Como ganhar eleições

Claudio Fonseca
Claudio Fonseca
Consultor político e podcaster no Podcast Conversa

Como ganhar eleições: ser um rolo compressor

Última parte da trilogia de Cláudio Fonseca sobre as eleições, baseada na sua experiência como organizador de campanhas políticas: depois de “como ganhar um debate na TV” e “como criar uma boa campanha eleitoral”, eis algumas dicas sobre como garantir uma vitória nas urnas.

Os debates televisivos acabaram. Os últimos debates tiveram a moderação de Carlos Daniel, o único moderador que consigo respeitar, alguém que procura moderar, não com punho fechado, mas pela simpatia.
Estamos presentemente a uma semana de sabermos quem ganhou estas eleições de 10 de Março 2024, por isso este artigo em nada pode entrar em confronto com a CNE, mas também não safa a fraca estratégia da suposta agência de comunicação ou o fraco do suposto consultor político. Mas fica aqui este último artigo deste meu ‘santo tríptico’, onde procurei ensinar e revelar-vos o pano da cortina política que é uma eleição, para que possam um dia aplicar e, quem sabe, ganharem até ao Rato Mickey!
Na noite de 10 de Março e na madrugada de 11 de Março vamos ver o desfile de comentadores que se sentam para dizer algo sobre o resultado das eleições. Todos vão comentar. Nenhum teve um papel activo na campanha, mas todos irão dizer que já sabiam que esta eleição iria acabar assim, apesar de nada saberem e esgrimem umas banalidades. São os especialistas nos prognósticos depois do jogo.
As estratégias aconteceram, agora resta sabermos se as mesmas convenceram os portugueses. Atenção a este verbo: convencer. Em política, o correcto/certo nem sempre vence, mas sim aquilo que nos parece certo, pois em política há uma variável que é difícil de controlar, que é a percepção. E é justamente a percepção que faz com que muitas pessoas a meio do mandato de alguém digam que se sentem traídas. O mais provável é a campanha ter dado a parecer que aquele candidato tem o perfil certo para o cargo.
Nos artigos anteriores mostrei como podemos fazer isso durante uma campanha ou um debate televisivo.

Mas agora vamos aprofundar: como ganhamos as eleições?

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Contar uma história. Que história queremos contar ao país? Qual o papel do eleitor nesta história? Acreditem ou não, temos muito a aprender com as histórias de super-heróis. A história é de uma pessoa comum que descobre a política, mas que recusa entrar nesse mundo por achar que não terá nada para dar. Mas acontece que essa pessoa está num clima de tensão e percebe que tem de entrar no jogo, e, mais do que isso, o novo herói tem o apoio da população.
As eleições são a meta, a campanha eleitoral são os últimos 200 metros. Um atleta conquista o espectador ao longo da corrida ou nos instantes finais? Ao longo da prova, claro está. Então é isso que uma candidatura tem de fazer: escrever uma história, a população vai contar a história. Rui Tavares e Tiago Mayan foram políticos que foram conquistando pessoas ao longo dos debates que tiveram nas eleições em que participaram. Como diz um amigo brasileiro consultor político: Emerson Saraiva (encontrem o perfil de “instagram”: “Eleja-se”), diz o seguinte: “Eleição não é filme ‘porn’, é romance”.
O que fideliza é nós conhecermos o candidato. Exemplo máximo? Marcelo Rebelo de Sousa. Anos a fios conhecemos aquele tio que nos entrava em casa com algumas graças, analisava a política, mas falava de futebol também, dizia o que tínhamos de ler, só assim se percebe que uma pessoa conservadora de direita fosse recebida com tanto entusiasmo na Festa do Avante, ou que levasse o Partido Socialista a não apresentar candidato próprio.
Romance e uma boa narrativa.

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Tempo, tempo e tempo. Já antes disse, a campanha não é um “sprint”, então vamos começar a campanha cedo, para termos tempo de apresentar as ideias, sem as pessoas estarem com a fadiga eleitoral que têm neste momento, em que já há confusão de discursos e estão inundadas de promessas e dados.
Outro ponto importante é sermos capazes de mandar no espaço e tempo mediático; e não, não é sermos filmados a levantar dinheiro numa caixa multibanco em Belém. Dominar o tempo mediático é sermos capazes de lançar ideias/propostas que os outros partidos são obrigados a comentar, através da pressão mediática. Então somos nós que dominamos o tempo da campanha, é ao ritmo da nossa música que os outros vão trabalhar, isso dá-nos um carácter inovador.
Ter tempo para as pessoas, as pessoas querem ser ouvidas, então vamos ter tempo para as ouvir, porque de certeza que os nossos adversários não vão ficar muito tempo a conversar com a Dona Maria da Mercearia. Porquê? Porque a campanha deles não tem tempo. Tempo para fazer a campanha, impor tempo mediático, gastar tempo com as pessoas. Tempo, tempo e tempo.

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Roteiro público. Vamos fazer um roteiro por Portugal, um serpentear entre Norte e Sul, Interior e Litoral. Anunciando quando o líder do partido vai estar presente em que cidades e apelar a que as pessoas se juntem, por uma razão a explicar no ponto 4. Fazer desse roteiro uma onda de uma cor escolhida pelo partido e pela campanha, fazer uma coisa a sério, não como o Chega fez na Rua de Santa Catarina, no Porto, meia dúzia a passar na rua sem abordarem os comerciantes. Têm medo do povo? Só pode ser isso.

