Quem ficou na miséria não deu pelas “ajudas”

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Os órgãos de propaganda do Governo não se cansam de falar em “milhões” de pretensas “ajudas” que estarão a ser disponibilizadas em socorro de empresários aflitos – os mais duramente atingidos pela crise resultante do confinamento pandémico. 

Para muitos deles, contudo, tais “milhões” não passam mesmo de propaganda. As burocracias envolvidas, as ratoeiras fiscais e a dificuldade de conseguir caber nos “parâmetros” definidos para os diversos sectores fazem das “ajudas” uma miragem fora de tempo. E se em alguns sectores, como a hotelaria, as dificuldades dos empresários são mais visíveis, outros sofrem em silêncio.  

Um completo falhanço foram as “ajudas” aos barbeiros e cabeleireiros: durante largas semanas obrigados a encerrar as portas dos estabelecimentos e proibidos de exercer domesticamente a profissão, só 50% conseguiram reabrir as suas portas na passada segunda-feira. A outra metade dos empresários do ramo pura e simplesmente faliu, segundo dados divulgados pela Associação Portuguesa de Barbearias, Cabeleireiros e Institutos de Beleza.

Já em 2020, em resultado das primeiras medidas de confinamento, cerca de 1.500 cabeleireiros tinham encerrado a actividade, incapazes de manter as despesas fixas sem que na caixa entrasse um cêntimo. O sector emprega, em todo o país, cerca de 40.000 profissionais. Em Janeiro deste ano, a Associação implorou ao Governo que incluísse cabeleireiros e barbeiros no rol dos serviços essenciais à população e os integrasse nas excepções ao confinamento. Mas o Executivo socialista não aquiesceu – e o resultado está agora à vista. 

Outro sector em agonia silenciosa é o dos ginásios e similares: desde o início do confinamento, já fecharam mais de 300 em todo o país, “o que num universo dos 1.200 que existiam representa um quarto e é bastante grave”, como sublinhou José Carlos Reis, presidente da Associação de Empresas de Ginásios e Academias de Portugal, em declarações ao ‘Expresso’. Onde terão ido parar as apregoadas “ajudas”?

“Somos um sector essencial para a população, o exercício físico ajuda ao sistema imunitário das pessoas, à sua saúde física e mental, temos de estar 

entre os sectores prioritários a desconfinar”, defende José Carlos Reis. Cerca de 80% das empresas do sector são “pequenos negócios familiares, de marido e mulher ou de pais e filhos, que nesta fase são os que mais sofrem”, salienta o responsável da Associação. Em apuros financeiros estão agora os cerca de cinco mil trabalhadores independentes, técnicos de exercício físico especializados em ioga, ‘fitness’ e outras actividades, que prestavam serviços em dois ou três ginásios e ficaram fora do ‘lay-off’. 

As dificuldades no sector da hotelaria são geralmente conhecidas. Contudo, talvez nem todos os portugueses tenham noção de que, só no primeiro mês deste ano, o número de hóspedes caiu 78% e a facturação sofreu um rombo de mais de 80%. Dificilmente as apregoadas “ajudas” evitarão a falência de muitas empresas do sector, com a correspondente perda de postos de trabalho. ■