É Portugal um país assim tão seguro?

Em Julho de 2022, o primeiro-ministro António Costa, perante uma plateia de empresários alemães, evidenciou a qualidade de Portugal ser o 4° país mais seguro do mundo, um argumento habitualmente utilizado pelo mesmo noutras ocasiões para atrair investimento estrangeiro para o nosso país.
O primeiro-ministro não mentiu propriamente ao fazer tal afirmação, se bem que tenha sido algo impreciso.
Segundo dados do “Global Peace Index”, Portugal seria, em 2022, o 6° país mais seguro do mundo e o 5° na Europa, sendo até de referir que em 2020 Portugal foi considerado o primeiro país mais seguro na Europa e o terceiro no mundo.
Mas, desde aí, a classificação tem vindo a cair, sendo que um ano depois, em Junho de 2023, o nosso país estava já no 7° lugar.
Convém referir para elucidação dos leitores que a dita classificação se foca em três áreas, a saber:
– Conflito doméstico e internacional;
– Segurança e protecção social;
– Grau de militarização.
Por exemplo, na segunda vertente mencionada e que mais directamente interessa ao quotidiano dos portugueses, a classificação de Portugal em 2022 era de 17°, bem longe, portanto, do impreciso 4° lugar badalado por António Costa.
Pode, portanto, concluir-se que o cidadão comum em Portugal se sente verdadeiramente seguro em Portugal?
Caberá a cada um de nós pronunciar-se sobre esta questão, atenta a sua própria experiência de vida.
Todavia, não podemos aqui deixar de enfatizar o velho e sempre actual problema dos incêndios.
Considera hoje o cidadão português que é seguro passar as suas férias numa cabana no meio da serra da Lousã?
Ou que é seguro ir para uma praia fluvial num dos muitos agradáveis espelhos de água do Zêzere? Ou das serranias do Gerês?
Como hipótese de resposta, aqui se recorda que, na passada semana, a aldeia de Monsanto, dita a mais portuguesa de Portugal, teve o fogo, por duas vezes, às portas das suas habitações e das muralhas do seu castelo.
É seguro visitar hoje as aldeias típicas de pedra do interior do país?
Paralelamente, os portugueses sentem-se hoje confiantes em deixar as suas habitações para irem descansados para férias nas suas terras de origem ou para outros destinos durante períodos relativamente longos?
Dados da GNR confirmam um aumento da criminalidade de 12% de 2022 para 2023. A PSP refere um acréscimo de 10,5%. Em números concretos, estamos a falar de mais 5.556 e 5.451 crimes, respectivamente. Mais de 11.000 crimes anuais de um ano para o outro!
A maior percentagem de aumento integra-se na chamada delinquência grupal e juvenil (mais de 40%, segundo os dados da PSP). A criminalidade violenta representa 2,3% de aumento.
Por tipologia de crime, temos à cabeça a burla informática e de comunicações, seguida de outras burlas, furtos de oportunidade e ofensa à integridade física. Os roubos por esticão e outros roubos são outra variável da criminalidade que tem vindo a aumentar exponencialmente.
Em que medida estes dados são reveladores da instabilidade e falta de oportunidades sentidas hoje pela juventude portuguesa? Ou serão fruto de uma educação deficiente das famílias e da escola, baseada no facilitismo e na menorização do valor do trabalho e do sacrifício?
As causas institucionalmente indicadas para o aumento da criminalidade radicam na pandemia Covid-19, droga, intensidade da vida, radicalização social, crise e inflação.
Dados do INE de 2022 indicam os crimes contra o património em 1° lugar, representando cerca de 50% do total de crimes. Já os dados do “PORDATA”, em 2021, referiam os crimes contra o património em segundo lugar e os crimes contra pessoas em primeiro.
Admitindo que se encontram neste âmbito do património os incêndios e os assaltos a residências, reforçamos o exposto anteriormente:
– Sente-se o cidadão nacional seguro em sair de sua casa para gozo das suas férias e aventurar-se pelo interior do país?
Em contactos directos com elementos das forças policiais, foi-nos confidenciado que muitos crimes ficam na sombra, isto é, não surgem sequer nas estatísticas. Um exemplo concreto é o da recuperação do produto de um roubo… se o ladrão não tiver sido apanhado em flagrante não é sequer detido!
Mas os cidadãos que foram objecto do referido roubo não deixam de ter sofrido o impacto negativo do crime perpetrado.
Neste domínio concreto dos assaltos residenciais, o Estado deixa os cidadãos completamente entregues à sua sorte.
As forças de segurança, sem poder, sem recursos e desmotivadas, não fazem devidamente o seu trabalho de vigia e prevenção. Muitos dos meliantes, quando detidos, são postos imediatamente em liberdade pelos juízes, por estes considerarem tratar-se de pequena criminalidade. Voltam à rua e repetem a graça… e o cidadão que sofra as consequências.
Segundo informações recolhidas informalmente junto das forças de autoridade, as bases de dados de ADN são ainda incipientes, em parte derivado da legislação sobre protecção de dados (?!…), e as de impressões digitais, se bem que mais completas, também não se revelam muitas vezes suficientes para identificar os autores de certos crimes em sede de peritagem.
O cidadão que aguente os roubos, as burlas e até o risco de morrer queimado num incêndio.
Esta é a resposta que o Estado dá ao português comum que conduz a sua vida com seriedade e honestidade. ■

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