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Assembleias de cidadãos. Se nós não temos medo do povo, então vamos ouvi-lo! Dizem os jornalistas e os comentadores de serviço que Marcelo Rebelo de Sousa faz e tem uma política de presidência aberta, então é porque não sabem nada de política e não viram aquilo que Macron implementou. Macron, presidente francês, marca encontro com as populações, que lhe podem colocar perguntas directamente, como uma conferência de imprensa, em que o Presidente anota as questões e vontades e debate olhos nos olhos com o cidadão e debate os pontos de vista.
Certamente que irão os caciques locais partidários marcar presença e tentar colocar gravilha na nossa engrenagem, mas também estamos preparados para isso e depois é tirar partido de filmar esses eventos, porque certamente vão existir momentos únicos, que as redes sociais vão adorar.
Não sei se deram conta, mas as televisões deixaram de ter os espaços de antena dados ao povo. Porque será?

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“Bunker” sempre preparado. Vamos para o “bunker”? Nem pensar! Mas temos de ter um “bunker” bem apetrechado, com pessoas a escreverem notas de redacção, a escreverem notas regionais, notas temáticas, enfim, vão ser as formigas alimentadas a bebidas energéticas e pizza com “extra-pepperoni” para que a campanha esteja sempre bem preparada e bem “breefada”. Se o candidato vai visitar Mirandela, tem que saber tudo sobre a cidade e saber curiosidades sobre a posta mirandesa, tanto como ou mais do que o próprio dono do restaurante. Porquê? Mostrar que é um deles, que conhece e dignifica a cultura daquelas gentes, neste caso através da gastronomia.
Mas porque não ir a Mértola e falar da importância desta cidade no comércio medieval, ou ir a Coimbra e falar da cidade moçárabe (sim, já estamos cansados da cidade dos doutores e do fado de Coimbra, não é menosprezar, mas há mais do que fado e estudantes em Coimbra), ou saber que foi o Seixal que deu novos mundos ao mundo, pois os melhores carpinteiros eram do Seixal, ou que o pai de Vasco e Paulo da Gama era o comendador do Seixal.
Reparem na felicidade que as pessoas têm sempre que a televisão vai a uma cidade ou vila a propósito de uma festa. Mal as pessoas sabem que os impostos municipais servem para as câmaras municipais pagarem entre 10 mil e 30 mil euros para as televisões irem fazer o programa de sábado ou domingo à tarde no seu município.
Em suma, precisamos de um gabinete nacional sempre a trabalhar para fazer o suporte ideológico e de bom “breef” à caravana nacional, isto, claro, se o gabinete distrital não o fez. Comigo tem de haver sempre gabinetes distritais, quero informação ao máximo. Pois, como já disse em artigo passado, informação é poder!

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Ganhar debates televisivos. Podemos estar no século XXI, podemos ter as redes sociais e tudo o mais, mas as pessoas ainda gostam dos verdadeiros clássicos. Vamos então ser bons nas novidades, mas também nos clássicos. Vamos para os debates e para as entrevistas esmagar tudo e todos e fazer com que isso tenha repercussões.
Se já repararam, as minhas estratégias funcionam todas numa base de “puzzle”, tudo tem encaixe e tudo tem conexão, porque assim estamos em trabalho contínuo. O que é mais fácil? Irmos ao longo do semestre escrevendo ensaios e depois fazer exame, ou fazer apenas exame? Ao ir fazendo ensaios aplicamos a matéria e temos casos práticos, então é justamente isso.
Reparem, nós dominámos o tempo na campanha, o que significa que os debates vão ser conduzidos muito a reboque daquilo que nós já obrigámos a enquadramento, então aí é só abrir a boca com os nossos exemplos e fruto do que foi recolhido do terreno. Então vamos nisso, rolo compressor!

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Ter repetidores de discurso controlados. Algo que funciona bem, sobretudo nos dias que correm, é termos perfis que repetem a nossa mensagem. Sim, são contas “fake”, se quiserem neste ponto de vista, mas foi algo que a Iniciativa Liberal, por exemplo, fez com a campanha do Tiago Mayan, em que foi criada uma página de “memes” e contas de “Twitter” a falar bem e a falar mal (controlado) do candidato.
Nós vimos, por exemplo, com estes debates o que aconteceu com o “pulsómetro”, em que candidatos que não ganharam o debate, supostamente (segundo as redes sociais) ganharam, porque juntavam-se as opiniões dos quadrantes políticos a falarem ora bem, ora mal dos candidatos. Como dizia alguém, “não interessa se falam bem ou mal, o importante é falarem”.
Importa aqui fazer parecer que temos “momentum” e que as coisas estão a ter repercussões nas pessoas. Basta ver como os jornalistas agora dão importância às redes sociais e às suas métricas. Se podermos dar um “doppingzinho”, não há problema, pois não é crime, só não é muito ético, mas todos os partidos têm os seus “bots” e os seus grupos de “WhatsApp”. Então não podemos ficar atrás, não vamos é fazer “fake news” e manipular a realidade: se nós somos bons, não precisamos de mentir. Percebeste, Bloco de Esquerda?

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Aqui fica mais um guia para ganhar as eleições como um grande rolo compressor. Isto quando entramos na última semana de campanha, durante a qual se espera que todos tenham as intenções de voto esclarecidas. Importa que os partidos tenham a capacidade de esclarecer e passar as suas mensagens.
Deixo aqui um apelo neutro para que todos se desloquem às assembleias de voto no dia 10 de Março e votem naquilo que são as vossas convicções, para que o voto popular se reflicta verdadeiramente e todos percebam, sem dúvidas, o que os portugueses querem: sinais claros, para que todos percebam igualmente qual a tendência e com isso percebermos, ou não, que ideias têm apoio e as que são apenas moda do momento.
Dia 10 de Março, vota! ■

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