Sondagens “low cost”, factor de desinformação
Comentadores e jornalistas, deliberadamente ou por ignorância, têm apresentado os resultados de sondagens “low cost” como sendo cientificamente rigorosos – e muitos dos votantes que no domingo irão às urnas estarão já condicionados por tais sondagens. Mas que valor pode ter um estudo de opinião baseado em 800 entrevistados, metade dos quais, em média, nem responde?
Nestas últimas semanas têm-se multiplicado as sondagens, algumas delas feitas por entidades sem qualquer credibilidade técnica (nem estão inscritas na Comissão Nacional de Eleições). A falta de credibilidade científica e técnica dessas sondagens “low cost” é evidente para quem as analise com cuidado, como vamos provar neste estudo.
Infelizmente, nesta campanha de desinformação, a maioria dos comentadores que dominam os “media” e muitos jornalistas participam nesse engano pois ignoram, ocultando mesmo, as limitações e deficiências dessas sondagens, cujos resultados utilizam como fossem verdadeiros e rigorosos. E isto com o objectivo de condicionar o voto dos portugueses, procurando desmobilizá-los ou incentivá-los a votar naqueles que dizem que serão os “vencedores”.
Ignoram ou não divulgam a “ficha técnica”, onde consta o baixo número de inquiridos e a baixa taxa de respostas dessas sondagens; e se as divulgam colocam numa letra miúda (e na TV durante poucos segundos) para que ninguém as possa ler. O fracasso das sondagens em eleições anteriores devia levar comentadores e jornalistas a terem mais cuidado nas suas afirmações, mas, infelizmente, a ética e a responsabilidade estão cada vez mais ausentes.
As sondagens eleitorais são feitas com base num inquérito habitualmente a um número diminuto de portugueses que têm telefone ou “internet” (os que não têm são logo excluídos), sendo essa amostra constituída em média por 800 inquiridos ou mesmo menos. E isto porque são de “low cost” e rápidas.
Com base nas respostas deste número diminuto de eventuais eleitores (dos quais, em média, só metade da amostra de 800 responde) extrapola-se para todos os eleitores – 10 milhões – como se estes milhões eleitores fossem, por milagre, votar da mesma forma como os que responderam à pequena amostra seleccionada pelas empresas de sondagem.
Para que o leitor possa avaliar a consistência (ou a falta dela) científica das sondagens cujos resultados são utilizados pela comunicação social como fossem rigorosos, manipulando, assim, a opinião pública, interessa comparar a dimensão das amostras (número de inquiridos) que estas empresas utilizam com as amostras dos inquéritos feitos pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) que têm credibilidade técnica e científica elevada.
Para isso vamos utilizar o inquérito feito trimestralmente pelo INE ao emprego/desemprego. Ele é também realizado com base num inquérito, mas utilizando uma amostra com uma dimensão totalmente diferente. Actualmente a amostra tem a dimensão de 30.096 inquiridos, e não tem parado de crescer para aumentar a precisão, e é refrescada trimestralmente com a saída e entrada de vários milhares de inquiridos.
Mais de 30 mil no INE e apenas 800 nos inquéritos das sondagens eleitorais. É uma diferença abissal, com consequências dramáticas na consistência científica dos resultados obtidos, como é evidente. E, mesmo assim, o INE tem muito cuidado na divulgação dos resultados obtidos, como consta na página 24 do Documento Metodológico de INE de 2021, precauções que não existem na divulgação dos resultados das sondagens eleitorais.
Só se o número de respostas válidas for igual ou superior a 11.100 é que o resultado é divulgado sem restrições e o INE considera que tem validade científica. Se o número de respostas válidas for inferior a 11.100 e superior a 4.300, a estimativa é divulgada, mas com a indicação de que tem menor precisão. Se o número de respostas válidas é inferior a 4.300, os resultados não são divulgados, porque o INE considera que não têm credibilidade técnica e científica, portanto são enganadores.
Compare-se com as sondagens eleitorais que estão a ser divulgadas, em que a dimensão habitual da amostra é, em média, de apenas 803 inquiridos, e com uma taxa de resposta muito variável que reduz ainda mais a precisão e a consistência dos resultados, que depois são apresentados como certezas nos “media”, numa clara e evidente manipulação da opinião pública. Infelizmente, jornalistas e comentadores prestam-se a isso, não alertando os leitores e ouvintes para as limitações dos resultados.
As fichas técnicas dessas sondagens, à semelhança dos contratos de seguros, são apresentadas (quando o são) em letra muito pequena (e na TV de uma forma muito rápida), o que dificulta qualquer leitura e análise. Parece até propositado.
Compare-se a dimensão da amostra utilizada por estas empresas de sondagem (em média, 800 entrevistas), com a dimensão da amostra utilizada pelo INE (30.096 entrevistas) e recorde-se os cuidados a ter na sua divulgação, segundo o INE, referidos anteriormente. Uma amostra com esta dimensão de 800 não tem qualquer precisão, segundo o INE, que é um organismo oficial. Ele recusar-se-ia a publicar os seus resultados por falta de credibilidade.
Mas ainda existe um outro aspecto que enviesa a amostra que as empresas de sondagem utilizam e que reduz ainda mais a precisão dos resultados. Esse aspecto é a elevada percentagem dos que se recusam a responder (entre 23,4% e 74,7%). E isto distorce ainda mais os resultados, reduzindo muito mais a sua precisão, porque aqueles que se recusaram podem, na sua maioria, pertencer a um ou vários partidos, o que determina que aqueles que respondem e que pertencem aos outros partidos, acabando por empolar os resultados atribuídos a estes partidos, dando resultados que, depois, são utilizados pelos “media” como verdadeiros e totais, condicionando a população, mas que não correspondem à realidade eleitoral do país.
O absurdo atinge o limite impensável quando estas empresas de sondagem repartem os indecisos de acordo com as percentagens obtidas desta forma por cada um dos partidos e calculam desta forma os deputados que seriam eleitos. E, depois, apresentam tudo isto, calculado desta forma, como se fosse o pensar e sentir de todos os portugueses. É desta forma que se procura agora condicionar o voto através de comentadores e jornalistas que matraqueiam até ao infinito os resultados que nada têm a ver com o saber científico.
O fracasso repetido das sondagens “low cost” anteriores é ignorado para facilitar a manipulação. Não faltam exemplos que mostram o falhanço das sondagens eleitorais que têm enxameado os períodos anteriores a todas eleições com o objectivo de condicionar a votação. Mas, depois, os resultados finais das eleições revelam diferença grande entre o verificado e o previsto por estas sondagens pagas.
Quem, ingenuamente, acreditou nas sondagens certamente sentiu-se enganado. Muitos ainda se recordam da intensa campanha desenvolvida nos “media”, segundo a qual Rui Rio iria ganhar as eleições. E o resultado foi que Costa ganhou as eleições com maioria absoluta. O mesmo com Fernando Medina/Carlos Moedas: a vitória de Medina era quase certa para muitos. Se se derem ao trabalho de estudar o passado, concluirão que os fracassos das sondagens são numerosos. ■




