Um dos grandes romances de Saramago é, sem dúvida, “O Ensaio sobre a Cegueira”. Na obra, que começa com o caso único de um motorista que, sem sintomas prévios, se vê acometido, subitamente, de uma cegueira que rapidamente escala à dimensão de pandemia, o autor discorre sobre a condição humana e o abandono das características de humanidade, num caos colectivo. Importa aqui realçar que a cegueira de Saramago não constitui doença e que serve de alegoria não à perda de visão, mas de capacidade crítica. Numa das obras que se seguiu – e aproveitando grande parte dos personagens – Saramago ensaia sobre a lucidez, empoderando um Estado e os seus governantes que, com medo de perderem o poder, benefícios e autoridade, tomam medidas segregacionistas, como haviam feito na epidemia anterior.
Toda a cegueira ideológica, política, clubística, religiosa ou de outra ordem é má, quer por definição, quer pela aplicação prática e consequências que dela resultam. Rapidamente, os sãos são por ela contagiados ou, no limite, afectados pelos medos e decisões dos infectados.
Assim o é, presentemente, em Portugal. Vivemos de chavões, cegos e etéreos, sem corpo, sem fundamento, sem racional que os sustente, mas pregados por maiorias cegas, acríticas, facilmente influenciáveis e sobejamente ignorantes. Confrontados com os factos que contraditam a narrativa e na ausência de argumentos válidos, ululam o pregão: “se isto é assim, imagina só se fosse a direita que estivesse no poder. Seria muito pior, seguramente!”. Mais do que capcioso é indemonstrável porque, por sua vontade, jamais a direita estará no poder, não podendo, por isso, permitir-se a juízos comparativos.
Percebendo a natureza humana e a predisposição de uma chusma acrítica, seguidista e dependente, Costa tratou de alimentar a máquina por forma a que a convicção se espalhasse como uma infecção, legitimando o Estado a tomar todas as medidas tidas por necessárias para a sua contenção, “a bem de todos”. Começou por comprar os favores da comunicação social, arremessando os insucessos governativos que vai acumulando para terceiros – o eterno Passos – ou para conjunturas que não controla – os mercados, os juros, os bancos, o Covid, a guerra – e subsidiando tudo o que soa a contestação. Hoje, mais de metade dos portugueses não sabe viver sem os subsídios, os abonos, as comparticipações e tudo o que soe a esmola socialista. Estão mudos, inertes e, como se pretende, dependentes. Esta é a maior garantia de perpetuação do poder de Costa.
Esta semana saíram dois estudos importantes e preocupantes que pouco mais resultaram do que notas de rodapé ou notícias marginais atiradas para o meio das grelhas de programação do regime. O primeiro diz-nos que o risco de pobreza é hoje maior nas crianças e jovens do que nos idosos, tendência que se acentuou fortemente nos últimos anos. Tal facto é alarmante já que, se por um lado representa uma inversão de curva e retrata um profundo agravamento face a uma tendência que se tinha por estável, por outro, é representativo de uma pobreza generalizada e estruturante que condicionará o nível de vida e de oportunidades das gerações futuras. Um dos reflexos mais sentidos centra-se na precaridade laboral, quase o dobro da que se regista na Europa. O outro, dá-nos a conhecer o perfil dos jogadores das raspadinhas. Pode parecer inócua ou meramente lúdica a informação, mas a verdade é que retrata uma preocupante realidade social. Quem mais gasta dinheiro neste tipo de jogos de sorte e azar é quem menos tem para gastar e está mais exposto a situações de fragilidade. Grosso modo, são os que menos rendimentos possuem e os mais idosos que apostam com maior frequência. A população que ganha entre 400 e 664 euros tem uma prevalência três vezes e meia superior a quem ganha mais de 1500 euros mensais. Aqueles que apenas têm o ensino básico, contam com uma probabilidade quase seis vezes maior aos que têm uma educação superior. E os idosos o dobro da dos jovens…
Num Portugal onde essas eram as áreas prioritárias do Governo: jovens, idosos, literacia, baixos rendimentos e precaridade laboral, estranham-se os números, a ausência de medidas e, sobretudo, o papel do Executivo e das Instituições. No caso das raspadinhas a realidade é tão mais preocupante na medida em que quem mais beneficia da receita gerada pelo jogo, é quem mais apoios concede à maioria das pessoas que a gera: o Estado e a Santa Casa. Ou seja, é um ciclo vicioso: o Estado ganha em impostos e receitas, subsidia os mais necessitados, sabendo que eles voltarão a comprar raspadinhas, voltando o Estado a ganhar e a distribuir e assim sucessivamente… À pala da manutenção de direitos e igualdades, nem pensar em regimes discriminatórios que impeçam, impossibilitem ou dificultem os mais vulneráveis de jogar. Percebe-se: é inconstitucional e constituiria um precedente perigoso. No entanto, a abolição do jogo das raspadinhas, de forma transversal, liminar e para todos, não o será, seguramente. O problema é que retira ao Estado uma importante fonte de financiamento e a oportunidade de “devolver” parte dos ganhos sob a forma de subsídios e apoios para gáudio da maralha…
Aproveitando a profunda ignorância do povo e ausência de informação por quem tem o dever cívico de o fazer – a comunicação social –, Medina veio anunciar mais um pacote de medidas de apoio para combater o aumento das taxas de juro e da inflação. O BCE e a OCDE já vieram explicar que a tendência é de estabilização e que tal só não acontecerá se houver aumentos drásticos nos preços dos combustíveis e energia. Ora, o que é que Costa tem feito, de forma sucessiva e reiterada nos últimos anos e que se prepara para continuar a fazer? Aumentar, criminosamente, os impostos sobre um e outro, mesmo quando os restantes países têm procedido a baixas substanciais (basta olhar para Espanha, entre outros).
E nós, os cegos, continuamos a aplaudir, a agradecer as migalhas ofertadas do nosso próprio bolo e a gritar a plenos pulmões: “Ainda bem que somos socialistas. Imaginem só se fosse a direita que estivesse no poder…”.
Se Saramago ainda fosse vivo, poderia também escrever um “Ensaio sobre a Estupidez”, partindo do personagem “em terra de cegos, quem tem olho é rei”… Assim o é, de facto.
Avé, Majestade! ■
Pobrezinhos e sem honra




