Rock in Rio

João Pena Leve, Procurador da Estimada República, já tinha o rabo quadrado do assentamento na sua agastada cadeira, desequilibrada pela força do tempo e da falta de verbas, lia uma carta da sua prima emigrada em França em que lhe contava as novas e o informava que viria de vésperas a casa da família. Entediado com a leitura e incomodado com a caligrafia trémula e pontuada com erros de português, lá pousou o olhar no expediente, que folheou a custo, até encontrar uma denúncia anónima que o deixou cativo. Constava da mesma que um partido do outro espectro político fazia umas jigajogas estranhas nas suas contas e em que os financiamentos atribuídos para umas coisas, afinal serviam para pagar outras. Pena Leve percebia tanto de financiamentos partidários como de física quântica, mas, ainda assim, não conseguiu esconder o entusiasmo. As motivações pessoais e económicas dos denunciantes eram-lhe desconhecidas, mas não lhe pareceram importantes, como também não relevou o facto de se tratar de prática comum a todos os partidos. Queria sangue e iria tê-lo a qualquer custo, faltando apenas saber como e quando. Entusiasta, mas neófito nestas andanças lá buscou conselhos nos seus próximos, que, veteranos nesta roda, logo perceberam que era material de arquivo para uso de conveniência.

Quase três anos mais tarde lá recebeu o esperado telefonema a informá-lo que chegara a altura de desenterrar o ficheiro. Empeitado, tratou dos mandados e coordenou as forças no terreno para que a coisa tivesse o aparato e a dignidade que lhe emprestara em sonhos. Cem agentes em campo, buscas em vários locais, apreensões de documentos e de telemóveis e os convenientes directos televisivos ao arrepio da privacidade dos visados e do segredo de justiça que, afinal, só serve para alguns… No fim do dia, encostou a cabeça no travesseiro e dormiu o sono dos justos…

Fernando Ribeiro gozava agora uma espécie de reforma. Depois de anos de dedicação partidária, encontrava-se afastado das lides e tricas e gozava um merecido descanso. Tinha acabado de estacionar o seu “Simca 1000” na garagem e entrado em casa, quando se apercebeu de um burburinho na rua. Atendendo a que a vizinhança é do mais calmo que se pode esperar, cedeu à curiosidade e espreitou pela varanda, com a barba que não conhecia lâmina há várias semanas. O passeio estava pejado de repórteres e de jornalistas de microfone na mão e de câmara ao ombro, tudo apontado para si. Tocou a campainha e, avisado que se tratava da polícia, lá tratou de abrir. Foi-lhe exibido um mandado, assinado pelo Procurador Pena Leve, que assentava a legalidade das buscas e ordenava a entrega imediata do telemóvel pessoal. Fixou-se no imediato, que nem lhe dava sequer tempo para apagar o perfil do “Tinder”, mas lei é lei e a sua formação germânica torna o seu cumprimento quase mecânico. Fernando viria a tentar explicar o disparate, mas ninguém o quis ouvir. Os desígnios da voz de comando do outro lado da linha do telefone de Pena Leve estavam cumpridos e Ribeiro apenas serviu o corpo que era necessário colocar na cruz que há muito havia saído das mãos do marceneiro…

A justiça ao sabor dos interesses pessoais e mesquinhos de uns poucos, por pura vingança e oportuno maniqueísmo de quem sabe que a impunidade é um quase apelido.

Um processo que resulta de uma denúncia anónima de quem lhe viu serem retirados privilégios.

Um inquérito que fica três anos numa gaveta a aguardar o “timing” certo para efectuar algumas diligências.

Uma prática que é transversal a todos os partidos e que não se subsume a qualquer ilícito criminal, já que as subvenções e os financiamentos são partidários e as contas do grupo parlamentar se encontram consolidadas no partido, ou seja, a ausência de prejuízo, de utilização indevida ou de qualquer benefício.

A mobilização de uma centena de agentes

As buscas em casa de um ex-líder partidário, para recolha de informação que se podia solicitar ao Secretariado Nacional do partido.

A conveniente fuga de informação que antecipa directos televisivos antes dessas buscas serem efectuadas, em manifesta violação do segredo de justiça.

A apreensão de um telemóvel pessoal (ressalvo o pessoal) sem que se perceba para que fins e com que propósito.

A cópia de diversas bases de dados e instrumentos de trabalho político partidário, ambos confidenciais, e que podem prejudicar o funcionamento do mesmo.

A justiça instrumentalizada à pala de um crime que não existe.

E todo um país a conviver sadia e alegremente com toda esta podridão…

O título foi só para disfarçar… Não se trata de rock, antes o ensaio de um requiem…

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