A Espanha ganhou o Mundial de futebol feminino. Fê-lo pela primeira vez na sua história. Na emoção dos festejos e entrega de medalhas, Luís Rubiales, presidente da Real Federação Espanhola de Futebol, foi abraçando e parabenizando as atletas e, chagada a vez de Jennifer Hermoso Fuentes, atacante do Pachuca do México e da selecção, deu-lhe um beijo na boca e uma palmada no rabiote. Jenni saiu, aparentemente contente do palanque e não fez qualquer comentário ao sucedido. Quando a imprensa a confrontou com o sucedido, pretendendo uma não-notícia, um abuso de poder e uma cavalgada sobre o não consentimento, Jenni esclareceu que o beijo tinha sido consentido. Não satisfeitos com as explicações da própria, sucederam-se os movimentos de pretenso apoio à “vítima” que acabou por dar o dito por não dito e, afinal, garantir que não tinha consentido. Jenni tem 33 anos, já não é uma miúda que vive de receios ou humores, bem compreendendo a gravidade do sucedido e as repercussões das suas declarações para que as possa mudar ao saber dos ventos, das pressões ou dos interesses de terceiros. Ficam no ar diversas questões que, ao que parece, poucos querem ver esclarecidas:
– Porquê aquele comportamento/excesso de Rubiales perante Hermoso e não perante qualquer uma das outras jogadoras?
– Porque é que se fala apenas do beijo e não da palmada no rabiote? Esta é prerrogativa dos presidentes das Federações?
– Porque é que Hermoso veio, passados dias, mudar a versão dos factos, desdizendo o que dissera quando questionada pela primeira vez?
– Porque é que, tendo já sucedido situações idênticas no mundo da música e do cinema nenhum movimento se insurgiu quanto aos consentimentos, exigindo a purga dos mesmos?
– Que interesses estarão por detrás deste assunto, desde a cavalgada política dos movimentos de esquerda, aos próprios interesses dentro da Federação para a sucessão de Rubiales?
– E, sobretudo, qual a necessidade de continuar a alimentar uma fogueira pública quando se trata de uma questão meramente privada e, tanto quanto se sabe, Hermoso não formalizou qualquer queixa.
Rubiales veio a terreiro (tentar) explicar o sucedido e, batendo no palanque, garantiu, reiteradamente, que não se demitia. A plateia, entre os quais diversas mulheres, aplaudiu de pé, numa manifestação vergonhosa de carneirismo e efeito contágio. Basta que uma besta se levante e bata palmas efusivamente, para que tantos outros acéfalos a imitem. Muitas das presentes vieram, posteriormente, justificar a sua presença na Assembleia Geral por a tal terem sido obrigadas. Falsa e fraca desculpa e, ainda que tal fosse verdade, seguramente que ninguém as obrigou a aplaudir. Custa olhar para o próprio umbigo e tomar as decisões que se impõem e que pedem para os outros.
Não pretendo, porém, branquear o comportamento de Rubiales que deverá responder nas instâncias próprias, caso não tenha havido consentimento. Coisa diversa é a sua manutenção no cargo. Independentemente da culpa que lhe assista, não tem, manifestamente, condições para se manter à frente do órgão federativo. Deveria, como todos aqueles que são eleitos, perceber quando é que determinadas questões, independentemente das responsabilidades pessoais, são prejudiciais aos órgãos que representam e à dignidade que os mesmos deveriam ostentar. O recado não é só para Rubiales. Pode ser aplicado, na mesma medida e pelos mesmos motivos, a João Galamba, a Gomes Cravinho, Manuel Pizarro, João Costa, Maria do Céu Antunes ou Marina Gonçalves. É penoso não reconhecerem a sua incompetência e terem que aguardar por despacho superior para abandonarem os cargos. Tal como Rubiales…
Não de beijos, mas de abraços, também há aqueles que mais parecem abraços de urso. Marques Mendes cobrou esta semana a factura da ida ao Pontal, pondo-se em bicos de pés para uma candidatura a Belém daqui por três anos, uma semana depois de Santana ter aberto as hostilidades. Um e outro, aproveitando os espaços televisivos sem contraditório e confiando na notoriedade e popularidade que os mesmos trazem, repetindo a fórmula Marcelo, pretendem marcar posição e condicionar as escolhas do PSD, começando a mover tropas e as hostes internas. Faltam ainda Durão e, num espectro ainda mais alargado à direita, Paulo Portas. Isto sem esquecer o (in)conveniente silêncio de Passos Coelho que será, à partida, o candidato mais bem posicionado nesta ala. O Partido Socialista experimentou esta fórmula (dos anúncios pessoais e antecipados) no passado, bem como o próprio PSD, quando Menezes se candidatou à Câmara Municipal do Porto. Em ambos os casos, com resultados desastrosos. O país vale mais do que os egos individuais, embora alguns personagens assim não o creiam.
