Fruto de alguma monotonia conjugal e pouco dado à monogamia, usou o macaco de todos os argumentos junto do leão, para que aquele, enquanto Rei da Selva, desse uma abébia aos súbditos. O leão, consciencioso, sempre recusou tal disparate, fosse pela repulsa anti natura da proposta, fosse pelo perigo que representava a excepção, fosse, sobretudo, pelas consequências dos cruzamentos cujo desfecho não podia prever. Ainda assim o macaco nunca se deu por vencido e, a cada oportunidade, sussurrava ao leão:
– Majestade, estamos em tempo de paz e de manifesta acalmia aqui na selva. Vivemos na abundância, graças à Vossa governação. Em prosperidade, devido à Vossa argúcia e visão. Em harmonia, fruto da Vossa complacência. Em segurança, em virtude da Vossa força. Sempre Vos agradecemos e O reconhecemos como o nosso Senhor, rei destas terras e daqueles que nelas habitam, sendo impossível respeitar-vos mais e pretender mais nobre amo. Contudo, pergunto-Vos, Majestade, se um verdadeiro Rei não deve conceder aos seus servos momentos de felicidade e regozijo. Se uma governança forte não implicará aparentes cedências, a Vosso prazer, como demonstração da Vossa magnanimidade? Se mais do que seres temido, não pretendeis ser amado?
O leão reflectiu por uns momentos. De voz pausada, prolongando os ditongos, retorquiu:
– Ser amado, macaco?
– Sim, meu senhor. Ser amado como um pai e venerado como só os deuses podem ser…
O leão recolheu-se, pensativo. Venerado como um deus. A imagem acolhia em si um conforto de alma que não conhecia até então, numa espiral de prazer, de desejo e no vislumbre da imortalidade. Assim, acedeu às pretensões do macaco e ordenou que, naquela noite, na selva, todos os animais pudessem copular uns com os outros. E assim foi, durante toda a noite e madrugada, numa orgia infernal que só terminou quando espreitou a aurora. Todos os animais da selva estavam contentes, excepto o macaco. Ao passar pelo leão, exaurido e como se um trapo parecesse, aquele questionou-o:
– Que se passa macaco, que pareces mais morto que vivo? Vejo-te triste e mal te aguentas em pé… Não foi aprazível a tua noite?
O macaco, ganhando forças para responder, lá foi explicando:
– Majestade, escolhi a girafa, aquele animal gracioso, de patas delgadas e pescoço comprido que encima lábios fartos e pronunciados. Sucede, porém, que a criatura a pedir que a beijasse na boca e lhe apalpasse as mamas, a beijasse na boca e lhe apalpasse as mamas, a beijasse na boca e lhe apalpasse as mamas…
Não constando que Dalai Lama tenha pedido semelhante alternância à criança a quem ofereceu a língua para que fosse beijada, sobrevem-nos a repulsa ao poder dos líderes, sejam eles políticos ou espirituais, aos seus excessos, disparates e impunidade.
Há sete anos, Costa deliciou-se numa orgia, que mais parecia um quarto escuro, desconhecendo-se os cruzamentos que por lá se passavam. Cansado e, eventualmente, dorido, pôs cobro à mesma, sem pré-aviso. Mas, quer ele quer os seus discípulos, foram-se deleitando noutras práticas de alcova, alternando práticas e parceiros. Num regabofe do qual o chefe parece já não ter mão, a grande festa da selva vai sendo substituída por confraternizações amiúde, umas mais privadas, outras nem tanto, num deboche que se arrasta há meses.
Ainda recentemente, Medina e Galamba dedicaram-se ao “swing”, trocando as mulheres entre ministérios, sem a publicidade que se impunha, para não causar incómodos desnecessários e comentários temerários.
Marcelo viu-se envolto num “ménage à trois”, que teima em negar, com o homem de mão do ex-ministro Pedro Nuno e uma francesa de nome impronunciável, remetendo os créditos para uma insuspeita agência de viagens. E nesta dança sado-maso pretende que todos tapemos os olhos e aceitemos ser chicoteados, com leves chibatadas de inteligência saloia, como se fosse sequer possível questionar que a agência dispusesse da agenda e vontade do Presidente e, tão afoita, fosse a ligar para o “Chairman” da TAP à revelia do seu gabinete…
Já a dita francesa, passou igualmente pelas mãos de Galamba, que a ofereceu, em bandeja de prata, a Carlos Pereira, para com ela se deliciar numa Comissão de Inquérito, justificando a oferenda como normalidade e mantendo a sua presença, sem que isto cause estranheza aos restantes comensais.
Entende Marcelo que este nepotismo de alcova, aliado a todos os outros casos e casinhos que Costa vem a coleccionar, não cura reflexão aprofundada. Que o estado a que chegou o país, a incapacidade governativa, a incompetência dos dirigentes, a impunidade dos responsáveis, a soberba do discurso e a miséria de carácter, justificam a sua compreensão e comprazimento. Não porque a mereçam, mas apenas porque não gosta da alternativa que deveria estar reservada aos eleitores, demonstrando que pouco ou nada percebe da Constituição e do papel que lhe está reservado enquanto garante da democracia e da estabilidade e não como juiz que visa um resultado pré-determinado, condicionando umas eleições que se impõem, como se de um concurso de beleza ou de simpatia se tratassem.
E já que, diariamente, nos lixam, sem apelo nem agravo, pelo menos que me beijem na boca… ■




