Política: eleições e salários custam-nos 300 milhões

Política: eleições e salários custam-nos 300 milhões

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Este ano, entre despesas com o sufrágio autárquico e ordenados pagos a detentores de cargos eleitos, cada português será chamado a contribuir com 30 euros para sustentar a classe política.

Seria simpático que, quando os portugueses vão às urnas, lhes fosse apresentado o recibo da despesa que acabaram de fazer. É que política profissional em Portugal é paga com o dinheiro dos seus impostos, e a factura que a classe política nos vai apresentar este ano será mais bem elevada do que em 2016. No total, cada português vai ter de entrar com cerca de 30 euros para sustentar a classe política em 2017.

Em Outubro realiza-se a 12ª eleição autárquica da III república. Os sufrágios deste tipo são o maior evento partidário do calendário político, pois é nas autárquicas que os partidos podem distribuir dezenas de milhares de cargos pelos seus militantes mais influentes.

Embora o “tacho” a distribuir seja menor do que em 2009 (em 2013 o Governo da coligação de Direita fundiu um grande número de freguesias, reduzindo o total de cargos eleitos), ainda podemos falar em números muito significativos. Para além disso, vamos ainda ter de pagar 60 milhões de euros em subvenções para os políticos poderem fazer campanha com a finalidade de adquirirem os ditos cargos.

Oferta de emprego

Entre as ofertas de emprego autárquico que incluem ordenados fixos, este ano há 308 presidências de Câmaras Municipais para distribuir, 2 mil lugares como vereador a preencher, e ainda mais de 3 mil presidências de Junta de Freguesia a atribuir.

Estes são os cargos mais apetecíveis, já que os cargos nas legislaturas locais não vencem ordenado. No entanto, não deixam de ser cargos com alguma remuneração, visto que estes “mini-tachos” rendem as chamadas “senhas de presença”, que totalizam uma maquia significativa. Nesta situação existem mais de 6 mil assentos para distribuir nas várias Assembleias Municipais, e mais de 27 mil lugares nas Assembleias de Freguesia do país. Ao todo, são mais de 32 mil cargos, eleitos por listas fechadas controladas pelos partidos políticos, sistema eleitoral ao qual as listas independentes têm enorme dificuldade de acesso, mesmo que algumas tenham tido algum sucesso nos últimos anos.

Em termos de remuneração, apesar das constantes queixas, o ordenado de autarca não deixa de ser elevado num País onde praticamente um quarto da população vive com o ordenado mínimo, e onde, segundo estudos como o da Fundação Francisco Manuel dos Santos, o ordenado médio ronda os 830 euros mensais.

Descontando os presidentes das Câmaras de Lisboa e Porto — Fernando Medina e Rui Moreira auferem 3.500 euros por mês — os líderes das várias autarquias recebem entre 2.550 e 3.200 euros por mês, dependendo da população do município que governam. Isto, caso lhes apeteça trabalhar em regime de exclusividade, pois se preferirem juntar o ordenado de autarca ao da sua profissão, levam para casa entre 1.300 euros e 1.600 euros, mais do que o ordenado que a esmagadora maioria dos portugueses leva para casa todos os meses a trabalhar a tempo inteiro nos seus empregos.

Só os 308 presidentes das Câmaras custam aos contribuintes cerca de 13 milhões de euros anuais. Os vereadores das Câmaras ganham quase tanto como o chefe do executivo camarário, entre 2.040 e 2.550 euros mensais em exclusividade, ou entre 1.070 e 1.300 euros em regime de ‘part time’. Os mais de 2.000 vereadores custarão em redor de 60 milhões de euros por ano aos contribuintes, valor que se aproxima dos outros 60 milhões que nos custam os presidentes das várias Juntas. Grande parte dos líderes de Freguesia aufere entre 1.220 e 1.900 euros por mês caso esteja em regime de exclusividade a tempo inteiro, e entre 610 e 900 euros em regime de ‘part time’ (nas Freguesias mais pequenas, a “compensação para encargos” ronda os 300 euros mensais).

A juntar aos ordenados, a lei ainda prevê que estes cargos executivos possam conferir direito a “despesas de representação”, que variam entre os 800 e os mil euros para os presidentes de Câmara, e os 350 e os 550 euros para os presidentes de Junta.

Para os órgãos legislativos locais não há ordenados, mas sim senhas de presença, que no caso das Câmaras Municipais ronda entre os 60 e os 80 euros por cada reunião em que se participa, o que não é um valor nada insignificante contando que muitos portugueses não chegam a ganhar nem 5 euros por hora, o que equivale a 40 euros por um dia inteiro de trabalho.

Será difícil prever quanto em ordenados os portugueses vão pagar aos novos autarcas a partir de 2017 devido às circunstâncias locais, sendo difícil estimar quantos eleitos vão optar por funcionar a tempo inteiro, em exclusividade ou não. Mas a despesa oscilará aproximadamente entre 120 a 160 milhões de euros por ano somente em ordenados, ocasionais senhas de presença, e ainda despesas de representação. A este valor, este ano, temos de adicionar ainda os 60 milhões que nos vai custar eleger os futuros representantes da população, valor que atira o total para a casa dos 200 milhões de euros. E a procissão da classe política ainda vai no adro…

Assembleia bem remunerada

Embora o foco político do ano se centre nas autarquias, a Assembleia da República continua a custar-nos dinheiro. Apesar de os portugueses apenas conhecerem meia dúzia dos parlamentares que supostamente os representam, os ordenados dos 230 deputados presentes no hemiciclo vão custar-nos quase 12 milhões de euros em vencimentos ordinários e extraordinários.

Cada deputado aufere um ordenado-base de 3.600 euros e, apesar de haver quem defenda tratar-se de um salário baixo para as responsabilidades inerentes, saiba o leitor que os deputados não estão abrangidos por um regime de exclusividade, o que lhes permite juntar este rendimento a outros que aufiram nas suas profissões. Caso optem pela exclusividade, ainda recebem mais 370 euros de “despesas de representação”, aumentando a remuneração total para quase 4.000 euros.

Mas há benesses e privilégios inerentes a esta ocupação que importa considerar, como as muitas ajudas de custo, que custam 3,4 milhões de euros aos bolsos dos contribuintes, ou os 3,3 milhões de euros que nós pagamos para os transportes dos deputados, ou os 1,5 milhões de euros para os deputados viajarem e ficarem bem instalados em hotéis. Escondida no orçamento também está a dotação de 14 mil euros do dinheiro público para o Grupo Desportivo Parlamentar, cujas actividades incluem, segundo o seu website, uma “Clínica de Iniciação ao Golpe”, para além de “danças latinas”, “futsal” e “yoga”. Por sua vez, a Associação dos Ex-Deputados também recebe 24 mil euros para que os parlamentares na reforma possam organizar passeios, seminários e tertúlias.

Manter o complexo da Assembleia da República para os 230 deputados eleitos pelos partidos continuarem a debater custa ao povo cerca de 82 milhões de euros por ano. A este valor há que adicionar as subvenções para as campanhas eleitorais, que este ano são de 60 milhões de euros.

Tudo junto, neste ano de 2017, entre campanhas para os eleger, mais os seus ordenados, privilégios e benesses, os políticos vão custar aproximadamente 300 milhões aos seus ‘súbditos’.

Entretanto, a economia nacional encontra-se estagnada há 16 anos e os ordenados dos portugueses comuns não param de encolher.

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