A sobrevivência da razão

HENRIQUE NETO
HENRIQUE NETO
Henrique José de Sousa Neto é um empresário e antigo deputado à Assembleia da República, eleito pelo Partido Socialista.

Neste momento, se fosse crente, pediria a Deus que preservasse a vida do Papa Francisco mais algum tempo e desse alento e coragem a Volodymyr Zelensky para continuar a defender a sobrevivência da Ucrânia e resistir às pressões da guerra e da surreal combinação de poderes de Putin e Donald Trump.
O Papa Francisco tem sido, durante os anos da sua missão no Vaticano, uma luz brilhante que se mantém permanentemente acesa num planeta em convulsão e dilacerado por forças contrárias e pela irracionalidade diabólica de homens desprovidos da divina misericórdia. A missão de extraordinária grandeza de Francisco foi ter ultrapassado as fronteiras do divino para ganhar para as suas causas a inteligência de todos os homens de boa vontade. O seu desaparecimento, neste exacto momento em que as forças do mal tomam a dianteira nos negócios dos homens, pode ter um custo difícil de suportar.
Quanto a Volodymyr Zelensky ele merece como ninguém o milagre da salvação divina no inferno que vive na terra, esmagado e dividido pela angústia das mortes diárias dos homens e das mulheres do seu país e a responsabilidade do seu juramento de defender e preservar o país que é de todos e não apenas o seu. Zelensky não precisa de morrer para experimentar as chamas do inferno que já conhece na Terra.
Como democrata nunca acreditei em homens providenciais, mas lá que os há, há. Na minha juventude elegi para meu uso pessoal Winston Churchill, como o homem providencial e sempre pensei que ele seria apenas a excepção que confirma a regra. Todavia perante estes dois exemplos de que escrevo hoje, tenho de rever a minha convicção e esperar que outros possam aparecer no futuro, já que os homens como todos nós parece não serem a resposta suficiente para enfrentar a aceleração dos tremendos desafios do nosso tempo.
Li há muitos anos “O Discurso do Método” e pensei que a razão pura era a forma de gerir as organizações e governar os povos. Depois li o nosso Damásio e compreendi a importância dos sentimentos e das emoções, que aceitei como uma adição importante ao meu pensamento. Todavia, hoje, perante a irracionalidade dominante e confrontado com as emoções e desejos sem controlo de alguns transviados da razão e crente das escolhas contidas no processo democrático, só me resta voltar às origens da dúvida metódica.
Há muito que regiões do planeta são mal governadas, seja por força de religiões, das ideologias, da sofreguidão dos interesses individuais e colectivos, seja pela ignorância dos povos. Mas no nosso tempo, porventura pela aceleração da mudança, estamos confrontados com tudo isso a cair-nos em cima ao mesmo tempo, sendo que os novos meios de comunicação parecem ser parte do problema e não da solução.

 

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