À cata da lucidez ou de uma boa metáfora

 Luísa Venturini

Para falar da vida, talvez precise do escudo das metáforas. Como quando digo, entre gargalhadas cúmplices, que ando em busca da lucidez perdida, ainda que a sua luz metálica não cesse de me mirabolantear o horizonte que os outros contam. E fico em pasmo (quando não mesmo em espasmos) ante a miríade de metáforas que se acotovelam entre a seminal platónica e a proto-escatológica orwelliana. Bahhh!…

No impulso da fixação da imagem, talvez aprenda a nadar entre uma e outra, de facto recuperando uma lucidez que talvez já tenha sido, seja, minha (nas minhas paisagens do meu outro mundo, sei que foi, que é).

A verdade é que a cato, no meio da atoarda, como talvez um esquilo cate avelãs, com a mesma ânsia messiânica pelo resgate de outras fomes. Mas perduro no caminho, ao contrário do esquilo, porque ainda não sei se quero a luminescência desse outro, novo, patamar. Atardo-me, talvez inexplicavelmente, quiçá por senti-lo tão próximo e, estranhamente, tão promissor quanto temível. Porque só quando ela, a lucidez, se impuser para lá da metáfora, eu saberei de uma temeridade que, sendo minha, não escolheria. Não por causa dela, mas – obviamente – por causa de tudo o que, sem véus, me irá revelar (e que eu pre-sinto, pre-sei).

Falar da vida sem escudos implica ciência e coração férreo de timoneiro que faz, na alma, tábua rasa das marés e dos mostrengos. E o passo hesita entre o Cabo das Tormentas e o outro da Boa Esperança, ele próprio entalado que nem Egas entre Tanatos e Eros, entre Exaltação e Submissão, entre susto e maravilhamento. No fundo, ou mesmo à superfície, entre aqueles estranhos patamares que separam o real do Real.

Para falar da vida, talvez precise de metáforas – de campos de papoilas e de abismos, de lâminas e de rouxinóis, das lágrimas que há nas coisas e do Cântico dos Cânticos. Talvez.

Curiosamente, nos bastidores de tudo isto, apercebo-me que nem sequer me apetece falar dela, ocupada que ando abraçada a ela, entrançada nela, enleada com ela e a, muito naturalmente, vivê-la.

Ah! E realmente, não me revejo no esquilo. Pois…!

Moral do dia: nem toda a metáfora é boa.

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