Não há almoços grátis e, ao que parece, nem presenças em eventos que não comportem uma factura elevada!
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Na semana passada escrevi sobre a reportagem da “Sábado” às despesas de representação na Câmara Municipal de Oeiras. Ainda que com (muito) pouca informação, critiquei a peça porque a considerei tendenciosa, populista e persecutória. Respondeu-me a autarquia, prontificando-se a esclarecer diversas situações, em “e-mails” remetidos ao jornalista da “Sábado” que optou por não considerar os mesmos por ter “pouco espaço para os nossos (da CMO) esclarecimentos”.
Impõe-se, desde logo, referir que não conheço Isaltino Morais ou qualquer elemento do seu executivo, nem sou eleitor em Oeiras, pelo que o meu interesse nesta nota obedece apenas a imperativos de consciência e ao consagrar de um dos, em minha opinião, direitos basilares dos cidadãos visados e pináculos do jornalismo sério: o direito ao contraditório. Pena que o jornalista da “Sábado”, Marco Alves, não partilhe dos mesmos princípios. Assim, no seguimento da peça da semana passada, e em função dos esclarecimentos prestados, por considerar pertinente, transcrevo a resposta da CMO que a “Sábado” optou por não publicar:
“O Fundo de Maneio é aprovado todos os anos em Reunião de Câmara, tendo sido aprovado por unanimidade desde 2017. Apesar de o montante aprovado durante o período referente às questões colocadas (desde o final de 2017 até ao final de Junho de 2023) ter sido, no total, de 169.230,00 €,
apenas foi utilizado o montante de 136.763,26 € durante o mesmo período. As faturas apresentadas passam por um controlo contabilístico, mas também de legalidade, com repúdio a qualquer situação que contrarie as normas vigentes. A questão está profusamente explicada a seguir. Acrescento que, caso tivesse conhecimento que alguém da minha equipa tivesse uma prática dessa natureza, essa pessoa já não trabalharia comigo e seria instaurado o devido processo.
A utilização do Fundo de Maneio para refeições destina-se a situações específicas, tais como: visitas de trabalho com dirigentes e técnicos da Câmara, para otimizar o tempo e para que seja possível retomar com alguma brevidade a visita; quando uma reunião se prolonga pela hora do almoço ou jantar, por forma a poder dar seguimento ao trabalho; ou ainda quando se tem convidados institucionais, nacionais e internacionais.
Durante a pandemia, os almoços de trabalho nas instalações da Câmara foram uma solução utilizada com frequência, para permitir uma dinâmica ágil e segura de trabalho, tendo a maioria das refeições sido encomendadas em regime de ‘take away’ à restauração local, sendo que os pratos encomendados, por vezes, eram de restaurantes diferentes.
A média de refeições, desde o final de 2017 até ao final de Junho de 2023, é de uma refeição por semana (a cada cinco ou oito dias). A média de pessoas por refeição é de quatro pessoas e o montante médio de cada refeição por pessoa ronda os 24 euros, sendo que as situações que fogem a esta regra se trataram de recepção a convidados institucionais ou serviços de ‘catering’ (que incluíram não só a refeição, mas o serviço, bem como aluguer de mesas e cadeiras, entre outros)”. ■
Beijos que matam




