, António Braz Teixeira, Presidente do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira e ex-Vice-Presidente da RTP (entre muitos outros cargos relevantes que ocupou), recordou-me que, em 1987, ele próprio teve a iniciativa de promover uma TV Cultura da CPLP, tendo sido até fundada, em 1991, em Cabo Verde, a Organização das Televisões de Língua Portuguesa, com Estatutos aprovados e Órgãos eleitos. Trinta anos depois, o projecto está ainda por concretizar. Caso para dizer: a Lusofonia não precisa de ser salva – apenas de ser desadiada… ■

Agenda MIL – 19 de Junho, 17h, na Sociedade União Sintrense: Apresentação da NOVA ÁGUIA nº 27.

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