Montenegro e os sapos

Montenegro sujeitou-se, esta semana, a uma prova de fogo, ao ser entrevistado na “CNN”.
A primeira estranheza vai para o “timing” escolhido: exactamente na véspera da apresentação do Orçamento de Estado. É um erro de principiante, sabendo que correria o risco de ver esvaziado (como viu!) o conteúdo da sua mensagem. Quer a comunicação social, quer o Zé Povinho, valorizam e interessam-se muito mais pelas políticas que lhe podem afectar o bolso, do que por mensagens ou eventuais programas de Governo a quase três anos do ciclo eleitoral. É um erro de palmatória comunicacional que, quer Montenegro, quer o PSD não deveriam, nem poderiam correr. O tempo das coisas tem uma leitura e uma análise que nem sempre são benéficas.
Segundo, o que Montenegro deveria ter feito era, imediatamente a seguir à entrevista da semana passada do primeiro-ministro, marcar presença num outro canal e formato, expondo todas as falências do discurso e das políticas. Não seria necessário, nem conveniente, nessa intervenção, apresentar propostas ou alternativas, apenas “desmascarar” António Costa e sublinhar a incompetência do seu Governo. Ao optar pelo mesmo formato, não escapa a uma comparação, onde manifestamente perde. Ninguém quer saber do discurso, poucos ligam às propostas e quase ninguém a cenários que estão a uma enorme distância temporal. O que se avalia é a postura, a confiança, a segurança nas palavras. Costa faz-se valer do cargo, de um percurso político de décadas e de uma personalidade fadada às camaras e exposição mediática. Montenegro é, apenas, um protocandidato ao lugar que Costa ocupa e ainda está a expiar pecados passados do PSD e dos líderes que o antecederam. Foi para um duelo, armado de faca…
Inexplicável, porque de amador, é não levar na mão diversas sondagens que contrariassem a que havia sido publicada pela “TVI” dias antes… O PSD, à semelhança dos outros partidos, encomenda regularmente sondagens internas e, deixemo-nos de eufemismos, muitas vezes à medida! Ir munido de uma ou várias sondagens que contradissessem a anterior seria dar à questão a relevância que a mesma tem hoje, ou seja, nenhuma. Ter que andar a explicar que o desgaste e incompetência do Governo não se traduzem num ganho efectivo para o PSD é penoso e tarefa de difícil compreensão. Pedir tempo e lembrar sondagens passadas, ao invés de relevar a perda de votos à esquerda e sublinhar que os resultados socialistas são alcandorados, maioritariamente, em subsídios, abonos e numa dependência e subserviência ao Estado sem paralelo nos regimes democráticos, é de amador…
Justificar Rio ou Passos, é esquecer que Costa nunca justificou Guterres, Sócrates, ou todos os anos em que esteve nos sucessivos Governos socialistas. Costa foi hábil sempre que foi questionado relativamente a estas matérias. Montenegro ficou preso na primeira arapuca que colocaram no seu caminho…
Também só a inexperiência e uma cedência à pressão mediática, podem explicar uma nega firme ao Chega a três anos de um acto eleitoral. A resposta que se exigia seria a forte convicção de que o PSD irá ser Governo e que está disposto a ouvir todos os contributos, da esquerda à direita, a bem de Portugal e dos portugueses, como deve suceder em democracia. E, perante a insistência que se adivinhava, impunha-se a contra-ofensiva do porquê de nunca questionarem o Partido Socialista se voltará a governar com o apoio do Bloco ou dos comunistas.
No que respeita ao modo, o que se pretendiam eram mensagens claras, firmes e curtas a soar a “sounbytes”. Optar por um ritmo discursivo muitas vezes redondo, eivado de explicações ou enquadramentos supérfluos, num tom seminarista, faz com que o essencial da mensagem se perca. O excesso de explicações menoriza o conteúdo, passando a ideia que é necessário convencer as pessoas, quando o que se pretendia é que a mesma ressaltasse como uma evidência inquestionável.
Ligeiramente melhor, Montenegro, na segunda parte, quando se dirigiu aos presentes e respondeu de forma mais clara e mais objectiva, demonstrando conseguir chegar a um público mais jovem e, presume-se, mais letrado. Ainda assim um público largamente descrente. Em Montenegro, no Governo, na política e no país, como se via pelas caras dos presentes quando eram “apanhados” pelas câmaras. Perdeu, porém, uma oportunidade de ouro, quando foi perguntado quanto à sua posição relativamente às renacionalizações. Deveria ter sublinhado que quando estas são realizadas por meras derivas ideológicas, têm custos insustentáveis para o país e não garantem, nem melhores serviços, nem melhores preços. A TAP é o exemplo paradigmático que deveria ter sido explorado até à exaustão.
Com a distância que se impõe, Montenegro e o PSD deveriam questionar-se porque é que, quer o Chega, quer a IL, sobem nas intenções de voto e o PSD não. Ninguém conhece uma ideia ou um programa político ao Chega ou uma reforma profunda (que não na fiscalidade) promovida pela IL. Não que elas não existam, que existem, mas apenas porque aqueles partidos sabem quais são as suas bandeiras comunicacionais e exploram-nas na perfeição. A contestação, pública, dura e frontal por parte do Chega e a centralização de uma ideia de política económica liberal, por parte da IL. É o que se chama assertividade comunicacional e com resultados comprovados. Pouco se entende como é que o PSD, batido nestas andanças, perdeu o espaço político de oposição e se pretende apenas pautar como alternativa… Como referi, é de um incompreensível amadorismo que pouco se coaduna com o cargo que pretende exercer e com os desafios colocados pelo seu principal opositor. A única boa notícia é que têm ainda tempo de mudar a agulha… ■
P.S. – Uma nota que não posso deixar em claro. Os sapos de Ricardo Araújo Pereira. Sabendo que não é fácil fazer (bom) humor semanalmente e que os limites deste são muito mais elásticos do que em qualquer outra profissão, RAP dinamitou a causa dos ciganos e todos os esforços feitos nas políticas de não discriminação. Ao trazer à liça os sapos que se colocam à porta dos estabelecimentos comerciais para afastar os ciganos, tentando (em minha opinião) uma comparação infeliz entre a relação do Presidente da Assembleia da República com o Chega, RAP discriminou, menorizou e gozou a comunidade cigana. Curiosamente, a plateia riu e aplaudiu… O paradigma é que RAP veio dar razão a Ventura quando este refere que existe “um problema” com a comunidade cigana, colocando-o a nu, sob a forma de um sapo, em horário nobre.
Mas, face à inexistência de reacções dos partidos de esquerda, da comunicação social e comentadores avençados e da própria comunidade visado, só posso concluir que a xenofobia só existe quando veste fato e gravata… ■

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