Há decisões que, à primeira vista, parecem duras, insensíveis e quase incompreensíveis. O encerramento de algumas unidades de neonatologia é uma delas. Num país onde cada nascimento carrega esperança, futuro e continuidade, falar em fechar portas onde a vida começa pode soar a contrassenso. Mas nem sempre mais significa melhor — e é precisamente aqui que a reflexão se impõe.
A neonatologia é uma das áreas mais exigentes da medicina. Não basta existir um espaço físico com incubadoras: é necessário um ecossistema altamente especializado, com equipas treinadas, tecnologia de ponta e capacidade de resposta imediata a situações críticas. Um recém-nascido prematuro ou em risco não pode esperar por recursos que não existem nem depender de estruturas subdimensionadas. Nestes casos, a diferença entre a vida e a morte mede-se em minutos — e em qualidade de cuidados.
Manter muitas unidades abertas, mas sem condições adequadas, pode criar uma falsa sensação de segurança. A dispersão de recursos humanos — médicos neonatologistas, enfermeiros especializados — fragiliza o sistema. Equipas reduzidas, horários sobrecarregados e falta de experiência acumulada diminuem a capacidade de resposta. Pelo contrário, a concentração em unidades de excelência permite equipas mais robustas, com maior prática clínica, melhor articulação e acesso a equipamentos modernos.
Em Portugal, algumas reestruturações recentes ilustram esta lógica. O reforço de unidades em hospitais como o Hospital de Santa Maria ou o Hospital de São João demonstra a aposta em centros altamente diferenciados, capazes de responder aos casos mais complexos. Ao mesmo tempo, o encerramento ou suspensão de unidades com menor capacidade tem sido alvo de debate público, mas também de uma tentativa de reorganização mais racional dos cuidados.
Não se trata apenas de uma questão clínica — há também uma dimensão económica inevitável. Os recursos do sistema de saúde são finitos. Investir em múltiplas unidades subequipadas pode significar desperdiçar verbas que poderiam garantir excelência em menos locais. A gestão eficiente implica escolhas difíceis: concentrar investimento onde ele produz melhores resultados, evitando redundâncias e estruturas que não conseguem cumprir plenamente a sua missão, ou que não justificam permanecerem em funcionamento pelo número reduzido de serviços específicos que prestam.
Naturalmente, esta reorganização deve ser acompanhada de uma rede eficaz de transporte neonatal e de apoio às famílias, para que a distância não se transforme em obstáculo. A centralização só faz sentido se for acompanhada de acessibilidade e humanização.
No fundo, a questão não é quantas unidades existem, mas que qualidade oferecem. Porque quando falamos de recém-nascidos — especialmente os mais frágeis — não há margem para compromissos. As parturientes e os bebés não precisam de proximidade ilusória; precisam de segurança real, de competência e de excelência.
E isso, por vezes, exige coragem para fechar portas, para garantir que outras, mais preparadas, permaneçam abertas e altamente funcionais.







